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E. Baptista ataca "mimimi" e fala do Palmeiras: "Queria ter 10 Felipe Melo"

Eduardo Baptista, durante treino no Mirassol - Divulgação/Mirassol
Eduardo Baptista, durante treino no Mirassol Imagem: Divulgação/Mirassol

Thiago Ferri e Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

24/01/2021 04h00

Eduardo Baptista conquistou o acesso à Série C do Campeonato Brasileiro com o Mirassol. O técnico de 48 anos de idade fala com entusiasmo sobre o projeto na equipe do interior paulista, depois de passagens por clubes como Sport, Ponte Preta, Fluminense, Palmeiras e Athletico-PR.

Um trabalho de longa duração no Mirassol é aquilo que Eduardo sonha e não aconteceu no Palmeiras. Contratado após o título brasileiro de 2016 para substituir Cuca, ele considera que foi demitido depois de cinco meses pela cobrança exagerada no clube.

"O Palmeiras é uma situação à parte, porque eu saí com 66% [de aproveitamento], o Roger saiu na mesma condição no ano seguinte. De repente o sonho deles era o Mano Menezes e ele durou dois meses. O Palmeiras não tem muito o que fazer, a gente conseguiu quatro meses, começou a usar alguns garotos da base, começou a dar uma iniciação para o Vitão [zagueiro que está no Shakthar Donetsk], o próprio Léo Passos [atacante hoje no América-MG], alguns meninos, mas é muito complicado você usar a base ali com tantos jogadores renomados chegando, chegando o artilheiro da Libertadores [Borja], você acaba podando um pouco o espaço desses meninos", lembrou, ao UOL Esporte.

"A verdade é que eu saí do Palmeiras porque nós perdemos para a Ponte Preta, foi a grande situação. Aí você perde o Campeonato Paulista como o Roger perdeu para o Corinthians no ano seguinte e assim sucessivamente. É uma filosofia que você tem que ganhar tudo sempre e não é assim, a gente sabe que no futebol, e ainda mais o futebol brasileiro, você não vai ganhar tudo sempre", completou.

Eduardo durou apenas 23 partidas no Palmeiras (14 vitórias, quatro empates e cinco derrotas). O jogo citado por ele contra a Ponte foi na semifinal do Paulistão de 2017, em que o Verdão perdeu no Moisés Lucarelli por 3 a 0. A volta, no Allianz Parque, ganhou por apenas 1 a 0 e foi eliminado. Depois, venceu o Peñarol (URU) de virada no Uruguai, mas acabou demitido com nova derrota, para o Jorge Wilstermann (BOL), na Bolívia. Os dois jogos eram válidos pela Copa Libertadores.

"Contra o Jorge Wilstermann, a gente perdeu, mas até ali fazia anos que o Palmeiras não se classificava [para as oitavas da Libertadores], a gente já estava classificado [era líder da chave], a derrota não impactou nada, naquele momento era o melhor time da Libertadores, no ranking geral era o melhor time. A gente perdeu para a Ponte Preta numa tarde ruim, veio de um jogo muito pesado contra o Peñarol em casa e aí a gente perdeu o jogo e foi difícil para reverter. Perdeu o Paulista e qualquer derrota depois cria-se uma pressão, resumidamente é isso", reforçou.

Mais do que os resultados citados, a passagem de Eduardo Baptista ficou marcada por uma irritada entrevista coletiva na sua penúltima partida pelo clube, a vitória de virada sobre o Peñarol, no Uruguai. O jogo teve uma confusão generalizada entre torcedores e também no campo, com Felipe Melo acertando um soco em Mier. Depois de toda a briga, o treinador adotou um discurso irritado, com a famosa frase: "fala a fonte!".

Eduardo Baptista e Felipe Melo durante treino - Cesar Greco/Ag. Palmeiras - Cesar Greco/Ag. Palmeiras
Eduardo Baptista e Felipe Melo durante treino
Imagem: Cesar Greco/Ag. Palmeiras

"Aquela coletiva é do momento do jogo, foi complicado contra o Peñarol, teve uma discussão com o Felipe Melo que já vinha de antes, do primeiro jogo. Um jogo também muito pesado e Libertadores é sempre muito quente, fazia acho que uns 40 anos que o Palmeiras não ganhava na Libertadores de um time uruguaio, a última vitória do Palmeiras tinha sido com o Ademir da Guia ainda. O clima esquentou lá, mas faz parte e fica para trás", recordou.

Felipe é considerado um amigo por Eduardo Baptista até hoje. Se há quem critique o estilo mais quente do meio-campista, o treinador gostaria de ter mais jogadores como ele no seu time.

"Ele é meu amigo pessoal, eu queria ter 10 Felipe Melo no meu time, ele é um cara extremamente profissional, competitivo, não aceita perder, é competitivo no par ou ímpar, é competitivo num joguinho que você faz no aquecimento de quatro contra dois. Ele é um cara que questiona muito a parte tática, conversa, participa das decisões. O cara não jogou na Juventus tanto tempo, não é rei na Turquia [à toa], ele é um baita jogador e eu tenho uma relação de amizade com ele", concluiu.

'Mimimi' exagerado no futebol

Eduardo considera que as discussões sobre futebol estão com um "mimimi" exagerado. O técnico usou este argumento ao falar sobre a recente desavença no São Paulo, quando Fernando Diniz foi captado xingando Tchê Tchê durante a goleada sofrida para o Red Bull Bragantino.

"Os jogadores hoje são de uma geração diferente de 15 anos atrás, mas eu joguei com o Diniz no Juventus, tenho uma amizade com o Diniz de muito tempo, e o Diniz sempre foi um cara muito competitivo desse jeito. Você pode ter certeza que o Tchê Tchê no vestiário deu um abraço no Diniz, o Tchê Tchê deve toda a vida dele ao Diniz e em nenhum momento eu vi o Diniz xingando, é uma palavra ou outra. É aquela coisa, o futebol hoje ficou muito 'mimimi', ninguém pode falar nada. Pelo amor de Deus, eu já participei de jogo quando eu estava iniciando com o meu pai [Nelsinho Baptista] e Vanderlei [Luxemburgo], era baixo calão, 'nego' xingava e nunca teve nada, nunca teve essa repercussão, hoje em dia é muito 'neguinho' na beira do campo ali que fica mais preocupado com o que um vai falar para o outro do que entender taticamente o que o treinador está fazendo", reclamou.

"Eu conheço o Diniz e conheço o Tchê Tchê. Chegou no vestiário, o Tchê Tchê deu um abraço no Diniz e para eles acabou, só ficou para o externo, até porque muito ou quase tudo o que o Tchê Tchê como jogador é hoje, ele deve ao Diniz, muito. O Diniz no Atlético Sorocaba já era desse mesmo jeito. É que agora sem torcida as falas estão mais expostas, então parece que de uma hora para outra todo mundo está falando palavrão, e na verdade sempre se falou palavrão. Na hora do jogo, você não vai pedir por favor, você vai falar com mais aspereza, às vezes só sai o palavrão, mas depois as coisas se encaixam. Sempre se tem muito respeito, e o Diniz chegou aonde chegou e está no São Paulo desse jeitão dele, de cobrar, de fazer as coisas, ora ele cobra muito forte, depois ele dá um beijo e um abraço. É o jeitão Diniz, mas eu vejo assim, muito 'mimimi' para pouca coisa", completou.

Eduardo Baptista colocou o Mirassol na Série C do Brasileirão - Divulgação - Divulgação
Eduardo Baptista colocou o Mirassol na Série C do Brasileirão
Imagem: Divulgação

Sucesso em algoz do São Paulo

Eduardo chegou ao Mirassol em setembro, com contrato até o fim do Paulistão de 2021. O técnico já conseguiu garantir o acesso à Série C do Brasileirão e agora busca o título da Série D. A equipe ganhou destaque durante o Paulista após eliminar o São Paulo, nas quartas de final. Para o treinador, o feito — obtido antes de sua chegada — não aconteceu por uma casualidade.

"Eu costumo observar muita coisa. No retrospecto da minha carreira, tive três grandes trabalhos: o Sport, onde nós ficamos em sexto lugar no Brasileiro, liderei em 2015 por oito rodadas e acabou em sexto, no último ano que só iam quatro para a Libertadores, senão a gente tinha conquistado a vaga. Foi um grande trabalho, montei o Sport por três anos, depois tive a Ponte Preta em 2016, que também a gente montou a equipe e fez de novo a melhor campanha da história ficando em oitavo lugar. A Ponte Preta em oitavo na Série A é quase que um título, e o Palmeiras também de uma forma ou de outra o time já estava pronto, mas eu participei de uma construção", contou.

"Percebi que meus melhores resultados foram iniciando o trabalho. Eu também tinha começado um trabalho no CSA e aí são aqueles imediatismos. O time inteiro pegou covid-19, ficamos treinando com cinco jogadores durante 10 dias e aí a gente perdeu duas partidas e mandaram embora. Aí eu pensei: 'ou eu paro agora e volto só o ano que vem para pegar um projeto novo ou vou esperar um outro projeto interessante'. E nesse meio tempo ligou o Juninho Antunes [diretor de futebol] do Mirassol. São poucas pessoas falando do Mirassol, mas não se elimina um São Paulo nas quartas, não se sobe para a Série C, um campeonato tão difícil, sem ter alguma coisa. É um projeto não apenas para subir à Série C. Eu sabia que tinha potencial pelo CT, pela estrutura, o Mirassol tem um CT hoje que ganha de todos da Série B e compete muito com os da Série A do Brasileiro. Nós subimos com um time de 23 anos em média de idade, quer dizer, nós colocamos a molecada dentro da Série D. Lógico, agora é fazer um Paulistão tranquilo, mas na sequencia deste ano, acabar dentro da Série B para 2022, este é o projeto", concluiu.

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