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Desabafo de capitã do Taboão rende doações e apoio de jogadoras da seleção

Nini  - Arquivo pessoal
Nini Imagem: Arquivo pessoal

Maria Victoria Poli

Do UOL, em São Paulo

24/10/2020 04h00

Dois dias após uma entrevista da capitã Nini Baciega, do Taboão da Serra, no intervalo da goleada de 29 a 0 imposta pelo São Paulo no Campeonato Paulista feminino viralizar e repercutir pelas redes sociais, as jogadoras do CATS receberam uma onda de apoio e incentivo até mesmo de atletas da seleção brasileira.

"Acabou que a repercussão está sendo muito positiva. As pessoas têm procurado a gente para nos ajudar. Eu comentei na entrevista sobre a roupa de treino, e tem pessoas dispostas a nos arrumar essas roupas. O pessoal montou uma vaquinha on-line para pagar a condução das meninas para o treino. Eu falei coisas básicas ali, foi mais um desabafo, mas estamos recebendo ajuda de muita gente mesmo", contou a volante ao UOL Esporte.

A ajuda, financeira e emocional, vem em forma de parcerias, propostas de patrocínio, doação de material esportivo e palavras de incentivo até mesmo de quem é exemplo para as jogadoras do Taboão e já teve de lidar com as dificuldades que a modalidade ainda enfrenta no país.

"Empresas, instituições, pessoas comuns e, inclusive, atletas do São Paulo, que jogaram contra nós no dia da goleada, também se sensibilizaram e participaram da vaquinha. Gente de todos os lugares, do Brasil e de fora. Até jogadoras da seleção brasileira mandaram mensagens de motivação, querendo ajudar com material", completou.

Na entrevista que viralizou, Nini desabafou sobre as condições enfrentadas pelo elenco, como falta de salário, material esportivo e treinos, e disse que esperava um jogo complicado contra o São Paulo, que tem uma equipe estruturada e é o atual vice-campeão da competição.

Pandemia agravou situação financeira

Time CATS - Reprodução - Reprodução
Equipe de Taboão
Imagem: Reprodução

Esta é a terceira participação do CATS em 23 edições do Paulistão feminino. Como existe apenas uma divisão no torneio, a participação de cada time depende do convite da Federação Paulista de Futebol. A entidade divulga uma carta de intenções a todos os clubes filiados e, se estes cumprem com os requisitos básicos de estrutura exigidos, podem se inscrever e participar.

Antes da pandemia, o clube montou um projeto e um elenco para participar do torneio: havia parcerias, patrocinadores e acordos de auxílio financeiro com as jogadoras. Mas, assim como fez com diversos setores da economia, a crise sanitária mudou o cenário.

"Com o coronavírus, perdemos os patrocínios e praticamente todo o elenco mudou, muitas meninas saíram. Depois, tivemos também dificuldades para conseguir um médico para o time", conta Nini.

O serviço médico era uma das exigências da Federação, que banca testes periódicos de covid-19 durante a competição. "Sem médico, não pudemos fazer os testes e a FPF não podia autorizar os treinos, por conta dos riscos. Quando conseguimos, faltavam duas semanas para a estreia. Aí a dificuldade era para conseguir um campo de treinamento. Só conseguimos três dias antes do início do campeonato. É pouco tempo para quem quer jogar um campeonato de alto nível", afirmou a atleta.

Os problemas citados por Nini não são novidade para o time. Essa, inclusive, ainda é a realidade de alguns clubes brasileiros. Segundo ela, a falta de salários, por exemplo, foi acordada entre elenco, comissão técnica e diretoria. As mulheres sabiam dos desafios, mas não renunciaram ao sonho e resolveram participar do campeonato pela visibilidade que ele dá às jogadoras, principalmente para as mais novas.

"Não é que o clube não quis dar. O clube realmente não tinha possibilidade de dar. Então a gente se fechou enquanto equipe. Aí, você olha nos olhos de cada uma e vê que é um sonho, né. Do jeito que for. Foi acordado que não teria salário. Mas a gente não cobra um salário, a gente cobra condições básicas", contou Nini.

"Agora, depois da repercussão, a gente espera conseguir essas coisas com as pessoas que estão ajudando. O clube também está abraçando bastante a ideia de conseguir parceiros e estão correndo atrás. No fim das contas, a balança é positiva a nosso favor."

Em nota divulgada na quinta-feira (22), o CATS manifestou apoio total a Nini e pediu ajuda e apoio aos empresários e comerciantes da região para poder fornecer melhores condições ao elenco e comissão. "Temos orgulho de todas atletas e toda comissão técnica, que fizeram o que estava ao alcance para defender o nome do CATS mesmo diante de uma potência com muita estrutura chamada São Paulo", diz um trecho da nota.

O Taboão volta a campo amanhã (25), contra a Ferroviária, pela terceira rodada do Campeonato Paulista, em Araraquara, às 18h. A partida terá transmissão do Facebook.

Goleada não retrata a realidade da modalidade

Nini - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Nini, de 32 anos, é professora de Educação Física na rede pública estadual de São Paulo e na rede municipal de Itapecerica da Serra, além de voluntária do projeto Treino Social, que realiza capacitações utilizando o futebol como ferramenta de desenvolvimento humano. Assim como outras jogadoras do Brasil, ela não pode viver do futebol, mas essa realidade, felizmente, não é mais a regra da modalidade por aqui.

"Tem pessoas que não conhecem o futebol feminino e julgam que todas as equipes passam por essas necessidades. Não, não são todas. Dentro do Campeonato Paulista são 12 equipes participando. Das 12, são três ou quatro que não têm esse potencial e essa estrutura. Não é uma realidade da elite do futebol feminino", afirmou Nini.

A camisa 5 ainda elogiou a postura do São Paulo na partida, que não tirou o pé e mostrou empenho até o apito final. "Elas estão lá trabalhando, são profissionais. O maior objetivo do jogo é fazer o gol. Em nenhum momento elas desrespeitaram a nossa equipe, não ficaram brincando, fazendo firula. Fizeram o papel delas, e muito bem feito. Isso é indiscutível."

Com a propriedade e o conhecimento de quem joga profissionalmente desde os 16 anos, quando estreou no Paulista de futsal pelo BLIA, Nini reconhece que a modalidade evoluiu muito, que há incentivo, preocupação e estrutura no futebol feminino nacional, mas pede atenção e carinho com quem ainda não alcançou essas condições.

"As pessoas precisam ter um olhar diferenciado com o futebol feminino, ter um carinho. São mulheres jogando. Essa parte do empoderamento feminino também é importante. O olhar da sociedade está mudando, mas sempre precisa de mais, principalmente com as categorias de base e clubes menores", finalizou Nini.

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