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Fluminense

Marcão tenta 'estilo Odair', mas opções dão errado e Flu desperdiça pontos

Caio Blois

Do UOL, no Rio de Janeiro

14/12/2020 11h00

Sentida internamente, a saída de Odair Hellmann do Fluminense abriu espaço para o retorno ao cargo de um velho conhecido no clube: Marcão. Ainda no início de sua carreira, o treinador tem como trunfos o conhecimento do elenco e o bom trabalho em 2019, quando comandou o Tricolor na fuga do rebaixamento no Campeonato Brasileiro. Ao manter o estilo do antecessor, entretanto, viu suas opções darem errado.

Um dos padrões de Hellmann era tentar — dentro de uma temporada atípica com maratonas, lesões e muitos desfalques por conta da pandemia de coronavírus — mexer o mínimo possível na equipe. Para motivar todo o elenco, mantinha no time titular os substitutos que rendessem nas chances que recebiam. Marcão, em seu primeiro jogo, repetiu a ideia: manteve quase todos os reservas que substituíram titulares na segunda onda de covid-19 que o Flu sofreu, além dos desfalques que teve para a partida.

O problema é que, com exceção do goleiro Marcos Felipe — sem culpa no gol e que também ocupa lacuna deixada pela temporada ruim de Muriel —, os mantidos pelo treinador tiveram papel preponderante no resultado que, se não foi negativo, teve sabor amargo pelo gol sofrido do Vasco nos acréscimos que fez o Tricolor desperdiçar pontos preciosos e deixar de voltar ao G4 na luta por vaga na Libertadores.

No lance em que Cano empatou o jogo, foram as opções de Marcão que erraram: Egídio fez a falta na origem do lance, Igor Julião errou na linha de impedimento, Matheus Ferraz tirou o corpo do chute e Yuri "marcou a bola", inclusive permitindo que Leonardo Gil avançasse sem ser incomodado pelo meio de campo e chutasse a bola que sobrou para o artilheiro rival.

Egídio e Matheus Ferraz foram mantidos por Marcão mas não fizeram boa partida contra o Vasco - ALEXANDRE DURÃO/ESTADÃO CONTEÚDO - ALEXANDRE DURÃO/ESTADÃO CONTEÚDO
Egídio e Matheus Ferraz foram mantidos por Marcão mas não fizeram boa partida contra o Vasco
Imagem: ALEXANDRE DURÃO/ESTADÃO CONTEÚDO

Isso porque o ídolo tricolor tinha outras opções em sua reestreia: se Calegari estava na seleção brasileira sub-20 e Julião era a melhor opção na direita, os titulares Nino, Danilo Barcelos e Yago estavam à disposição. Com exceção do último, assistiram do banco de reservas ao empate do Vasco que manteve vigente todos os tabus do clássico: 47 anos sem vencer o Vasco em São Januário, 60 temporadas sem terminar o ano 100% contra o rival e mais uma vez sem fazer seis pontos no Brasileirão sobre o Cruz-Maltino.

Ao analisar a partida, Marcão culpou erros cometidos no segundo tempo. Mas a estratégia mal feita de controlar o jogo a partir da posse inofensiva no campo defensivo cobrou a conta de maneira justa: foi o treinador, à beira do campo, quem incentivou e elogiou a manutenção da bola sem nenhuma objetividade.

"A gente pensou que o Vasco voltaria em um formato diferente, mas não conseguimos fazer o encaixe e ficamos presos. Vamos tentar fazer a equipe ficar mais parecida com o que apresenta no primeiro tempo", disse Marcão em coletiva de imprensa após o jogo.

Bom 1º tempo com bola, mas jogo ruim sem

Se de fato fez um primeiro tempo de posse de bola propositiva, ocupando o campo de ataque e se utilizando bem de toques curtos e inversões de jogo para ter superioridade numérica contra o rival, o Fluminense teve erros que não cometia com Odair Hellmann. Seja pela escalação de Yuri ao lado do já lento Hudson — em dupla que não deu certo em 2020 — ou pelas perseguições mais longas, a equipe foi muito mal defendendo.

Com o antecessor, o "ataca marcando" era uma marca da equipe. O Tricolor sofreu poucos gols de contra-ataque na competição e, mesmo sem as linhas de marcação muito baixas, conseguia agredir o rival sem a bola, dificilmente ficando desguarnecido no setor defensivo em função da tentativa de imposição no campo adversário.

Opção de Marcão, Yuri teve dificuldades na marcação no empate do Fluminense com o Vasco - CELSO PUPO/ESTADÃO CONTEÚDO - CELSO PUPO/ESTADÃO CONTEÚDO
Opção de Marcão, Yuri teve dificuldades na marcação no empate do Fluminense com o Vasco
Imagem: CELSO PUPO/ESTADÃO CONTEÚDO

Ao optar por adiantar Michel Araújo e sem contar com ajuda de Nenê na marcação, em Martinelli, lesionado, o Flu não teve em Hudson e Yuri as compensações e movimentações necessárias para conter o Vasco quando não tinha a posse de bola. Se geralmente tinha um jogador a mais no meio de campo e no ataque, o Tricolor teve um buraco na intermediária defensiva, o que melhorou um pouco com a entrada de Yago.

"Buscar esse equilíbrio do primeiro e do segundo tempo. Ponto positivo é o que o time rendeu no primeiro tempo, com infiltração, proximidade, posse de bola. Queremos o nosso time jogando dessa forma, impondo o jogo e marcando forte. O ponto negativo foi esse desequilíbrio do primeiro para o segundo tempo. Vamos tentar corrigir, porque ficamos para trás. Vamos corrigir para não acontecer mais", afirmou o treinador.

Outra mudança importante é um resgate do que Marcão já fazia em 2019. O treinador prefere encaixes de marcação com perseguições mais longas, optando pelo mano a mano nas jogadas. O problema é que, com os lentos Ferraz, Hudson, Yuri e os reservas Egídio e Igor Julião em campo, o excesso de trocas de marcação — melhor posicionada com Odair Hellmann — complicou o sistema defensivo.

Fred entrou visivelmente fora de ritmo no Fluminense em empate com o Vasco - THIAGO RIBEIRO/ESTADÃO CONTEÚDO - THIAGO RIBEIRO/ESTADÃO CONTEÚDO
Fred entrou visivelmente fora de ritmo no Fluminense em empate com o Vasco
Imagem: THIAGO RIBEIRO/ESTADÃO CONTEÚDO

No ataque, por outro lado, o Flu teve boas e diferentes ideias: Wellington Silva, menos preso à ponta, voltou a jogar bem trocando posições com Marcos Paulo e Nenê. Além disso, as mexidas não surtiram efeito: Fred e Ganso tornaram o time mais lento, quando o jogo pedia velocidade nas saídas de contra-ataque, já que o Vasco pressionava o Flu na defesa.

E nem tudo foram flores mesmo no bom primeiro tempo: o camisa 11 vinha de grande jogo atuando solto na frente, mas voltou a jogar mais centralizado. As constantes mudanças de função do jovem atrapalham o desenvolvimento de seu jogo e também a equipe, que perde um jogador com grande capacidade de resolver o jogo.

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