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Cruzeiro: especialistas contestam doação de dinheiro sem contrapartida

Crupix é a mais nova ação do Cruzeiro para arrecadar dinheiro com ajuda do torcedor - Divulgação
Crupix é a mais nova ação do Cruzeiro para arrecadar dinheiro com ajuda do torcedor Imagem: Divulgação

Guilherme Piu

Do UOL, em Belo Horizonte

03/06/2021 04h00

Classificação e Jogos

O Cruzeiro, que vive grave crise financeira e mostra enormes dificuldades para manter contas básicas em dia, lançou recentemente o "CruPix, mais uma alternativa para arrecadar dinheiro vindo de forma direta de seu torcedor. Baseada na nova metodologia de transações financeiras promovidas por bancos no país, o Pix, o produto pretende gerar ganhos que, de acordo com o clube, serão utilizados para quitar pendências salariais com funcionários administrativos e até atletas. Mas, até que ponto esse tipo de ação é positiva? Será possível engajar o torcedor de forma satisfatória nisso?

O UOL Esporte foi atrás de especialistas para entender o caminho que o Cruzeiro tem adotado para arrecadar dinheiro, já que os efeitos da pandemia foram ainda mais cruéis para um caixa que já estava combalido por gestões temerárias ao longo dos últimos anos.

Para Pedro Trengrouse, especialista em gestão esportiva pela Fundação Getúlio Vargas, é preciso que o clube seja transparente e mostre de fato onde os recursos doados estão sendo aplicados.

"Fazer diferente para fazer a diferença. Por que o torcedor colocaria dinheiro numa estrutura associativa sem fins lucrativos que já se provou inadequada para o desenvolvimento pleno das suas atividades? O mercado publicitário observa atentamente a capacidade de engajamento de torcedores que um clube tem e dá muito valor a isso. O Fluminense, por exemplo, fechou com a Unimed o maior patrocínio da sua história quando ainda estava na Serie C e batia recordes de público nos estádios do país inteiro", citou como exemplo ao UOL.

Trengrouse também afirma que as ações que envolvem pedidos diretos de dinheiro ao torcedor devem oferecer alguma contrapartida, seja ela dentro ou fora do campo. E que o insucesso de ações dessa forma podem sim ter como justificativa a não oferta de algo para quem doa.

"Pode ser um dos motivos sim [falta de contrapartida], mas não é o único. Até porque uma das contrapartidas que um clube pode dar ao seu torcedor é a conquista de títulos em campo. O Vasco, por exemplo, recentemente levantou mais de R$ 5 milhões em doações para a construção do seu Centro de Treinamento", também lembrou.

A tentativa de angariar recursos por meio do "CruPix" é a terceira utilizada pela atual diretoria do Cruzeiro. No ano passado foram lançadas a "Operação Fifa" e da "Centavos Celestes". A primeira consistia em doação para ajudar no pagamento de dívidas cobradas por outros clubes na entidade máxima do futebol. Já a segunda gera até hoje recursos por meio do arredondamento de compras feitas nos cartões de crédito dos torcedores cadastrados.

"Cada torcida tem uma característica. A gente vive um momento de projetos colaborativos e isso leva a uma excessiva expectativa de que os torcedores vão financiar qualquer coisa e abraçar o clube indefinidamente. No Brasil há um caso particular que é a torcida do Vasco. Outros clubes não têm uma história do mesmo tipo e essa lógica da doação constante, usualmente, não vemos como algo que dê certo. Clubes muito grandes como Botafogo e Cruzeiro, que estão em situação mais difícil, é normal que o torcedor tenha essa sensação de déficit, ou seja, já doou muito e espera que o clube dê um retorno", explica o especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte, Bruno Maia.

O Cruzeiro arrecadou pela ajuda de torcedores R$ 722.218,00 na ação denominada "Operação Fifa". O valor foi apresentado no balanço patrimonial do ano de 2020 da Raposa. O valor arrecadado até aqui com o CruPix está detalhado em um portal da transparência mantido pelo clube. Até o dia 1º de junho quase R$ 42 mil já haviam sido arrecadados.

"É complicado quando o clube fica muito dependente desse abraço do torcedor para financiamento de ações, isso é considerado um modelo de alto risco. Para potencializar isso o clube precisa transformar o produto em resultado como qualquer linha de consumo. E isso pode ser o time campeão em campo ou algum outro benefício útil na vida. É uma situação muito particular, complicada de o clube depender desse crowdfunding moderno", afirma Bruno Maia.

"Um caminho para isso é criar ativos que gerem valor, compartilhem valor financeiro para o torcedor. Estão surgindo muita coisa com criptomoedas e essa lógica de o torcedor ter retorno financeiro pode crescer muitos nos próximos anos, por ser algo mais real para o torcedor", completa.

Criptoativos

Citado por Bruno Maia, o mercado de criptoativos já começa a buscar espaço no futebol. O Cruzeiro já é uma dessas equipes que explora possibilidades de usar a tecnologia bitcoin para criar recebíveis digitais. O clube criou o "Cruzeiro Token" que ligará o mecanismo de solidariedade da Fifa em um programa de remuneração a investidores por meio da venda de jogadores formados na base. Cada "ação" desse projeto deve valer algo em torno de R$ 25 e o clube espera arrecadar pelo menos R$ 6 milhões nessa empreitada.

"A gente vive um novo momento em que existem ferramentas para, mais do que simplesmente dar carinho ao torcedor que doou o dinheiro, você o faça ser partícipe dos resultados da operação desse dinheiro, ele ter retorno financeiro. Estão existindo ferramentas cada vez maiores para isso. No Brasil a gente vê plataformas para financiamento de startups em que você coloca dinheiro e tem participação no resultado. O clube tem que mirar esse tipo e ação, envolver o torcedor em algo que possa ter o resultado medido", comentou Bruno Maia.

"A gente está iniciando uma fase muito grande de tokenizações, onde cada vez mais será possível a facilitação de investimentos com retorno financeiro aos investidores. Com possibilidade de ver quanto cada um investiu e remunerar todos esses elos da cadeira. E esses elos podem ser os torcedores, que poderão ter retorno financeiro palpável, real. Esse sim é um caminho de inovação. Enquanto chamar o torcedor para participar sem algo de contrapartida, isso está cada vez mais esgotado. De fato o futebol precisa renovar nesse sentido. Se o clube quer chamar a torcida para participar, será preciso garantir um retorno", concluiu Maia.

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