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Atletas desempregados fazem bico e tentam recomeço com ajuda de sindicato

Jogadores desempregados tentam recomeço com ajuda de sindicato de atletas - Divulgação/Saferj
Jogadores desempregados tentam recomeço com ajuda de sindicato de atletas Imagem: Divulgação/Saferj

Bernardo Gentile

Do UOL, no Rio de Janeiro

16/04/2021 04h00

Os jogadores de futebol são conhecidos pela vida de ostentação, com casas enormes e carros caríssimos, não é mesmo? No entanto, a fama e a conta corrente recheada estão longe de ser realidade para a maioria dos atletas. Pelo contrário. Muitos deles, inclusive, sequer conseguem um contrato de emprego e precisam até mesmo trabalhar em outras áreas para manter o sonho de seguir a carreira no esporte.

É o caso, por exemplo, do zagueiro Wanderson e do Lucas Zen, que já chegaram a atuar profissionalmente, mas atualmente, sobretudo por causa da pandemia do coronavírus, não têm vínculo com nenhum clube. Para manter a forma física em dia para quando pintar a oportunidade eles treinam no centro mantido pelo Saferj (Sindicato dos Atletas do Rio de Janeiro).

Zagueiro Wanderson é um dos jogadores desempregados que mantém a forma no sindicato - Divulgação/Saferj - Divulgação/Saferj
Zagueiro Wanderson é um dos jogadores desempregados que mantém a forma no sindicato
Imagem: Divulgação/Saferj

Wanderson chegou a realizar o sonho de jogar na Europa após não ser aproveitado nos profissionais do Botafogo e ficar sem contrato — fez parte da geração que contava com Vitinho, Sassá e Gabriel. Ficou meia década em Portugal, onde defendeu cinco clubes diferentes. Após ter problemas com pagamento, decidiu voltar ao Brasil e rodou por equipes de divisões inferiores até ficar sem contrato. A solução foi trabalhar fora da sua área de atuação.

"Nesse momento de pandemia meu cunhado me arranjou um trabalho em um condomínio na Barra da Tijuca. Estava trabalhando lá de garagista, me virando. Quando completou um ano resolvi sair. Calhou de começar os treinos da Saferj. Estou vivendo do auxílio desemprego, que vai durar quatro meses. Agora tenho que arranjar um clube", disse Wanderson.

Com 28 anos, o zagueiro já começa a planejar seus próximos passos. "Se não pintar nada, já estou vendo a possibilidade de tirar uma licença para dar aula em escolinha. Gostaria de cursar fisioterapia. Por conta das lesões é um meio que acabei gostando. Temos direito a desconto na faculdade e é uma opção. Vamos ver como as coisas vão acontecer. Ideia é lutar mais um pouco ainda", completou.

Ex-Bota 'sofre' sem empresário, mas segue sonhando

Lucas Zen foi revelado e defendeu o Botafogo por seis anos. Após sofrer uma lesão no joelho, perdeu espaço e viu seu contrato chegar ao fim. Passou por Vitória, Brasiliense, Portuguesa-RJ, Barra da Tijuca, América e Cabofriense até ficar desempregado. Na contramão das estrelas, o volante não conta com empresário gerenciando sua carreira e sofre para se realocar no mercado.

"É complicado, vida sem empresário ainda é mais difícil. Vamos com fé que uma hora alguma coisa vai dar certo", disse Zen.

Ex-Botafogo Lucas Zen está sem clube e conta com ajuda do sindicato para seguir na carreira de jogador - Divulgação/Saferj - Divulgação/Saferj
Ex-Botafogo Lucas Zen está sem clube e conta com ajuda do sindicato para seguir na carreira
Imagem: Divulgação/Saferj

Na última semana, ele quase fechou com o Artsul, time da segunda divisão do Rio, no qual chegou inclusive a treinar. Mas houve um mal-entendido, e Lucas Zen retomou às atividades na Saferj.

"Ainda tenho o sonho de voltar a jogar Brasileirão, seja em qualquer divisão. Ainda tenho sonho de crescer na minha carreira por isso que estou mantendo a forma e lutando para pintar alguma coisa. É difícil falar da gente mesmo, mas ainda acho que tenho algo a dar para o futebol e tenho nível para participar de competições de bom nível", afirmou.

A falta de oportunidades acelerou algumas tomadas de decisão. Mesmo aos 29 anos, idade que o permite jogar por mais alguns anos, Lucas já prepara terreno para ter uma nova profissão quando a bola parar de rolar.

"Estou fazendo faculdade de educação física, que é algo que viso mais para frente. Quero trabalhar nessa área, dentro do meu ramo. Sempre vivi isso e quero dar prosseguimento para o dia que parar a carreira. Educação física engloba muita coisa principalmente no futebol. Gosto do trabalho de preparação física, escapando para tratamento individual de pessoas. Talvez um auxiliar... Treinador não penso muito, não [risos]", finalizou.

Centro de treinamento

Mas para manter aceso o sonho de voltar a jogar futebol, Wenderson e Lucas Zen conseguiram uma vaga entre os atletas aprovados pela Saferj para continuar treinando. Assim, quando aparecer a oportunidade, eles estarão prontos para vestir a camisa do novo clube.

"Nós construímos um centro de treinamento para ajudar esses jogadores. Poucos desses atletas têm a chance de disputar uma Série A do Carioca, a maioria joga Série B e C do Estado. Normalmente conseguem contrato de três, quatro meses durante todo o ano. Ficam um período grande sem trabalhar, o que deixa qualquer profissional ferrado. Já não tem dinheiro e o atleta ainda tem o agravante que fica destreinado. Se não mantiver a forma física e técnica, quando surge uma oportunidade, você está despreparado. O objetivo do projeto é exatamente esse: manter os caras em atividade", explica Alfredo Sampaio, presidente do Sindicato desde 2011.

O dinheiro para manter a estrutura do CT, que conta com campos de futebol, academia e ainda oferece tratamento dentário até teste isocinético (saber se há algum desequilíbrio muscular) para os jogadores, sai parcerias e da porcentagem do pagamento a atletas profissionais por jogos televisionados.

"Eles treinam parte física, parte técnica, parte tática. É como se fosse um clube, que os mantém em forma e motivados, com autoestima. Nosso objetivo é tentar colocar todo mundo para treinar. Não podemos ter um grupo enorme porque não daria qualidade de trabalho. Estamos esperando formar uma segunda turma. Já vi dois jogos deles e tiveram boa atuação. O campo é muito bom, academia muito boa. Isso tudo foi feito para esses caras e está funcionando bem", explica o presidente do sindicato, que acumula a função de técnico do Madureira.

Assim que chegam, os jogadores são avisados que objetivo não é encontrar clubes para eles. Não há qualquer envolvimento nesse sentido. Alfredo Sampaio diz que o custo mensal do projeto gira na casa dos R$ 10 mil e que, inicialmente, não há qualquer previsão de incluir ajuda de custo aos atletas, já que o orçamento do sindicato é curto.

"Até gostaria de dar algum incentivo financeiro, mas não temos essa condição. Pelo menos de passagem, mas realmente não tem como por enquanto. Temos a comissão técnica com treinador, preparador físico, treinador de goleiro e um massagista. Aí tem suplementação, frutas e algumas vezes o almoço, que gera um gasto maior. Isso tudo deve dar uns R$ 10 mil por mês", completou.

Presidente do sindicato dos atletas do Rio de Janeiro (Saferj), Alfredo Sampaio - Divulgação/Saferj - Divulgação/Saferj
Alfredo Sampaio, presidente do sindicato dos atletas do Rio, estima custos de R$ 10 mil com projeto
Imagem: Divulgação/Saferj

Mas o objetivo de manter os jogadores em forma está sendo cumprido, diz Sampaio. "Fazemos jogos amistosos, principalmente com equipes dessas divisões inferiores, que é o mercado deles. Geralmente treinam pela manhã e vão embora. Quando tem jogo, eles almoçam e descansam no nosso hotel até entrar em campo. É um projeto legal para caramba. ", concluiu.

O projeto já existiu entre 2014 e 2017, quando quase 90 jogadores foram realocados no mercado de trabalho até com oportunidades no exterior. Após paralisação para construção do centro de treinamento em Barra de Guaratiba (zona oeste do Rio de Janeiro), o trabalho foi retomado há dois meses e tem tido alta procura por atletas desempregados. A expectativa é que muitos recebam oportunidade com o início dos estaduais de divisões inferiores pelo Brasil nas próximas semanas.

Atualmente, são 36 atletas ajudados pelo sindicato - outros 13 estão na fila de espera. E eles não têm do que reclamar, não é Wanderson?

"Tirando os clubes de elite da cidade, eu nunca vi uma estrutura como essa. Campos com gramado perfeito. Para ter uma ideia, é a mesma do Maracanã. Sala de musculação com aparelhamento top de linha. Os treinadores são muito capacitados. Dão treinamentos com muita qualidade e intensidade. É diferente de você treinar sozinho. Você pode até achar que está bem, mas aí você entra em um campo para treinar com grupo e percebe que é totalmente diferente. Ajuda muito a gente a chegar nivelado se pintar uma chance", finalizou.

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