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Zanotta destrincha sucesso nos EUA e lembra passagens por Santos e Grêmio

André Zanotta, hoje diretor de futebol do FC Dallas, tem feito sucesso no futebol dos Estados Unidos - Divulgação
André Zanotta, hoje diretor de futebol do FC Dallas, tem feito sucesso no futebol dos Estados Unidos Imagem: Divulgação

Thiago Fernandes

Do UOL, em São Paulo

03/03/2021 12h00

Diretor de futebol do FC Dallas, dos Estados Unidos, o brasileiro André Zanotta se sente realizado trabalhando na Major League Soccer (MLS). Não à toa, pensa em seguir no clube e faz planos longevos no próprio país. Longe do Brasil desde dezembro de 2018, quando deixou o Grêmio, ele explica o que gostaria de ver em sua terra natal.

Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, o ex-dirigente de Santos, Sport e Grêmio explicou qual o seu maior desafio desde a chegada à Terra do Tio Sam.

"Ser estrangeiro fora do Brasil é sempre um desafio se adaptar à cultura, você sai da sua zona de conforto para se adaptar a uma realidade totalmente diferente da sua. O que acho muito interessando é que o futebol não é o esporte número 1 daqui. Eu vejo como cresceu o esporte aqui. Aqui no Texas, pela presença latina, o futebol tem uma cultura maior que a de outros Estados. Em alguns Estados, mais para o Norte, não há essa força do futebol, eles são adeptos dos esportes tradicionais, beisebol, basquete, futebol americano", afirmou.

"O desafio da MLS é despertar o interesse do público americano para que ele goste do esporte e, depois, o vínculo com o clube. O público que vem assistir aos nossos jogos é completamente diferente do Brasil. É uma opção a mais de entretenimento que eles têm. A gente tem os torcedores fieis ao clube, mas quem vem é quem gosta de futebol e quer assistir a um esporte ao vivo. A gente vem de um país que o futebol é líder, longe de qualquer outro esporte, aqui você sabe que não tem a atenção da mídia como é no Brasil", acrescentou.

Fluente em quatro idiomas — fala inglês, espanhol e italiano, além do português —, Zanotta sempre sonhou em trabalhar na área da gestão esportiva. Não à toa, fez cursos voltados para a área depois de se formar em direito. Ele fez especializações na Fifa, na FGV/SP e no IBDD.

"Eu me formei em Direito na Mackenzie, de São Paulo, e desde que saí da faculdade, queria me direcionar para a parte desportiva. Então, comecei a estudar direito desportivo, fiz pós-graduação na área, especialização em gestão esportiva. Comecei a fazer algumas coisas no direito desportivo, sobretudo casos internacionais, na Fifa e no TAS (Tribunal Arbitral do Esporte). Eu tive interesse de migrar para a área de gestão. Fiz o Fifa Master, o mais conceituado na Europa. Fiz um ano do curso, e lá eu conheci um dos diretores do Atlante [do México]", declarou.

"Eles tinham um projeto legal, recebi o convite e aceitei para ter a experiência. Era um clube médio, pequeno, que tinha acabado de se mudar para Cancún. Eu fazia um pouco de tudo, ajudava na comunicação, marketing, relações internacionais. Foi uma baita vivência em um mercado diferente. Eu participei disso, foi excelente para o meu currículo. Foi o último ano do Atlante chegando aos playoffs. Eu resolvi voltar depois de um ano, foram dois anos morando fora. Fiquei um ano no Brasil, na Traffic, e fui para o Santos", acrescentou.

Durante a entrevista exclusiva à reportagem, que durou mais de 40 minutos, André Zanotta falou sobre temas diversos, como as passagens por Atlante, do México, Santos, Sport e Grêmio. Confira, abaixo, o bate-papo do UOL Esporte com o dirigente:

HISTÓRIA NO FUTEBOL

Eu trabalhei por três anos no Santos, um ano no Sport, dois anos no Grêmio. Depois de seis anos de clubes brasileiros, eu tive um clube no México antes também, a minha vontade era sair. Você sabe bem como o ambiente político é muito forte nos clubes brasileiros. A instabilidade é para os treinadores e para os executivos também.

Muito vinculado ao resultado também. Sempre tive a cabeça e a ideia de morar fora. Eu fiz um curso de mestrado na Europa, tinha morado nos Estados Unidos há 22 anos. Tenho dois filhos pequenos e queria dar a eles a chance de morar fora do Brasil. Surgiu o convite do FC Dallas, em 2018. Sempre gostei do esporte nos Estados Unidos, aqui as coisas são tratadas de forma profissional, como entretenimento, como negócio. Sempre tive vontade de fazer parte disso e, quando surgiu o convite, não tive dúvidas. São dois irmãos aqui, eles são donos do Kansas City Chiefs, que jogou o Super Bowl pelo segundo ano seguido. O FC Dallas é um dos fundadores da MLS e sei o quanto o clube cresce. O desejo de morar fora e a chance de trabalhar em uma liga que investe mais a cada ano ajudaram na minha vinda para cá.

SURGIMENTO DO DALLAS

Depois de eu ter trabalhado no México, fui contratado pela Traffic em 2011. Era um coordenador de negócios da empresa no futebol. Ela fazia a gestão de direitos econômicos e a parte de gestão do Estoril e do Desportivo Brasil. A Traffic tinha um braço nos Estados Unidos, o Fort Lauderdale Strikers. Um dos diretores da Traffic nos Estados Unidos foi contratado pelo FC Dallas em 2014. A gente sempre manteve contato por eu ter morado nos Estados Unidos, e ele já mora há mais de 20 anos aqui. Em 2020, o Dallas me procurou interessado no [zagueiro] Bressan [ex-Grêmio]. A gente fez toda a negociação do Bressan, e aí ele me disse que estava indo para o Orlando City e me recomendou para os donos do FC Dallas. Hoje, ele é o vice-presidente de futebol do Orlando City. Os donos me chamaram para uma entrevista, eu vim no fim de 2018 e deu tudo certo.

PARTICIPOU DA VENDA DE NEYMAR NO SANTOS

Carinho enorme, um clube que abriu a porta. Eu cheguei como braço direito do diretor de futebol da época, o Felipe Faro. Ainda com Neymar, Ganso, Felipe Anderson, Rafael, tínhamos acabado de perder a semifinal da Libertadores 2012 para o Corinthians. O Felipe acabou saindo depois de mais ou menos um ano. O Luís Alvaro [então presidente do Peixe] acabou tendo um problema de saúde. O Odílio [Rodrigues] assumiu a presidência. Eu fui convidado para assumir o futebol do clube. Foi justamente a mudança no Santos depois de um ciclo vitorioso.

Eu participei da venda do Neymar, da venda de vários atletas naquele momento, da saída do Ganso para o São Paulo em 2012. Eu comecei com o Luís Álvaro, trabalhei com o Odílio e teve cinco candidatos à presidência. Eu imaginava que não continuaria e, para a minha grata surpresa, o Modesto Roma Júnior me chamou e disse que tinha ouvido gratas coisas ao meu respeito, e me chamou para continuar. Tivemos uma remontagem do elenco do Santos, com as saídas de Arouca, Aranha, Mena... A gente voltou com Robinho, Ricardo Oliveira, Victor Ferraz, o Enderson Moreira era o treinador.

O Santos foi campeão paulista 2015. Eu já estava há três anos no clube e, assim que fomos campeões paulistas, achei que era o momento de sair. Eu sentia que a questão política era muito forte e sempre sofria algum tipo de situação interna por ter trabalhado nas gestões anteriores. Fiquei dois, três meses descansando um pouco e recebi o convite do Sport.

SPORT FOI UMA ESCOLA

Foi muito bacana, é outra dimensão comparado ao Santos e ao Grêmio, com todo respeito ao Sport. Foi legal, uma escola para ter visão de outro mercado no Brasil. Essas coisas de times que brigam pela segunda metade da tabela, então, muitos contratos curtos, com Diego Souza, André, Hernane saindo. A gente teve que remontar todo o elenco para 2016. Perdemos a final do Estadual, a semifinal da Copa do Nordeste. O Brasileiro foi uma luta do início ao fim, mas fomos para a Sul-Americana. O Diego Souza voltou ao clube, acabou sendo o artilheiro do Brasileiro naquele ano.

AMBIENTE MUITO BOM NO GRÊMIO

No começo de 2017, fui procurado pelo Grêmio. Fiz três entrevistas em Porto Alegre e assumi o time [cargo de executivo de futebol] no final de fevereiro. Foram anos mágicos. Tive dois anos com o Renato [Portaluppi] lá. Acho fantástico alguém com essa longevidade. Encontrei um ambiente muito bom, jogadores fantásticos. A gente fez uma campanha incrível na Libertadores, disputa o Mundial de 2017, com uma experiência incrível estar no Mundial.

Em 2018, a gente ganha a Recopa, o Gauchão. O Grêmio sempre chegando. O que acho mais importante do legado e da minha participação no Grêmio é como a gente reestruturou tudo. O Pepê tinha pedido para sair emprestado, o Jean Pyerre, o Matheus Henrique que tinha saído para o São Caetano e voltou de novo. O Ferreirinha foi e voltou emprestado. São jogadores que passaram pelo time de transição do Grêmio e estão fazendo diferença no time profissional. O Renato sempre falava que queria ver alguém ficar com dois anos sem crise no futebol.

PLANOS PARA O FUTURO:

Eu não costumo fazer planejamentos para dizer onde me vejo daqui cinco, dez anos, porque gosto de viver o momento e aproveitar o que estou vivendo. Sempre foi um desejo, desde pequeno, estar no futebol. Não tinha habilidade o suficiente para ser jogador, então, fui para o lado da gestão. Eu me considero bem-sucedido por onde passei. Então, sempre fiquei muito bem. Eu renovei o meu contrato com o Dallas. As coisas que a gente tem construído no clube são muito bacanas. A gente fez recentemente a maior venda da história do clube.

A marca FC Dallas tem outra visão dos clubes, principalmente da Europa. A gente tem o Chris Richards, que foi para o Bayern. O McKennie, que é titular da Juventus, o Bryan Reynolds saiu para a Roma. Tem uma base muito forte de jogadores americanos. Eu vi a qualidade dos jogadores americanos formados, e outros que a gente tem a possibilidade de ver no futuro.

No primeiro ano, perdemos nas quartas de final da conferência. No ano passado, perdemos na semifinal para o Seattle. A gente perdeu os dois anos para eles. A cada ano, o time melhora. O treinador está indo para o terceiro ano dele aqui. Toda essa cultura que eu não estava acostumado. Os dois últimos treinadores ficaram cada um cinco anos, esse já está indo para o terceiro ano.

DIFERENÇA BRASIL X MLS

É difícil. Os clubes têm eleições a cada dois, três anos. O grupo que está no poder quer permanecer no poder, você prioriza o imediatismo dos resultados. Aí troca treinador com dez jogos, executivo a cada dois meses. Isso eu tenho. O americano tem essa ideia de continuidade. Tem o lado passional, que nós latinos temos aflorado, mas tem o lado racional, de fazer as coisas saírem conforme se planeja. Outra grande diferença é que a gente tem uma liga, no Brasil, é a CBF que organiza tudo.

A liga estabelece as regras, regras de contratação. A gente tem restrições, pode ter no máximo 30 jogadores por elenco. No primeiro ano, eu achava que demoraria um ano para entender, mas hoje me sinto muito confortável. Eu troquei um jogador agora com o Colorado, dei um jogador para eles, que me deram em troca uma vaga de estrangeiro e peguei o lugar deles no draft, que a gente acabou de ter. O jogador não precisa consentir, a gente faz a troca e avisa ao jogador: 'você está indo para o Colorado'. É uma questão de maior organização que temos que levar para o Brasil, ter alguém que zele pelo interesse dos clubes, como a MLS faz.

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