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Argentina em luto: Paixão e excessos no adeus foram metáfora de Maradona

Fãs de Maradona sobem em laje para acompanhar o cortejo fúnebre do jogador - EFE/ ENRIQUE GARCIA MEDINA
Fãs de Maradona sobem em laje para acompanhar o cortejo fúnebre do jogador
Imagem: EFE/ ENRIQUE GARCIA MEDINA

Jorge Mato

Colaboração para o UOL, em Buenos Aires

27/11/2020 04h00

Nesta quinta-feira (26) se deu um dos acontecimentos sociais mais significativos dos últimos anos na Argentina: a despedida do astro mundial de futebol Diego Armando Maradona. O que aconteceu ontem, na cerimônia pública do velório, é uma excelente metáfora da vida de Diego: paixões, excessos, nuances, contradições, explosões espetaculares e enfrentamentos à ordem. A morte e suas consequências são a continuidade de seu inigualável estilo.

O ídolo morreu nas primeiras horas de quarta-feira, na cidade de Tigre, província de Buenos Aires, e foi velado na Casa Rosada, sede do Governo Federal. A expectativa de se despedir do Diego "do povo" foi maior do que a capacidade do estado para organizar o velório. As forças de segurança tiveram que isolar a enorme multidão de fãs a apenas cinco quarteirões da Casa Rosada.

A decisão da família era finalizar o velório às 16 horas (de Brasília), horário que tentou-se estender até 19h por pedido do presidente argentino Alberto Fernández, mas que não pôde ser confirmado. Não faltou repressão policial com balas de borracha, gás lacrimogêneo e detenções para controlar os excessos causados pela decepção de milhares de pessoas que não puderam se despedir de seu herói.

A dor de todo um povo

A primeira percepção que nos chega é a de um povo chateado e dolorido pela perda de um símbolo cultural e social de muita representatividade. Os testemunhos que desfilaram ontem não fazem mais do que representar e expressar o lamento de milhões de pessoas que, ao longo de sua vida, depositaram suas esperanças e anseios de existir um gênio a quem confiaram seu próprio orgulho para o mundo.

Intelectuais, políticos, atletas, técnicos de futebol e jornalistas esportivos canalizam a voz de um povo que sente uma saudade tão grande que excede o esporte. É muito o que representou Maradona, especialmente para os setores sociais majoritários que se viu nas ruas do centro de Buenos Aires.

Não se trata apenas de conquistas futebolísticas, mas também de um modo de vida e visibilidade em que muitos se identificaram. "El Diego", no entanto, foi capaz de conquistar o carinho de todos. Superou classes sociais e o limite de fronteiras entre países. Basta dizer que o estádio San Paolo, em Nápoles (ITA), vai passar a se chamar estádio Diego Armando Maradona.

O "terrão" foi às ruas

Fiorito - Tomas Cuesta/Getty Images - Tomas Cuesta/Getty Images
Fãs escrevem recado de agradecimento no campo de terra da favela da Villa Fiorito, onde Maradona nasceu
Imagem: Tomas Cuesta/Getty Images

O campo de terra é o lugar emblemático que dá origem a estes ídolos do futebol, e que também significa o lugar de existência da cultura e das classes populares na Argentina. Isso é importante porque este campo de terra está fora das regras e normas formais de uma ordem pública. Algo deste "terrão" se viu ontem nas ruas da cidade e é muito difícil julgá-lo como bom ou mau; foi como era Maradona. Se foi este "pibe", da favela de Villa Fiorito, nascido no que foi, sem dúvida, um barraco miserável, mas que alcançou a glória e a fama mundial.

Os herdeiros de Maradona

Quanto ao futuro imediato, sabemos que a autópsia realizada por vários peritos oficiais e ratificada pelo médico familiar e por funcionários da Justiça confirmou, como causa da morte, que um infarto agudo cardiorrespiratório provocou um edema pulmonar que pôs fim à vida do ex-jogador. Mostras de seu sangue e de órgãos extraídos serão analisados nos próximos dias para descartar uma possível negligência no tratamento médico ou até o uso de álcool e drogas.

Um dos aspectos mais inquietantes que se projetam pela frente é a herança de Diego Armando. Na Argentina há uma lei da sucessão de herdeiros forçados, portanto é impossível destinar, voluntariamente, mais de um terço dos bens a determinados sucessores.

Propriedades dentro do país, carros de luxo, joias, direitos de publicidade e contratos milionários com empresas estrangeiras —como Konami e EA— compõem a valiosa fortuna do atleta que será repartida entre sua ex-mulher e vários filhos e netos —incluindo um neto que ainda vai nascer. Ainda não está claro quantos herdeiros terá Maradona.

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