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Amigo e parceiro de Bob Marley em música foi de astro a decepção no Náutico

Allan Cole, na época em que jogou no Náutico - Reprodução/Diário de Pernambuco
Allan Cole, na época em que jogou no Náutico Imagem: Reprodução/Diário de Pernambuco

Brunno Carvalho

Do UOL, em São Paulo

11/05/2021 04h00Atualizada em 11/05/2021 13h23

"Ou esse gringo me mostra que sabe jogar, ou mando rescindir seu contrato."

A fala do técnico Gradim ao jornal Diário de Pernambuco em 15 de outubro de 1972 era o retrato da passagem de Allan Cole pelo Náutico. Um dos grandes nomes do futebol jamaicano, o atacante de 21 anos chegou badalado a Pernambuco, mas pouco fez para deixar saudades entre os torcedores.

Cole foi contratado depois que o Náutico fez uma excursão pela América Central em 1971. Em dois amistosos contra a Jamaica, o clube pernambucano sofreu para enfrentar o atacante alto e com um estilo desengonçado. "Ele deu um trabalho da porra para o Náutico naquele amistoso. Terminou dando um show de bola", relembra Luiz Melo, diretor do departamento de Remo e coordenador do Museu dos Aflitos.

O atacante deveria ter desembarcado no Timbu em 1971 — chegou até mesmo a treinar e marcar gol em um amistoso contra o Central antes da assinatura do contrato. Mas o clube desistiu porque o jogador exigiu carro, apartamento e "uns mil dólares por partida", conta Melo.

Em fevereiro do ano seguinte, Cole pediu uma chance de continuar sua carreira em Pernambuco. Foi aceito e chamado mais de uma vez de "craque" por Gradim. "Futebol de Gerson, malícia de Gerson, só não tem o chute de Gerson", analisou o treinador.

E não era só o futebol que despertava o interesse para o jamaicano. "Ele fez moda aqui quando chegou com aquele cabelo black power", diz Luiz Melo.

Além disso, a relação de Cole com Bob Marley aumentava o frisson em torno do atacante. Os dois eram amigos e, anos mais tarde, Cole assinou a composição da música "War", lançada pelo cantor de reggae em 1976.

Mas Cole demorou para estrear. Foram cinco meses se revezando entre os treinos e o departamento médico para tratar uma distensão na coxa esquerda. Cada vez que Cole ia para o banco, a pressão aumentava. A ansiedade em vê-lo em campo atingia até o técnico Gradim, que havia sido contratado em 1972 e não era o comandante na excursão em que o jamaicano foi descoberto.

"Gostaria que a torcida não ficasse pedindo a sua entrada. Sei que se trata de um craque, mas que deve voltar aos poucos. Sei quando deverei lançá-lo. Por isso, peço aos alvirrubros e, espero ser atendido amanhã, que não fiquem gritando por Alan", pediu Gradim em agosto daquele ano.

Allan Cole, durante amistoso do Náutico em 1971 - Reprodução/O Náutico - a Bola e as Lembranças - Reprodução/O Náutico - a Bola e as Lembranças
Allan Cole, durante o amistoso que fez pelo Náutico em 1971
Imagem: Reprodução/O Náutico - a Bola e as Lembranças

Naquele mesmo mês, Allan Cole voltou de vez ao time do Náutico. O Torneio Eraldo Gueiros, criado naquele ano para que os pernambucanos tivessem calendário entre o Estadual e o Brasileirão, já estava em sua segunda fase, quando Cole entrou em campo novamente. Contra o Ferroviário, ele substituiu o machucado Edvaldo e balançou as redes na vitória por 4 a 0.

Responsável por pedir a contratação do jamaicano quando dirigia o Náutico em 1971, o técnico Nelson Lucena, que estava no banco de reservas adversário, lamentou a boa atuação do atacante. "Fui procurar sarna para me coçar. Gol de categoria. Se fosse um jogador nosso dava um bombão e não fazia", lamentou ao Diário de Pernambuco.

O jamaicano ainda deu uma assistência na vitória por 2 a 1 sobre o Sport na reta final do campeonato conquistado pelo Náutico. Mas ele realmente não conseguiu convencer.

Brasileirão acaba com o amor por Allan Cole

A paciência com Cole era grande enquanto o Náutico ia bem. No Brasileirão, porém, a campanha do clube foi de mal a pior, e as fracas atuações do jamaicano já não tinham mais a mesma condescendência de outrora.

O Náutico foi eliminado ainda na primeira fase do torneio nacional. Cole não balançou as redes nenhuma vez, o que resultou na ameaça de Gradim que abre esta reportagem. O técnico queria que o jamaicano atuasse como ponta-esquerda, mas chegou a escalá-lo em outras posições para ver se ele se encaixava em alguma.

Sai Gradim, e o cabelo de Allan Cole vira um problema

As passagens de Cole e Gradim pelo Náutico começaram e terminaram praticamente ao mesmo tempo. O treinador foi substituído no começo de 1973 por João Avelino. Até o cabelo no estilo black power, que fez "moda" quando o jamaicano chegou em Pernambuco, acabou sendo alvo de comentários preconceituosos por parte do novo treinador. "Esse gringo com essa cabeleira só serve para partida amistosa", disse certa vez.

Quando questionado sobre o cabelo, disse que jamais mudaria, mesmo que tivesse que deixar o futebol. "Os meus [cabelos] ninguém me obriga a cortá-los. É um costume de minha religião muçulmana."

Avelino gostava dos lançamentos que Cole fazia, mas seu estilo pouco combativo na marcação e suas raras idas à área incomodavam. "Assim eu fico desempregado no outro dia. Atacante que tem medo dos zagueiros não joga no meu time", sacramentou.

Cole se reapresentou ao Náutico no fim de janeiro de 1973 em meio a boatos de que seria dispensado, fato que foi confirmado no primeiro dia de fevereiro daquele ano. Cole ainda chegou a participar de treinos no Santa Cruz, mas não agradou e voltou para a Jamaica, onde se aposentou no Santos local. Em 2010, recebeu de Joseph Blatter, então presidente da Fifa, uma placa de reconhecimento a sua contribuição para o futebol jamaicano.

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