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Alpinista que escalou o Everest quer inspirar Atlético-MG na Libertadores

Gustavo Ziller é atleticano por influência do avô, ex-conselheiro do clube e autor de uma enciclopédia do clube mineiro - Gabriel Tarso
Gustavo Ziller é atleticano por influência do avô, ex-conselheiro do clube e autor de uma enciclopédia do clube mineiro Imagem: Gabriel Tarso

Henrique André

Do UOL, em Belo Horizonte

03/06/2021 04h00

Chegar ao ponto mais alto da Libertadores e fincar sua bandeira no topo do torneio de clubes mais importante da América do Sul, assim como fez em 2013, não será desafio fácil para o Atlético-MG, que terá o Boca Juniors-ARG nas oitavas e outros gigantes no trajeto, caso avance. Contudo, assim como faz um alpinista de sucesso, o Alvinegro precisará de uma estratégia para percorrer o caminho, com paciência para não atropelar etapas, resiliência para não sucumbir às dificuldades e bastante atenção para não ser engolido por uma avalanche de armadilhas.

Se precisarem de alguém para se espelhar, Cuca e seus comandados podem mergulhar na saga de um torcedor que tem o Galo no sangue. O alpinista Gustavo Ziller, neto de Adelchi Ziller, ex-conselheiro do clube e autor da enciclopédia "Atlético de Todos os Tempos", conquistou recentemente "a sua Libertadores" ao chegar ao cume do monte Everest, montanha de maior altitude da Terra, com quase 9 mil metros; o feito foi alcançado em 23 de maio.

"Eu e minha família temos uma ligação muito grande com o Atlético, por causa do meu avô. Quando ele faleceu, jogamos as cinzas dele no Mineirão. O esporte chegou na minha vida por causa do futebol", conta Gustavo ao UOL Esporte. "Vovô me levava na Vila Olímpica [antigo Centro de Treinamentos do Galo]. Eu entrava no vestiário e via Paulo Isidoro, Luizinho, Éder... Levar o símbolo máximo do clube [bandeira] para uma conquista destas é como se eu tivesse ganhado a Libertadores para o time. Imagino que seja a mesma sensação que Tardelli, Ronaldinho, Bernard, Léo Silva, Réver e Victor tiveram quando ganharam em 2013".

"No Everest, tem alguns desafios e alguns deles são mais latentes. O primeiro é não ficar doente, porque é uma expedição de dois meses. Se você adoece, ela acaba na hora. Então é cuidar bem da alimentação, da fisiologia e da cabeça para não sucumbir a uma simples gripe. O ponto número dois é que aquele ditado —'nada como um dia após o outro"— é extremamente real e válido. Num dia em que você não estiver se sentindo bem, dorme, descansa e recupera para o próximo", acrescenta o mineiro belo-horizontino de 47 anos.

Ainda de acordo com Ziller, ele levou o lema do 'Eu Acredito' e o fez de mantra para a equipe que o acompanhou no desafio em solo nepalês. Segundo ele, foi uma forma de demonstrar que a fé estava ali, bem ao lado de cada um, principalmente naqueles momentos em que tudo parecia dar errado.

"Estou processando isso até agora. Foi a coisa mais exaustiva e impactante que já fiz na minha vida. Foi no limite do limite do limite. Quando chegamos ao cume, fiz questão de abraçar todo mundo. Para fazer algo desta magnitude, ninguém faz sozinho. É uma analogia para nossa vida; vivemos em coletividade. A palavra que uso é transcendência"

"Um recado que dou para os jogadores é que o objetivo não tem que ser campeão brasileiro ou da Libertadores. Tem que ser o time mais regular de todo campeonato que entra. Temos que ter os índices da regularidade ao nosso favor. A cada objetivo que a gente completa, estará mais perto do topo; e ainda teremos a metade do caminho para percorrer na volta. Nosso objetivo não é conquistar a montanha, é voltar para casa e contar a história. Não temos que desistir quando as coisas apertam", diz.

Assim como precisou desafiar o gelo, Gustavo faz outra analogia. Em 1950, em excursão à Europa —feito este em que o Atlético-MG foi pioneiro no país—, o Alvinegro venceu grandes clubes do continente e ficou com o caneco, conhecido como 'título do Gelo', eternizado no hino oficial do clube.

"Quando tinha meus nove anos, fascinado com futebol, o 'campeão do gelo' no hino me fascinava. Era um livro de ficção para mim, tipo Nárnia ou Senhor dos Anéis. Fazendo esta analogia hoje, tenho certeza que nenhum outro time brasileiro teve a bandeira no cume do Everest por 40 minutos. Espero que todos os jogadores, dirigentes, e toda a comunidade alvinegra entenda como uma homenagem genuína e inédita. "Espero que esta bandeira fique na sala de troféus e que seja tratada como patrimônio. Vou autografá-la e entregá-la ao clube", revela Gustavo.

Gustavo Ziller no Everest - Gabriel Tarso - Gabriel Tarso
Só de taxa para autorização, o governo do Nepal cobra cerca de R$ 60 mil de cada alpinista
Imagem: Gabriel Tarso

Costela quebrada

Durante o que os alpinistas chamam de 'ataque ao cume', ele acabou fraturando uma costela. Porém, no calor do momento —curiosamente em temperaturas negativas—, ele não sentiu qualquer tipo de dor.

"Foi um pequeno incidente. O ataque ao cume é dividido em três grandes partes. No primeiro terço, tem uma parede de gelo com um pouco de pedra. Apoiei meu pé numa delas e não percebi que estava congelada. A corda começou a me jogar para o lado esquerdo e fiquei com medo de ali ter um vão. Joguei meu corpo para o lado direito e quebrei a costela. Na hora ouvi um barulho, mas não percebi. Estava com tanta adrenalina que nem pensei na costela. Continuei subindo e foi assim até o cume. Na descida, quando comecei a usar o braço direito, comecei a sentir a dor. Ela foi ficando insuportável. No acampamento dois, abri o jogo para os meus amigos. Foi aí que optamos pelo resgate de helicóptero. No outro dia, veio um ciclone que nos fez ficar presos seis dias no acampamento. Depois do resgate, fui ao hospital, onde foi constatada uma fratura", relembra o atleticano.

Protagonista do programa "7 cumes", do Canal Off´, Ziller tem como maior objetivo se tornar o primeiro montanhista brasileiro amador a escalar as montanhas mais altas de cada continente na primeira tentativa. Agora, com o Everest concluído, só falta uma: a Pirâmide Carstensz, localizada na Papua-Nova Guiné.

Gustavo Ziller no Everest - Gabriel Tarso - Gabriel Tarso
Gustavo Ziller fraturou uma costela durante o ataque ao cume do Everest, no fim de maio
Imagem: Gabriel Tarso

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