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Petrolina brilhou no Sport, largou o futebol e hoje sonha em virar técnico

Juninho Petrolina hoje tem uma escolinha e pensa em ser treinador - Arquivo Pessoal
Juninho Petrolina hoje tem uma escolinha e pensa em ser treinador Imagem: Arquivo Pessoal

Alexandre Araújo e Vanderlei Lima

Do UOL, no Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP)

29/09/2020 04h00

Ele nasceu em Juazeiro, na Bahia, mas ficou conhecido nacionalmente carregando Petrolina no nome. Foi em Pernambuco, aliás, com a camisa do Sport, que despontou para o futebol. Hamilton Timbirá Dias dos Santos Júnior, ou Juninho Petrolina, chegou ao Leão após um amistoso e passou por diversos clubes, como o Vitória, quando causou um conflito familiar. A alegria de jogar, porém, se foi com a morte da mãe, mas, hoje, tem um projeto para descoberta de novos talentos e pensa em se tornar técnico.

A trajetória no futebol começou na cidade natal, do outro lado da ponte. Juninho jogava em um time amador em Juazeiro até que foi observado por um treinador e chegou ao 1º de Maio, em Petrolina. Um jogo contra o Sport foi o suficiente para que a carreira desse uma guinada.

Juninho Petrolina nos tempos de Sport - Reprodução TV Globo - Reprodução TV Globo
Imagem: Reprodução TV Globo

"Eu jogava no amador aqui em Juazeiro e conheci um treinador chamado Guanair Athanázio. Eu era bem novinho, tinha uns 12, 13 anos, e ele me chamou para jogar no time dele, já de adulto. Ele me botava para jogar aos poucos, apostou em mim. Fui campeão pelo Olaria, Planalto e Juazeiro, tudo com ele de treinador. Fui para o 1º de Maio, em Petrolina, e fomos campeões do centenário da cidade. Nisso, o Sport foi fazer um amistoso e perdemos por 1 a 0, mas jogamos melhor, me destaquei e o pessoal do Sport me levou", lembra ele, que foi tricampeão do Pernambucano.

Atualmente com 45 anos, Juninho vestiu ainda as camisas de Náutico e Santa Cruz, outros dois grandes clubes do Estado. No Santa, em 2001, superou as dúvidas iniciais por conta da passagem no rival rubro-negro e afirma que foi "muito feliz". No Timbu, lamenta os problemas que o clube atravessava o "pouco tempo" que teve.

"Guerra familiar" na passagem pelo Vitória

Petrolina também marcou o nome na história de um outro rubro-negro, e na terra natal. Em 2000, o meia-atacante retornou para a Bahia, para defender o Vitória, e foi autor de um dos gols no triunfo por 3 a 1 sobre o Tricolor, que deu o título do Baiano ao clube do Barradão. Ter vestido as cores do Leão da Barra, inclusive, causou uma "guerra familiar".

Juninho Petrolina foi campeão baiano pelo Vitória - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

O menino, que na infância se tornou um torcedor do Bahia ao ser levado aos jogos pelo pai, seu Hamilton, anos depois se tornou algoz do Tricolor de Aço.

"Minha mãe e meu pai eram torcedores do Bahia, e eu jogava no Vitória. Antes de todos os jogos, eu ligava para a minha mãe para pedir bênção. Nesta época, ela dizia: 'Deus o abençoe, jogue bem, só não faça gol no meu Bahia, meu filho. Não faça gol porque está todo mundo aqui em casa e vão me esculhambar'. Eu falava: 'Pode deixar, eu vou fazer só um gol' (risos). Já meu pai era Bahia doente. Morei em Salvador um período e ele me levava aos jogos. Eu ia com 5, 6, 7 anos, na época de Claudio Adão, Zanata, Bobô, Claudir... Muitos jogadores bons. Passei a ser torcedor do Bahia e, depois, jogador do Vitória. Para você ver como é a vida", conta.

"Fui jogar pelo Vitória e fui campeão baiano em cima do Bahia. Meu pai ficou chateado comigo, você acredita? (risos). Acho que joguei contra o Bahia umas oito vezes em minha vida toda e que fiz gols em 99%. Eles ficavam na bronca comigo, principalmente o meu pai", completa.

Perda da mãe e da vontade de jogar futebol

Juninho Petrolina ao lado da mãe Angélica - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

As ligações para a mãe, dona Angélica, eram uma espécie de amuleto para Juninho Petrolina, que não entrava em campo sem antes falar com ela. Segundo o ex-atleta, o incentivo do outro lado da linha pouco antes do apito inicial lhe dava energia.

"Nunca teve um jogo em minha vida de eu não ter ligado para a minha mãe antes. Todas as vezes que eu ia entrar em campo, ia para o banheiro, os treinadores todos sabiam, pegava o telefone e minha mãe já estava esperando: 'Mãe, bênção'. 'Deus o abençoe, filho'. Eu falava: 'Vou jogar agora, reze aí, viu! Eu vou arrebentar'. E ela falava: 'Vai com Deus, meu filho, que Deus já está com tudo programado para você. Você vai arrebentar, vai jogar bem. A mãe está torcendo para você'. Aquilo me acalmava, me dava energia, um reforço."

O apoio da mãe, que não faltou nem quando o filho acertou com o rival do clube de coração, era o que movia Juninho Petrolina na caminhada no futebol. Com perda dela, que ele aponta como a "maior incentivadora" para que seguisse carreira com a bola nos pés, a alegria de jogar e fazer os gols também também não existia mais.

"Minha mãe foi a maior incentivadora. Desde o amador, sempre acompanhou os jogos. Era no sol quente, na chuva... Ela sempre me acompanhava, e eu jogava para dar o melhor para a minha mãe. Lógico, o melhor para ela e para minha esposa na época. Com o meu divórcio, fiquei um pouco abalado, estava com 29 para 30 anos. Eu tinha a ideia de jogar até aos 30 anos e, depois, encerrar para viver a minha vida com a minha mãe, curtir com os meus filhos. Mas logo em seguida ao meu divórcio, já perto de fazer 30, veio o falecimento de minha mãe e, nisso, eu disse para mim mesmo que já era a hora de parar. Eu não queria mais jogar bola, não tinha mais alegria de jogar. Eu não via mais motivo", ressalta.

O ex-jogador admite que havia perdido o amor pelos afazeres e, por isso, praticamente deixou a carreira de lado. Entre em 2011 e 2014, quando se aposentou, acumulou passagens por clubes de menor investimento e com pouquíssimos jogos.

"Eu não tinha esses amores todo pelo futebol. Jogava, na verdade, para ter uma dependência financeira e ajudar a minha mãe porque ela sofreu muito e formar os meus dois irmãos, que hoje são advogados. Depois foi que eu passei a ter amor pelo futebol, porque eu via a minha mãe feliz, os torcedores felizes, meus amigos felizes. Então, passei a ter amor, a ver o futebol de uma forma diferente. Com a morte da minha mãe, acabou tudo para mim. Foi quando eu desisti de jogar futebol. Entrei naquela depressão de perder a alegria das coisas, não via motivo para eu seguir."

Preso em 2014

Em 2014, já aposentado, Juninho Petrolina acabou sendo manchete, mas de uma forma diferente. Ele foi preso pelo não pagamento de pensão alimentícia. Segundo o ex-meia, porém, essa foi a estratégia encontrada para conseguir uma revisão nos valores que pagava à época. Ele conta que um pedido já corria há uma década sem a análise da Justiça.

"Eu pagava uma pensão de R$ 7,2 mil. Quando fui ficando mais velho, os valores salariais diminuíram. Não achava justo pagar uma pensão de R$ 7,2 mil quando eu recebia certamente valores diferentes do início de carreira, quando podia pagar [o valor]. Então, meus irmãos, que são advogados, achavam justo eu entrar com a revisão, porque eu não estava em condições de manter. Passaram-se dez anos e essa revisão nunca foi julgada. Meu irmão disse que a única forma de resolver seria deixar de pagar e ir para a prisão. Foi uma estratégia e foi a única forma para dar certo. Só que muita gente me criticou, me esculachou achando que eu não pagava porque eu não queria. As pessoas não entendiam que já tinha dez anos e aquela revisão nunca tinha sido julgada", aponta.

Pensa em ser treinador

Depois do adeus aos gramados, Juninho fez cursos na Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Inicialmente, a ideia era seguir no futebol, mas com uma escolinha. Porém, com o passar do tempo, admite que vislumbra, um dia, poder estar dando instruções à beira do gramado.

Juninho Petrolina em curso da CBF - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Imagem: Reprodução Instagram

"Quando eu fiz o curso da CBF, foi visando dar a continuidade dentro do futebol, mas o meu pensamento não era ser treinador de imediato e, sim, montar uma estrutura, uma escolinha. Hoje, tenho um centro de treinamento em Petrolina, onde tenho uma escolinha com quase 100 alunos. Tenho atletas já despontando no futebol. Abri um leque de oportunidades para muitos aqui da região, que não tem essa oportunidade", salienta.

"Depois que montei a escolinha foi que veio o meu projeto de ser treinador. Eu vou aguardar a minha hora, vou continuar o meu trabalho e, quem sabe um dia, no futuro, possa ser um treinador de futebol", completa.

Gafe em Portugal

Não foi apenas no Brasil que Juninho Petrolina brilhou. Em Portugal, ele defendeu, primeiramente, o Beira-Mar, por três anos, e, depois, o Belenense, por mais um. Ambos clubes de investimentos modestos. Na chegada ao país europeu, porém, ele demonstrou confiança e acabou arrancando alguns sorrisos dos jornalistas na entrevista de apresentação.

Mas logo na primeira temporada no Velho Continente, acabou entre os melhores jogadores do campeonato. Em 2002/2003, no segundo ano no Beira-Mar, foi apontado como melhor estrangeiro atuando em Portugal.

"Eu só ouvia falar em Portugal, mas a cultura, costume, essas coisas, eu não sabia. Não tinha aquele entendimento como eu tenho hoje pela internet. Fui para Portugal e a minha primeira entrevista tinha de ser lá no clube [Beira-Mar]. Teve a primeira pergunta para mim, que foi qual era o meu pensamento. Eu disse: 'Vim para Portugal para ser campeão português'. Quando eu disse um negócio desse, todo mundo sorriu. Fui para um clube de mediano para pequeno, o Beira-Mar nunca tinha ficado em décimo lugar no campeonato português."

"Aí, disseram: 'Ah, você pensa grande', e eu disse para o repórter: 'Em todos os clubes por onde eu passei no Brasil fui campeão. Vim para Portugal para ser campeão'. Rapaz, acharam aquilo um afronte, uma autoconfiança e até mesmo que eu me achava. Não fui campeão português, mas nesse mesmo ano eu fui o melhor médio-direito da competição e fiquei entre os três melhores jogadores de Portugal", recorda.

Espelhos

Nesta nova empreitada, Juninho Petrolina tem alguns nomes que leva como exemplos. São profissionais com quem trabalhou ao longo da carreira e que, hoje, tenta colocar em práticas algumas das características que absorveu neste período. Dentre eles, cita Ricardo Rocha, Hélio dos Anjos e Newton Mota.

"Tive o Carlos Alberto Silva como um grande treinador no Atlético-MG, um grande homem. Tive o Ricardo Rocha como um cara bem dinâmico. Tenho o Hélio dos Anjos com muita sabedoria. Ele é muito sábio, o problema que hoje, no nosso futebol, não temos jogadores com muita sabedoria. Temos jogadores com muita força, mas com fraco raciocínio. Hoje, a gente pede para os jovens fazer alguma coisa, eles fazem uma, duas vezes e depois eles esquecem que tem que fazer continuadamente," analisa.

"Antigamente, a gente assimilava, o treinador pedia, uma, duas vezes a gente já sabia o que tinha que fazer. Esse é o nosso problema hoje, os atletas têm essa dificuldade. Eu falo muito sobre coordenação motora. Conversei com o Newton Mota, que é de Salvador, que foi treinador, comandou a base do Bahia e do Vitória... Tenho ele como um grande espelho e o procurei ele me dar algumas dicas", completa.

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