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Há 97 anos, Vasco se recusava a dispensar negros e dava resposta ao racismo

Vasco celebra os 97 anos da Resposta Histórica - Reprodução Twitter
Vasco celebra os 97 anos da Resposta Histórica Imagem: Reprodução Twitter

Do UOL, no Rio de Janeiro (RJ)

07/04/2021 13h22

O Vasco celebra, hoje (7), os 97 anos da "resposta histórica", carta que se tornou a síntese da luta do clube contra a discriminação racial e social no futebol brasileiro. Motivo de orgulho dos torcedores cruz-maltinos, o documento é tratado como troféu e a sua importância ainda ecoa nos dias atuais. A data, inclusive, foi lembrada nas redes sociais.

Publicada em 1924, a "resposta histórica" foi elaborada por José Augusto Prestes, então presidente do Vasco. Naquela época, o esporte bretão ainda era bastante elitista e não permitia a participação de negros e pessoas de origem humilde, como operários.

Em 1923, o Cruz-Maltino, considerado um clube pequeno e que havia acabado de ser promovido à elite do futebol carioca, se sagrou campeão. No elenco, negros e brancos sem posições sociais.

No ano seguinte, a AMEA — associação de futebol que havia sido fundada por clubes como Botafogo, Flamengo, Fluminense, América e Bangu — impôs algumas condições para permitir a entrada do Vasco no grupo. Dentre elas, a exclusão de 12 jogadores, sob o argumento de maior controle sobre "a moral no esporte" e de se defender um futebol que fosse puramente amador.

"Resposta Histórica" do Vasco, em 1924, foi um marco contra a discriminação racial e social no Brasil - Site oficial do Vasco - Site oficial do Vasco
"Resposta Histórica" do Vasco, em 1924, foi um marco contra a discriminação racial e social no Brasil
Imagem: Site oficial do Vasco

Um dos critérios utilizados nesta seleção baseou-se no analfabetismo e nas condições e natureza das profissões dos jogadores vascaínos. "Curiosamente", os 12 atletas eram os negros e aqueles em condições financeiras simples.

Diante disso, Prestes informou, em ofício, que o Vasco estava desistindo de participar da associação por não concordar com as determinações, fazendo com que o Cruz-Maltino disputasse uma liga alternativa.

Um dos desdobramentos deste episódio, inclusive, foi a construção de São Januário, inaugurado em abril de 1927 e utilizado ainda hoje em jogos oficiais do Vasco.

A "resposta histórica" é vista como um marco na luta racial e social no futebol. Na música "Camisas Negras", entoada frequentemente pela torcida, há o trecho que diz "eu já lutei por negros e operários / te enfrentei, venci, fiz São Januário".

Racismo nos dias atuais

Acusações de racismo no futebol ainda são frequentes e exemplos disso não faltam. O mais recente, com maior visibilidade, aconteceu na Espanha, em uma partida entre Cádiz e Valencia, pelo campeonato nacional.

O zagueiro francês Diakhaby discutiu com o jogador Juan Cala, do Cádiz, após uma jogada aérea contra o Valencia. Pouco após o lance, ele ficou muito irritado com algum comentário de Cala e foi tirar satisfação. De acordo com informações do jornal espanhol "Marca", Cala teria dito a seguinte frase para Diakhaby: "Negro de merda".

Os jogadores do Valencia chegaram a deixar o gramado, e o jogo foi interrompido, sendo reiniciado posteriormente.

No Brasil, um caso ganhou repercussão no ano passado. Durante um jogo do Campeonato Brasileiro, o meia Gerson, do Flamengo, acusou o colombiano Ramírez, do Bahia, de ter dito 'Cala a boca, negro'.

O camisa 8 do time da Gávea chegou a fazer um boletim de ocorrência, e o Fla acionou o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva). Ramírez foi indiciado pela Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) pelo crime de injúria racial. O STJD arquivou o caso.

A íntegra da "Resposta Histórica"

"Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924.

Officio No 261

Exmo. Snr. Dr. Arnaldo Guinle,

M. D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos

As resoluções divulgadas hoje pela Imprensa, tomadas em reunião de hontem pelos altos poderes da Associação a que V. Exa. tão dignamente preside, collocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada, nem pelas defficiencias do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa séde, nem pela condição modesta de grande numero dos nossos associados.

Os previlegios concedidos aos cinco clubs fundadores da A.M.E.A., e a forma porque será exercido o direito de discussão a voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.

Quanto á condição de eliminarmos doze dos nossos jogadores das nossas equipes, resolveu por unanimidade a Directoria do C.R. Vasco da Gama não a dever acceitar, por não se conformar com o processo porque foi feita a investigação das posições sociaes desses nossos consocios, investigação levada a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.

Estamos certos que V. Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um acto pouco digno da nossa parte, sacrificar ao desejo de fazer parte da A.M.E.A., alguns dos que luctaram para que tivessemos entre outras victorias, a do Campeonato de Foot-Ball da Cidade do Rio de Janeiro de 1923.

São esses doze jogadores, jovens, quasi todos brasileiros, no começo de sua carreira, e o acto publico que os pode macular, nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que elles com tanta galhardia cobriram de glorias.

Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V. Exa. que desistimos de fazer parte da A.M.E.A.

Queira V. Exa. acceitar os protestos da maior consideração estima de quem tem a honra de subscrever

De V. Exa. Atto Vnr., Obrigado. (a)

José Augusto Prestes

Presidente"

Nas redes sociais

O Vasco e os torcedores lembraram a importante data e, nas redes sociais, celebraram o aniversário da "resposta histórica". Diversas publicações, inclusive, utilizaram a hashtag relacionada ao documento.

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