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Lisca já se sentiu menosprezado, mas agora abraça "doideira de amor"

América-MG comandado por Lisca eliminou Corinthians e Inter e está na semifinal da Copa do Brasil - Fernando Alves/AGIF
América-MG comandado por Lisca eliminou Corinthians e Inter e está na semifinal da Copa do Brasil Imagem: Fernando Alves/AGIF

Gabriel Carneiro e Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

24/11/2020 04h00

Classificação e Jogos

Os dois últimos trabalhos dizem mais sobre Lisca do que a fama de louco. No Ceará, assumiu como lanterna e terminou o Brasileirão de 2018 com 'campanha de vaga na Libertadores'. No América-MG, é semifinalista da Copa do Brasil, como "invasor" em meio a Grêmio, Palmeiras e São Paulo, e está entre os primeiros da Série B, com mais de 75% de chances matemáticas de acesso à elite.

É um momento profissional de afirmação aos 48 anos, tanto é que recentemente assinou com um empresário badalado do Sul do país. Mas nem sempre foi assim: "Vários presidentes e executivos que não me conhecem dizem: 'pô, mas é doido', 'tem essa fama'. Hoje em dia já melhorou muito e já não me atrapalha tanto, não", desabafa, em entrevista ao UOL Esporte.

Lisca já se sentiu menosprezado diante da opinião pública pelo que chama de "lado folclórico" de sua relação com os torcedores. Desde a primeira passagem pelo Ceará, em 2015, e também em seus trabalhos no Náutico, viralizaram vídeos dele indo para a galera, escalando alambrado e reagindo ao canto "Saiu do hospício, tem que respeitar, Lisca doido é Ceará".

Lisca - Fernando Alves/AGIF - Fernando Alves/AGIF
Lisca amassa copinhos d'água no Beira-Rio
Imagem: Fernando Alves/AGIF

Ele não quer mais o menosprezo, mas não pretende mudar o estilo, digamos, visceral.

"Valorizo muito a oportunidade que tenho. Não foi fácil sair das escolinhas do Internacional para chegar a ser treinador profissional, respeito demais o América-MG e meu trabalho. Antes tinha muito a relação com a torcida, a música, a festa, mas agora estando entre os quatro da Copa do Brasil já é mais falado o lado de conteúdo de trabalho, tudo é uma evolução. Só que eu gosto de trocar essa energia quando as coisas vão bem. A gente trabalha para caramba a semana toda, não custa nada você curtir as coisas boas também."

Quando a imagem é pelo lado pejorativo incomoda. Já incomodou mais, sabe? Agora vocês [jornalistas] já conheceram muito o meu trabalho e assim fica a imagem de um trabalho com energia, com paixão, com amor. Tento passar para meus jogadores e torcedores que eu estou os representando, é uma doideira de amor, de paixão."

Essa "troca de energia" passou dos limites depois que o América-MG eliminou o Internacional na Copa do Brasil. Na saída da Arena Independência, Lisca desembarcou do ônibus da delegação e correu na rua em direção aos torcedores que comemoravam a classificação, ignorando qualquer recomendação médica em meio à pandemia da Covid-19. O treinador explica que já teve a doença, mas mostra arrependimento.

"Eu já tive o coronavírus [Covid-19] e quem já teve a tendência é não ter mais, pelo menos por oito meses. Mas eu vou rever isso aí, não é um bom exemplo nesse momento. De vez em quando, ali na emoção, a gente comete algumas situações que pensando mais friamente não faria, até porque já teve casos de reincidência de reinfecção também. Tem que ter cuidado e realmente foi um erro que não se repetirá."

Favoritismo do Palmeiras

O América-MG de Lisca é o único dos quatro candidatos ao título da Copa do Brasil que encarou todas as fases. Deixou pelo caminho Santos-AP, Operário, Ferroviária, Ponte Preta, Corinthians e Internacional antes de enfrentar o Palmeiras, em jogos marcados para os dias 23 e 30 de dezembro. Segundo o treinador gaúcho, o time dirigido pelo português Abel Ferreira é favorito.

Todos eram favoritos contra a gente, o Corinthians, o Inter e se eu falar que o Palmeiras não é eu estou falando uma inverdade. Pelo investimento, pela pujança do clube, pelo plantel e pelo trabalho que o Cebola [Andrey Lopes] começou e o Abel agora está desenvolvendo. Nós somos a zebra mais uma vez e vamos tentar mais uma vez ultrapassar esse grande, esse gigante do futebol brasileiro com muito respeito. Não podemos deixar de sonhar."

Lisca 2 - Mourão Panda - Mourão Panda
Treinador durante treino do América-MG no CT Lanna Drumond, em Belo Horizonte
Imagem: Mourão Panda

Lisca é apoiador da presença de treinadores estrangeiros no futebol nacional porque vê "o conteúdo do treinador independentemente de onde ele é, se gaúcho, baiano, carioca ou estrangeiro, e os estrangeiros têm trazido muito conteúdo".

Veja mais: "Doidera de Lisca sobrevive em meio a mar de estatísticas", diz Craque Daniel

Contrato só até janeiro

As finais da Copa do Brasil de 2020 estão previstas para fevereiro de 2021, mas o contrato de Lisca se encerra em 31 de janeiro. Ou seja, se o time avançar mais uma fase, ele precisará ampliar o vínculo: "Tem mais isso ainda, mas a gente já vem conversando sobre essa situação, eu achei a proposta bem legal. Tem algumas situações para fora do país também, vamos analisar com calma e até esse dia aí nós vamos decidir."

A revelação de Lisca ao UOL Esporte indica uma possibilidade de mudança de rumos graças ao mercado aberto. Ele tem empresário há dez dias e conta que já ouviu "especulações" sobre seu futuro, mas ainda sem proposta formal. O que ele combinou é fechar a Série B e a Copa do Brasil no América-MG e depois rediscutir o futuro que pode ser fora do Brasil.

Lisca 3 - Estevão Germano - Estevão Germano
Lisca e o auxiliar Marcio Hahn durante jogo do América-MG
Imagem: Estevão Germano

"Se a gente for para o exterior, é para ter uma independência financeira a curto prazo. Eu tenho duas filhas, pode acontecer. China, Oriente Médio, vamos ver. Eu ainda estou começando a entrar neste cenário de treinadores de mais destaque, vamos ver o que vai acontecer."

Veja outras declarações:

Boa fase no América-MG

"É um momento bem legal, um trabalho que eu estava desejando fazer porque é desde início de ano. O clube tem colhido boas atuações, fez um bom Campeonato Mineiro, tem feito uma boa Série B, apesar de a gente ter perdidos alguns pontos, mas está ali na briga pelo acesso. A cereja do bolo é a Copa do Brasil, você ombreia com os principais times do país. Hoje, o América MG é um clube médio querendo se tornar grande, é um momento bem legal meu e dos jogadores, e a gente espera terminar este trabalho bem."

Foco é na Série B

"O acesso para a Série A é o principal objetivo do clube, algo bem traçado pelo nosso presidente. Eu estou concentrado é na Série B. Jogando a Copa do Brasil e ela juntas para nós ficou bem apertado. Ficou difícil a logística, viagens, mudança de foco, mudança de regulamento, mudança de bola, valores diferentes, não é fácil você focar o jogador nas duas, essa parada vai ser bem interessante para a gente."

"Epopeia" na Copa do Brasil

"Tem muito caminho até o jogo contra o Palmeiras, é só no dia 23 de dezembro. Temos um adversário gigante e a outra semifinal são outros dois gigantes, Grêmio e São Paulo. É uma honra, um orgulho muito grande você ver o América junto com esses três times entre os maiores do país, isso para nós já é o grande título. Agora, se por acaso a gente conseguir passar pelo Palmeiras, depois é praticamente uma epopeia, acho que seria classificado assim."

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Lisca vibra com a torcida em vitória do Ceará sobre o Fluminense pelo Brasileirão de 2018
Imagem: Mauro Jefferson/CearaSC.com

Relação com a dupla Gre-Nal

"Meu bisavô foi goleiro e treinador do Internacional nos anos 20 até os anos 40, el foi goleiro do Inter do "Rolo Compressor". Eu comecei no Inter com 17 anos, passei por todas as categorias, saí com 37 anos. Foi bem legal, sabe? Eu tenho um carinho enorme pelo Inter e pelo Grêmio também, porque tenho muitos tios e amigos que trabalharam no Grêmio, eu trabalhei nos juniores como treinador em 2005. Tenho um sonho de trabalhar nos dois no profissional, são dois gigantes."

Lisca dirigiu o Inter em três jogos em 2016.

Algoz dos grandes

"Quando enfrentamos o Corinthians, ele estava se transformando com um novo treinador, que é o Mancini, o processo de time coletivo ainda era bem inicial, ao contrário do América trabalhando forte comigo desde janeiro. Com o Inter aconteceu parecido, porque o treinador [Eduardo Coudet] saiu dois dias antes dos jogos contra a gente. O Abel Braga veio e uma mudança sempre gera uma série de questões. A gente jogou confiante, neutralizou bem os dois times e passamos com merecimento."

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