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Quase advogado, Ruy Cabeção não vê mais futebol e lamenta crise no Cruzeiro

Aos 42 anos, Ruy está no 10º período de Direito e faz planos para a nova carreira - Arquivo pessoal
Aos 42 anos, Ruy está no 10º período de Direito e faz planos para a nova carreira Imagem: Arquivo pessoal

Enrico Bruno e Vanderlei Lima

Do UOL, em Belo Horizonte e em São Paulo

15/10/2020 04h00

O polivalente Ruy Cabeção foi um dos grandes nomes do futebol brasileiro nos anos 2000. Não só pelo estilo descontraído dentro e fora de campo, como também pela carreira em mais de 15 clubes, entre eles Cruzeiro, Botafogo, Fluminense e Grêmio. Mineiro de Belo Horizonte, Ruy persistiu na carreira e jogou até os 37 anos, até 2015. Mas hoje, com as chuteiras já dependuradas, bastou pouco tempo para que ele se desiludisse com o mundo da bola. Prestes a se formar em Direito, ele conversou com o UOL Esporte e contou que não vê mais jogos de futebol, só acompanha de longe, e com tristeza, os rumos que os clubes estão tomando.

Revelado no América-MG, foi o Cruzeiro que lhe deu projeção nacional. Ele chegou à Toca da Raposa em 2002 e ficou até 2006. Atualmente, sente um misto de carinho, pelos bons momentos vividos na agremiação celeste, e revolta, por causa do momento do clube, que, além de estar na zona de rebaixamento na Série B do Brasileirão, convive com denúncias de corrupção por parte da antiga gestão. Ruy diz que a crise atual era previsível.

"Os meus colegas de faculdade até me cobram dizendo que a minha cabeça não é grande à toa, parece uma bola de cristal e que eu estava adivinhando. A gente podia analogicamente dizer o seguinte: é a mesma coisa que pegar o Fernandinho Beira-Mar e o Marcola, do PCC, e colocar eles como ministros da Justiça do Brasil."

Ruy se refere à antiga diretoria cruzeirense, na qual Wagner Pires de Sá, ex-presidente do clube, Itair Machado, ex-vice-presidente de futebol, e Sérgio Nonato, ex-diretor, são investigados por práticas criminosas e irregulares na gestão da Raposa.

"Muitas pessoas que estavam no clube sabiam o que estava acontecendo, todos os conselheiros sabiam, todos os diretores, os ex-presidentes sabiam. Então, hoje não adianta um ficar culpando o outro, porque todos tinham conhecimento. É lastimável."

O ex-jogador diz a situação do Cruzeiro foi a razão para ele se afastar do futebol. "Eu era comentarista da TV, mas resolvi sair, não adiantava a gente comentar. Hoje, eu desgostei totalmente de futebol, não assisto mais, vejo muito pouco o Cruzeiro porque me remete a essas coisas", acrescentou.

Das boas lembranças, ficou a parceria com Sorín

Ruy e Sorín - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

As dificuldades no idioma não impediram que Ruy Cabeção criasse uma amizade com o lateral argentino Juan Pablo Sorín, na época em que os dois jogavam juntos no Cruzeiro. "Era difícil demais entender o Sorín. Os argentinos falam muito rápido no dialeto deles lá. Eu demorei mais ou menos uns 90 dias para ter coragem de falar para ele que eu não entendia nada. Só depois disso a gente conseguiu se comunicar melhor", brinca.

O ex-jogador afirma que aprendeu muito com o argentino e que, independentemente da barreira do idioma, a amizade foi quase instantânea. "Desde o primeiro dia que eu fui à Toca da Raposa, ele já me convidou para poder ser o companheiro dele nas concentrações. Eu aprendi muito com ele. Não é à toa que ele foi capitão durante anos da seleção argentina. Com certeza, ele e o Alex, o camisa 10, são os maiores ídolos do Cruzeiro".

O heroico time de guerreiros regado a muita cerveja

Entre 2009 e 2010, Ruy integrou o time de guerreiros do Fluminense, vice da Sul-Americana e que se safou do rebaixamento com uma arrancada histórica no Brasileirão. E esse feito também mereceu ser relembrado pelo ex-jogador, já que o time mal tinha tempo para treinar e precisou recorrer à cerveja para descontrair nos momentos de tensão.

Ruy e Fred - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

"E não era pouca cerveja não, era muita cerveja", brincou. "Aquilo ali foi um momento inexplicável. O Cuca chegou para dar uma reformulada no grupo, poucos jogadores experientes ficaram. Acho que fomos eu, o Fred, Fernando Henrique, Ricardo Berna, o Conca e o Roni. O resto era tudo garotada, mas era uma garotada que respeitava muito os atletas mais velhos, e esses atletas mais velhos realmente se doavam dentro de campo. E a gente fez isso, com 99% de chance de cair, vencemos nove jogos em dez. Houve essa junção de jogadores experientes para blindar o clube com os meninos de Xerém, que tinham muita qualidade."

Pedido de emprego pelo Twitter

Perto do fim da carreira, sem empresários e sem representantes, Ruy teve a ideia de "espalhar o currículo" na internet. E funcionou.

"Eu não trabalhava mais com empresários, e como eu já tinha feito uma carreira bacana, pensei em usar as redes sociais para ver o que iria dar. Para minha surpresa, eu comecei a receber contatos de alguns clubes. Algumas pessoas me ligavam não acreditando que era o meu telefone e que estavam falando comigo, achavam que era uma pegadinha. Mesmo assim, eu consegui mais três contratos para disputar campeonatos estaduais, um no Rio Grande do Norte os outros dois lá no Mato Grosso", conta.

Fim do Bom Senso e a faculdade de Direito

A experiência dentro e fora de campo ajuda a explicar o porquê Ruy foi um dos representantes do Movimento Bom Senso F.C, criado em 2013 para cobrar melhores condições aos atletas e clubes do futebol nacional. O grupo atuou até 2016, mas, para o ex-jogador, não conseguiu fazer mudanças efetivas no Brasil, que ainda caminha a passos curtos para evoluir fora das quatro linhas.

Ele não desistiu de contribuir com o futebol, mas o caminho será outro. A poucos meses de concluir o curso de Direito, Ruy pretende se especializar na área tributária e quer ajudar atletas profissionais oferecendo serviços de educação financeira.

"Depois que você para de jogar é como se fosse a morte. Vão passar 30 dias e você vai olhar para sua conta e não vai ter caído nada. Eu não tenho aposentadoria, eu contribuí durante 17 anos, mas eu ainda não cumpri todo o período. Jogador é assim, não tem verba nenhuma entrando. Ou ele guarda dinheiro e se planeja para poder seguir a vida ou então tem que torcer para poder ser esse 0,0001% dos atletas que viram bilionários", completa Ruy.

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