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Repórter supera morte de amigo e vira uma das pioneiras do setorismo na TV

Bibiana Bolson na final da Libertadores, entre Santos e Palmeiras, antes de ser setorista do Verdão  - Instagram/bibianabolson
Bibiana Bolson na final da Libertadores, entre Santos e Palmeiras, antes de ser setorista do Verdão Imagem: Instagram/bibianabolson

Ana Flávia Oliveira

Do UOL, em São Paulo

10/04/2021 04h00

Desafio. Essa é a palavra do momento para Bibiana Bolson, repórter dos canais ESPN e Fox. Após 12 anos de carreira, a gaúcha de 31 anos acaba de assumir a função de setorista do Palmeiras — uma das poucas mulheres a exercer o cargo em emissoras de TV. Mas este não é o primeiro desafio da vida de Bibiana, que quase abandonou a carreira depois da morte de um amigo na tragédia com o voo da Chapecoense em 2016, e superou a covid-19, que desde março de 2020 já infectou mais de 13 milhões de pessoas no Brasil.

"Meu desafio agora é imenso porque, durante muito tempo, eu trabalhei dentro do esporte, mas com uma rotina muito mais diversificada. Agora eu tenho uma rotina que é acompanhar um clube, que é hoje a principal força do futebol brasileiro", contou Bibiana em entrevista exclusiva ao UOL.

Bibiana Bolson, repórter da ESPN e nova setorista do Palmeiras - Divulgação - Divulgação
Bibiana Bolson vê nova fase como desafio
Imagem: Divulgação

"É um desafio também sendo uma das poucas mulheres como setoristas na televisão hoje. A gente tem outras mulheres trabalhando com jornalismo esportivo, mas na função de setorista, eu sei que sou uma das poucas. Isso torna esse desafio ainda maior", completou a gaúcha, que já passou pelas redações da RBS TV, no Rio Grande do Sul, do Sport TV e do Esporte Interativo.

Pouco mais de três semanas depois de assumir a função, Bibiana terá um grande desafio: participará de sua primeira grande final como setorista do Verdão. Flamengo e Palmeiras disputam amanhã (11) o título da Supercopa em Brasília, e a jornalista estará à beira do gramado do estádio Mané Garrincha, em Brasília. Na quarta-feira, o Verdão venceu o Denfensa y Justicia, por 2 a 1, na partida de ida da decisão da Recopa Sul-Americana, mas ela acompanhou a partida de São Paulo, onde mora.

Então domingo, oficialmente, é a primeira grande decisão que eu vou acompanhar do Palmeiras, no que é hoje a maior rivalidade da década: Palmeiras e Flamengo."

Outro desafio dessa nova fase é substituir o experiente jornalista Eduardo de Meneses, que estava no cargo havia 12 anos e agora passa a se dedicar a outras funções dentro da emissora. Mas ela vem tirando isso de letra e já mergulhou de cabeça no universo Alviverde.

"Eu acordo respirando o Palmeiras, eu vou dormir pensando no Palmeiras. O tempo inteiro é o Palmeiras na rotina porque independentemente do futebol estar acontecendo ou não, as situações continuam acontecendo nos bastidores", explica, fazendo referência à paralisação do Campeonato Paulista por causa dos altos índices de transmissão do coronavírus no Estado de São Paulo.

Desafio da covid

A própria Bibiana entrou para as estatísticas da doença. Em setembro do ano passado, recebeu o diagnóstico positivo. Não precisou ficar internada, mas teve uma grave sequela no rim.

"Tive muito medo, muita insegurança, tive bastante dor de cabeça, fiquei ruim mesmo e tive mais o medo daquela piora que dá ali pelo quinto, sexto dia, sétimo dia, que você acha que está bem, que está se recuperando e de repente você fica muito mal", conta ela. "Duas, três semanas depois da recuperação da covid, fui parar na emergência com uma dor muito forte no rim direito, do lado direito, que inclusive achei que era uma apendicite. [...] A tomografia mostrou uma mancha. Uma lesão realmente no rim, e a única explicação plausível era sequela da covid", explica Bibiana que foi submetida a uma restritiva dieta, em que açúcar e gordura eram proibidos.

"Então é algo que eu levo muito a sério a questão da covid. Não é qualquer gripezinha. Não é qualquer coisa."

Morte de amigo e quase desistência do jornalismo

Guilherme Marques era repórter da Globo desde 2013 - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
Guilherme Marques morreu no acidente com o voo da Chapecoense
Imagem: Reprodução/TV Globo

Apesar de passar pela difícil experiência da covid, o maior desafio da vida de Bibiana foi mesmo lidar com a morte do amigo Guilherme Marques. O então repórter da TV Globo foi uma das 71 vítimas da tragédia com o voo da Chapecoense em 2016. Na época, a gaúcha trabalhava no Esporte Interativo e estava infeliz com o momento profissional.

"Eu tinha passado por assédio moral, por assédio sexual dentro das redações. Essa coisa da agressividade dos torcedores, xingando: 'ah essa puta, essa piranha'... Eu vinha de um desgaste muito grande e passei a desacreditar um pouco [em mim] porque eu pensava assim: 'poxa, mas eu faço o meu melhor, eu dou o meu melhor aqui e parece que meu momento nunca chega."

Guilherme, poucos dias antes morrer, aconselhou a amiga a largar o emprego que não a fazia feliz. "Ele estava vivendo o melhor momento da vida dele, era o ápice da profissão dele [...] Ele recebeu a oportunidade de fazer a competição [Sul-Americana] pela Chape e aconteceu isso. Então isso ficou muito na minha cabeça: 'de repente tudo pode mudar, nossa trajetória pode mudar'. Essas palavras foram muito acolhedoras. Ele me abraçou com essas palavras."

Como repórter, ela ainda teve que trabalhar na cobertura da tragédia, mas já estava decidida a dar uma guinada na vida profissional.

"Foi o pior momento da minha carreira, da minha vida. E um mês depois, eu acabei rescindindo o contrato. Sai do Esporte Interativo, com a decisão que eu sairia do esporte, que eu iria buscar outros objetivos que me fizessem feliz."

Ela chegou a vender o carro e todos os móveis do apartamento em que morava no Rio de Janeiro, disposta a voltar a viver nos Estados Unidos, quando surgiu a oportunidade de trabalhar na ESPN, cobrindo a licença-maternidade da repórter Débora Gares. No início, ela titubeou, mas aceitou a proposta. "Em duas semanas, acho, eu já estava convencida que eu queria ficar, que aquilo era realmente para mim."

Assédio: desafio diário

Um dos desafios mais constantes da vida de Bibiana é lidar com o machismo, que percebe ela como profissional menos capaz e informada do que os colegas homens. E pior, a força a manter uma certa distância de pessoas que podem lhe passar informações com receio de ser má interpretada.

"Ainda é difícil estabelecer essa questão da fonte, da confiança. Eu, como mulher, dificilmente, eu vou ligar para um jogador às 10 horas da noite, entende? Porque tem essa barreira que ainda existe. Por mais que ele saiba que é profissional, ainda há essa situação delicada de 'até onde você pode avançar' nessa relação", explica.

Apesar de ainda perceber situações de machismo no seu dia a dia, ela já vê luz no fim do túnel. "Eu enxergo hoje um movimento de profissionalização muito grande dentro do futebol, portanto, há uma relação mais profissional também com dirigentes, com assessores, com jogadores. Eles estão vendo mais a presença feminina ali no dia a dia, mais mulheres entrevistando, mais mulheres na beira do gramado, mais mulheres cobrindo treino."

Em 2018, Bibiana se juntou a outras jornalistas que trabalham com esporte de vários veículos e emissoras para o lançamento do manifesto "Deixa ela Trabalhar". Com o objetivo de se posicionar contra o assédio moral e sexual dentro das redações, nos estádios e nas ruas, o movimento ganhou adesão de clubes, jogadores e destaque até na imprensa internacional. De lá para cá, os problemas não acabaram, mas a repórter comemora mudanças nas redações.

"Eu acho que teve esse momento dos próprios homens, os próprios colegas pararem e pensarem: 'não, se todas as minhas colegas estão falando isso, se todas as colegas de outros veículos estão falando isso, tem alguma coisa estranha aqui acontecendo'. E ai aconteceram e-mails de lideranças, de chefes da redação, em que eles chamavam para reflexão: 'olha, tem muitas colegas de vocês falando isso. Vamos refletir sobre isso'."

"E a gente começa a ver [mulheres] comentaristas, narradoras...A gente começa a ver uma maior espaço para outras mulheres. A Ana Thais [Matos, comentarista dos canais Globo] é um exemplo disso. Então, eu não estou dizendo aqui que o movimento fez com que todas essas mudanças acontecessem, mas eu tenho certeza de que foi sim um impulsionador ", comemora Bibiana.

Desafio de contar histórias

Bibiana Bolson, repórter da ESPN e setorista do Palmeiras - Divulgação - Divulgação
Bibiana Bolson tem agora o desafio de contar as histórias do Palmeiras
Imagem: Divulgação

Bibiana se define como "contadora de histórias". O jornalismo era o caminho natural para ela, que ainda criança, já "contava as histórias da vizinhança e fazia revistinha do bairro" em que morava em Giruá, no interior do Rio Grande do Sul.

Ela recorda com carinho o diário que fez, aos nove anos, sobre a participação brasileira na Copa da França, em 1998. "Eu recortava as manchetes assim: 'Não deu pro Brasil'. Ai eu recortava e colava lá. 'Champanhe fica pros franceses'. A criança lá escrevendo os relatos da primeira grande decepção esportiva que foi a Copa de 98. Então, acho que eu sempre tive isso muito forte assim, de contar história, de querer criar narrativas e compartilhar com o mundo".

E é com esse espírito de contadora de histórias que a repórter tem o desafio de conquistar a torcida Palmeiras. "[Quero] conquistar de alguma forma ali o torcedor, sabe? Do torcedor se sentir representado pelo que estou fazendo e de sentir que as histórias do Palmeiras estão sendo contadas da melhor forma possível, que é essa a minha intenção".

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