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Caso Robinho: procurador diz que vítima foi grampeada e não se contradisse

Robinho, atacante do Santos, teve o contrato suspenso depois que vieram à tona detalhes da condenação por estupro - Divulgação
Robinho, atacante do Santos, teve o contrato suspenso depois que vieram à tona detalhes da condenação por estupro Imagem: Divulgação

Janaina Cesar

Colaboração para UOL, em Milão

20/10/2020 15h07

A confiança na palavra da vítima foi um dos fundamentos que embasaram a acusação do Ministério Público de Milão contra o atacante Robinho, que acabou condenado a nove anos de prisão por estupro de uma mulher de 23 anos, em 2013.

Em entrevista ao UOL Esporte, o procurador Stefano Ammendola, que atuou no caso, afirmou que as investigações chegaram a grampear conversas da vítima com conhecidos depois do crime. E essas conversas coincidiram com o seu depoimento dado à Justiça, o que conferiu credibilidade ao seu relato.

Além da vítima, foram grampeados os acusados e testemunhas.

"As interceptações [de diálogos] servem para entender se a vítima está dando uma versão pré-constituída diferente daquela dada no imediatismo da verbalização da denúncia com o procurador ou com a polícia judiciária", explicou o membro do MP italiano. Em relação à jovem albanesa, "não houve conversas que pudessem alterar sua versão [quanto ao que havia declarado em depoimento], o que indica o índice de confiança da vítima", disse.

A reportagem conversou com Stefano Ammendola em sua pequena sala repleta de papéis, documentos e fascículos de atos processuais, localizada no imponente prédio que abriga o Tribunal e o Ministério Público de Milão. Na Itália, os procuradores atuam também nos processos de primeira instância - no Brasil, os representantes do MP nessa fase da acusação são os promotores de Justiça.

Com um tom de voz baixo e tranquilo, Ammendola respondeu brevemente as perguntas da reportagem.

Depois de atuar no caso que, em 2017, condenou em primeiro grau Robinho e o amigo Ricardo Falco por violência sexual de grupo, Ammendola hoje está na Divisão Antimáfia de Milão.

Apesar de o caso ter ocorrido há sete anos e a sentença ter sido emitida há três, ele veio à tona na última sexta-feira (16), após o site "Globoesporte.com" publicar a transcrição das interceptações telefônicas realizadas durante as investigações. A condenação do jogador se baseou, principalmente, no conteúdo dessas gravações.

Questionado sobre o fato de Robinho e sua defesa terem apontado supostos erros de tradução das conversas interceptadas, Ammendola respondeu que "se tratando de uma sentença de primeiro grau não definitiva, o acusado tem todo o direito de se defender na apelação. Naquela sede poderão reivindicar os próprios direitos."

"Cada um é livre de se defender como achar melhor. A pessoa pode dizer a verdade, mentir ou nem mesmo responder se quiser. Mas será a segunda instância a verificar a veracidade", afirmou o membro do MP.

Para o procurador, as investigações que acompanharam as acusações foram positivas para a sentença: "Tivemos a fase investigativa, de audiência preliminar como é previsto na Itália, a fase processual e a sentença de condenação. Então, ao menos na primeira instância, as acusações foram aceitas."

"Obviamente, um processo se funda na dialética das partes, na versão da acusação e da defesa. E lembro que os acusados foram muito bem defendidos, mas é o tribunal que decide", disse o procurador. Para ele, "as interceptações são instrumentos válidos na procura de provas porque a fala de quem é interceptado é espontânea".

Segundo a sentença, analisada por um colegiado de três juízes e assinada pela magistrada Mariolina Panasiti, a vítima foi levada para um camarim de uma boate e abusada por seis homens: Robinho e Ricardo Falco, ambos condenados na Itália, e outros quatro brasileiros que serão acusados em um processo a parte, porque não se encontravam no país ao longo das investigações.

O procurador lembra que a sentença descreve um crime com "múltiplas relações sexuais contemporâneas e consecutivas" com a vítima, "relações sexuais completas", com troca de posições entre os acusados.

Na denúncia, Ammendola havia pedido dez anos de prisão aos brasileiros, mas se deu por satisfeito com a sentença de nove anos.

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