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Da emoção na Casa Rosada à cerimônia intimista: como foi o adeus a Maradona

Jorge Mato, Luciana Rosa e Tales Torraga

Colaboração para o UOL, em Buenos Aires (ARG) e em São Paulo

26/11/2020 17h01Atualizada em 26/11/2020 23h08

O adeus a Diego Armando Maradona foi do jeito que o melhor o representa: intenso. A despedida do craque argentino, que morreu ontem após uma parada cardíaca aos 60 anos, começou cedo com uma multidão emocionada na Casa Rosada e só teve fim no enterro em uma cerimônia intimista na noite desta quinta-feira. O dia teve confusão, sangue, lágrimas e um país inteiro parado e mobilizado por um ídolo.

O UOL faz, abaixo, um resumo do que foi a emocionante despedida a um dos maiores ícones da história do esporte mundial.

O corpo de Maradona foi enterrado na noite de hoje, na presença apenas de amigos e familiares, no cemitério Jardín de Bella Vista, situado na periferia de Buenos Aires. O local fica no bairro de Bella Vista e é o mesmo onde estão enterrados os corpos dos pais do ex-jogador.

Diferentemente do que aconteceu durante o translado até o cemitério, em que uma multidão foi às ruas se despedir do ídolo, o enterro foi acompanhado por cerca de 30 pessoas. Uma cerimônia religiosa e um clima de dor marcaram o enterro do ex-jogador. Assim como nas ruas, o enterro foi marcado por aglomeração.

O cortejo chegou ao cemitério de Bella Vista por volta das 19h, após mais de uma hora de translado desde a Casa Rosada, sede do governo argentino na capital Buenos Aires, onde mais cedo foi realizado o velório.

A família decidiu mudar a data do sepultamento — que poderia acontecer no fim da semana — nesta manhã. Durante o translado do corpo de Maradona ao cemitério em Bella Vista, uma grande quantidade de pessoas esperava a passagem do ídolo nas ruas, com carros parados e celulares em mãos para um último registro do adeus a Maradona. Por um momento, não parecia haver pandemia, pessoas se aglomeravam, muitas vezes sem máscaras, nas ruas e pontes.

Com mais de dez horas de duração, o velório, aberto ao público, aconteceu na Casa Rosada, sede do governo argentino — foi a primeira vez em dez anos que o local teve uso para um evento do tipo. O velório encerrou oficialmente por volta das 17h (de Brasília). Uma multidão se manteve no entorno da Casa Rosada e o corpo saiu em cortejo para o enterro no cemitério Jardín de Bella Vista, a cerca de 35 km de Buenos Aires.

Iniciada às 6h (horário de Brasília), a cerimônia recebeu, além de familiares e amigos, presenças ilustres como a do presidente Alberto Fernández e do elenco do Gimnasia, último time onde o ex-jogador trabalhou.

Início tenso

O velório começou com fila e muita confusão. Isso porque alguns fãs de Maradona acabaram ultrapassando grades de proteção delimitadas pela polícia local na Plaza de Mayo, que fica em frente à Casa Rosada.

O saldo do tumulto, segundo o jornal Olé, foi de uma pessoa ferida - ela teve o rosto ensanguentado no meio do empurra-empurra.

Torcedores argentinos e polícia entraram em conflito durante velório de Maradona - RONALDO SCHEMIDT / AFP - RONALDO SCHEMIDT / AFP
Torcedores argentinos e polícia entraram em conflito durante velório de Maradona
Imagem: RONALDO SCHEMIDT / AFP

Ex-namorada barrada

Rocío Oliva, ex-namorada de Maradona, afirmou ao jornal Clarín que foi impedida de entrar na parte íntima do velório, destinada a amigos e familiares do argentino.

Depois de uma confusão nos corredores, ela foi orientada por um segurança a voltar minutos depois de o público comum ser autorizado a entrar. O casal ficou junto por seis anos e terminou no início do ano passado.

Diego Armando Maradona com a mulher Rocio Oliva em foto de 2017 - Eddie Keogh/Reuters - Eddie Keogh/Reuters
Diego Armando Maradona com a mulher Rocio Oliva em foto de 2017
Imagem: Eddie Keogh/Reuters

Funcionário de funerária demitido

Um homem que trabalhava na funerária que preparou o corpo de Diego Maradona foi demitido após posar para uma foto com o argentino dentro do caixão.

Segundo o site da TV Todo Notícias, a foto, que mostra Diego Molina fazendo um sinal positivo com uma mão enquanto toca a testa de Maradona com a outra, viralizou em grupos de WhatsApp durante a cerimônia de despedida do astro.

Diego Molina posou para foto encostando no corpo de Maradona já dentro do caixão - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Diego Molina posou para foto encostando no corpo de Maradona já dentro do caixão
Imagem: Reprodução/Twitter

Acusação de advogado

Segundo o La Nación, o advogado de Maradona, Matías Morla, foi impedido pela família do ex-jogador de comparecer ao velório.

Longe da Casa Rosada, ele se manifestou no Twitter durante a cerimônia e disparou contra a suposta demora no atendimento ao argentino, considerando o ato como uma "idiotice criminal".

"É inexplicável que durante 12 horas meu amigo não tivesse atenção nem controle por parte do pessoal de saúde dedicado a esses fins. A ambulância demorou mais de meia hora para chegar, o que foi uma idiotice criminal. Este fato não deve ser esquecido e peço que as consequências sejam investigadas até o fim", publicou Morla.

Matías Morla, advogado de Diego Maradona, não marcou presença no velório do seu cliente - Agustin Marcarian/Reuters - Agustin Marcarian/Reuters
Matías Morla, advogado de Diego Maradona, não marcou presença no velório do seu cliente
Imagem: Agustin Marcarian/Reuters

Médico com poucas palavras

Por volta das 10h, o médico pessoal de Maradona, Leopoldo Luque, deu às caras na sede do governo argentino.

Ao ser rodeado por jornalistas, Luque apenas lamentou a morte de seu paciente e não quis responder sobre as acusações de Matías Morla.

O médico era uma das pessoas mais próximas de Maradona em seus últimos meses de vida. Ele foi o responsável por publicar a última foto pública do ex-jogador, fato que gerou uma grande rusga nos familiares.

Leopoldo Luque, médico de Maradona, falou pouco ao chegar na Casa Rosada - Demian Alday Estevez/EFE - Demian Alday Estevez/EFE
Leopoldo Luque, médico de Maradona, falou pouco ao chegar na Casa Rosada
Imagem: Demian Alday Estevez/EFE

União Boca-River

Uma cena rara no mundo do futebol foi registrada durante o velório, provando a importância de Maradona para os argentinos: torcedores de Boca Juniors e River Plate se abraçando.

A cena viralizou nas redes sociais e comoveu milhares de torcedores de outras equipes, que valorizaram o tamanho do ex-jogador no esporte.

Torcedores rivais do River Plate e Boca Juniors se abraçam e dividem luto pela morte de Diego Maradona - Juan Ignacio Ronconori/EFE - Juan Ignacio Ronconori/EFE
Torcedores rivais do River Plate e Boca Juniors se abraçam e dividem luto pela morte de Diego Maradona
Imagem: Juan Ignacio Ronconori/EFE

Presidente emocionado

De helicóptero e usando máscaras contra a covid-19, o presidente da Argentina, Alberto Fernández, marcou presença no velório por volta das 11h.

Visivelmente emocionado, ele chegou a colocar uma camisa do Argentinos Juniors em cima do caixão de Maradona - o clube foi o primeiro profissional do astro.

Logo depois, ao abraçar familiares e amigos, Fernández ficou alguns minutos de pé observando o caixão, já rodeado de artigos deixados pelos fãs.

Alberto Fernández se emociona durante velório de Diego Maradona - Reprodução/YouTube - Reprodução/YouTube
Alberto Fernández se emociona durante velório de Diego Maradona
Imagem: Reprodução/YouTube

Filas, calor e aglomeração

Quem saiu de casa cedo para dar adeus a Maradona em Buenos Aires passou por vários perrengues.

O primeiro deles, sem dúvidas, foi a enorme fila que começava na porta da Casa Rosada. O Canal 5 Notícias informou que a espera para passar por cerca de dez segundos perto do caixão era de até cinco horas.

A temperatura, na casa dos 24° C durante o dia, também não colaborou com os fãs, que acabaram se aglomerando em tempos de pandemia enquanto esperavam para entrar na sede do governo.

Uma fila quilométrica se formou nos arredores da Casa Rosada durante o velório de Diego Maradona - Ivan PISARENKO / AFP - Ivan PISARENKO / AFP
Uma fila quilométrica se formou nos arredores da Casa Rosada durante o velório de Diego Maradona
Imagem: Ivan PISARENKO / AFP

Horário apertado e nova confusão

Com previsão inicial de término do velório às 16h, a polícia argentina acabou bloqueando algumas partes da fila, já que nem todos os presentes conseguiriam entrar na Casa Rosada antes do encerramento.

A iniciativa não deu certo e desencadeou uma confusão generalizada, com direito a invasões na sede do governo argentino - que ficou fechada por alguns minutos.

De acordo com informações do Canal 5 Noticias, os policiais atiraram bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar as pessoas.

A polícia ainda usou hidrantes para jogar água nos torcedores, enquanto alguns fãs arremessaram garrafas e latas nos policiais.

Alberto Fernández, posteriormente, convenceu a família de Maradona a estender o velório para às 19h, três horas depois do planejado pelos familiares do argentino.

Torcedores pulam o portão e invadem a Casa Rosada no velório de Diego Maradona - REUTERS/Ricardo Moraes - REUTERS/Ricardo Moraes
Torcedores pulam o portão e invadem a Casa Rosada no velório de Diego Maradona
Imagem: REUTERS/Ricardo Moraes

Cortejo leva corpo para enterro

Após o encerramento oficial do velório, por volta das 17h (de Brasília), a multidão se manteve reunida em frente à Casa Rosada. Os presentes cantavam e resistiam às investidas da polícia para tentar abrir caminho em frente ao local.

O corpo de Maradona foi levado em um cortejo fúnebre para enterro no cemitério Jardín de Bella Vista, a cerca de 35 quilômetros de Buenos Aires. O velório havia sido prolongado para durar até às 19h, mas foi interrompido por conta das confusões.

O circuito do cortejo teve início na Casa Rosada e passaria pela Avenida 9 de Julho, uma das principais vias de tráfego da capital argentina. O trajeto acabou alterado para evitar o prolongamento do aglomeramento público em meio à pandemia do coronavírus. A alternativa escolhida foi a Autopista 25 de Mayo.

O corpo de Maradona deixou a Casa Rosada às 17h45 em um carro, enquanto uma multidão cantava no adeus ao ídolo. A saída se deu sem tumulto. O veículo foi acompanhado de perto por motos e diversas pessoas corriam atrás do carro ao longo do percurso, que teve clima de estádio com cantoria e papel picado.

Cortejo Maradona - Juan Mabromata / AFP - Juan Mabromata / AFP
Corpo de Maradona segue em cortejo para cemitério
Imagem: Juan Mabromata / AFP

O Obelisco, situado na avenida 9 de Julho, um dos símbolos de Buenos Aires, foi iluminado com as cores da bandeira argentina e foi projetado o rosto de Maradona com a frase "Obrigado, Diego".

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