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"É uma humilhação", diz jogador negro revistado em ônibus como "suspeito"

George Pitbull, volante do Paysandu, denunciou ter sofrido racismo em uma viagem de ônibus - Jorge Luiz/Paysandu
George Pitbull, volante do Paysandu, denunciou ter sofrido racismo em uma viagem de ônibus Imagem: Jorge Luiz/Paysandu

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

28/10/2020 12h18

O volante George Pitbull, de 21 anos, passou por um constrangimento na noite da última segunda-feira quando voltava de um treino no estádio do Paysandu, em Belém (PA). Junto ao atacante Debu, que também é negro, ele foi abordado e revistado por agentes da Polícia Militar depois que a corporação recebeu uma ligação informando sobre um suposto "comportamento suspeito" dos jogadores no veículo.

Os policiais pediram para os atletas descerem do ônibus, revistaram suas mochilas, encontraram uniformes e chuteiras sujos, e os liberaram. "É um sentimento de vergonha, de humilhação pelo que a pessoa passa por ser negro e tatuado", afirmou o jogador, titular do time sub-23 do Paysandu, que disputa o Campeonato Brasileiro de Aspirantes. "Não podemos ser julgados pelo nosso estilo, pelo jeito que a gente se arruma."

O volante conta que entrou com o colega no ônibus em um ponto perto do estádio da Curuzu, onde a equipe manda seus jogos. "Quando entramos no ônibus, ele estava praticamente vazio. Tinha só uma moça branca, loira, e mais um rapaz de uns 17 anos. Eu e o Debu somos negros e quando entramos essa moça teve uma movimentação de preconceito, de suspeita, como se a gente fosse assaltar ou fazer algo assim."

"Levamos na esportiva. Entramos e sentamos. No caminho entraram outras pessoas, mulheres e idosos, mas ela só desconfiou da gente. Numa certa parte da BR[-316], a polícia chegou e parou o ônibus."

De acordo com o jogador, os policias também pediram para os demais passageiros descerem. Os agentes informaram que a denúncia havia partido de uma mulher. "Os policiais não foram arrogantes nem ignorantes. Perguntei ao policial se tinha sido o motorista que tinha ligado. Ele foi gente boa e respondeu que tinha sido uma moça."

Depois do constrangimento, Debu e George seguiram viagem. O volante fez um post em suas redes sociais denunciando o que considerou uma atitude racista por parte da passageira. O Paysandu também publicou uma nota oficial na qual repudia o racismo e presta solidariedade aos seus atletas.

O tema tem se tornado cada vez mais presente entre atletas, inspirados por movimentos internacionais como o "Black Lives Matter", que protesta contra a violência policial e pela igualdade entre as raças. No esporte, figuras como o jogador de basquete LeBron James e o piloto Lewis Hamilton têm sido algumas das vozes mais ativas do movimento. Recentemente, jogadores de futebol brasileiros, como o atacante Marinho, também usaram suas redes sociais para denunciar agressões racistas.

O paraense George, nascido na pequena cidade de Benevides, na região metropolitana de Belém, considera importante que os atletas falem mais abertamente sobre o assunto.

"Muitas vezes em que eu passei por isso, eu me calei. Essa é a primeira vez que eu falo sobre o assunto nas minhas redes. Às vezes ficamos calados por medo, por achar que as pessoas vão falar que é 'mimimi', e tem muita gente que fala isso mesmo", afirma George. "Mas sem vitimismo: é muito difícil, é vergonhoso passar por isso, você fica abalado psicologicamente."

"É muito importante um jogador de futebol falar sobre isso. As pessoas precisam saber o que está acontecendo. Tem que se pronunciar, ou pelas redes sociais, ou na delegacia. A gente sabe que têm muitas pessoas racistas no Brasil, mas tem que levantar a cabeça, procurar superar e deixar na mão de Deus, que tudo vai se resolver."

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