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Torcedoras denunciam sócio do Botafogo por assédio em estádio e na web

Torcedora denuncia assediador dentro da organizada do Botafogo - Reprodução/Instagram
Torcedora denuncia assediador dentro da organizada do Botafogo Imagem: Reprodução/Instagram

Adriano Wilkson, Bernardo Gentile e Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo e no Rio

26/09/2020 04h00

Dezenas de torcedoras do Botafogo se reuniram para denunciar situações de assédio e perseguição virtual envolvendo Raphael Dornelles Siciliano, sócio-proprietário do clube e que tinha participação ativa na torcida organizada Loucos Pelo Botafogo (acabou excluído do quadro após esses casos). As denúncias vão desde supostos comportamentos abusivos nas redes sociais a possíveis casos de assédio físico no entorno do estádio Nilton Santos, onde o clube manda seus jogos -essa acusação foi feita com base nas partidas antes da pandemia, na época, com público.

Uma das torcedoras procurou a polícia para fazer uma acusação contra Siciliano. O caso foi registrado como termo circunstanciado por perturbação da ordem. Além desse registro, Siciliano responde a outros processos na Justiça, incluindo acusações mais graves —a reportagem não teve acesso a esses registros porque tramitam em sigilo judicial.

Por meio de nota, o Botafogo disse que vai investigar as denúncias. A torcida Loucos Pelo Botafogo afirmou que baniu o membro, que comandava a banda da organizada (veja notas oficiais do clube e da torcida mais abaixo). O UOL Esporte entrou em contato com o suspeito por diversas vezes e o questionou sobre as acusações, mas não obteve respostas (mais detalhes abaixo).

Depoimentos contra o torcedor

A reportagem conversou com uma torcedora de 22 anos que costumava ver jogos do Botafogo no setor da organizada. Por medo de represálias, ela prefere não ser identificada. Mas conta que o suspeito de assédio sempre foi conhecido na torcida por desrespeitar as mulheres. Há cerca de dois anos, depois de um jogo no Nilton Santos, ele supostamente teria se aproveitado de uma confusão no grupo para passar a mão nas nádegas dela.

"Ele passou a mão em mim e isso passou de todos os limites. Falei com o presidente da torcida e não deu em nada. Desde então, não consigo ir em estádio sozinha como eu ia antes. E tenho amigas que também não vão sozinhas por causa disso", contou ela. "Muitas meninas não tiveram coragem de expor, como eu não tive."

As denúncias contra o torcedor, que trabalha como fisioterapeuta e é dono de uma clínica na zona sul do Rio, vieram a público depois que a maquiadora Tamires de Morais, de 29 anos, postou um vídeo no Instagram contando sobre uma suposta abordagem abusiva que ela teria sofrido. O caso dela é antigo, de 2013, mas a vontade de se expressar surgiu após uma amiga também ter relatado caso de assédio.

Prints de mensagens privadas por celular aos quais a reportagem teve acesso mostram que o fisioterapeuta abordava influenciadoras no Instagram convidando-as a ser modelo para a clínica. Segundo as mensagens, Siciliano oferecia tratamentos estéticos em troca da divulgação dos serviços da empresa nas redes sociais, uma prática comum no setor. Relatos das mulheres indicam que Siciliano mantém esse comportamento há quase uma década.

"Ele começou a me seguir no Instagram com uma abordagem que me deixou bem desconfortável", disse a maquiadora. "Até que ele veio com um papo para eu ser modelo da clínica dele, e eu não aceitei. Eu bloqueei ele, mas ele fez outros perfis para me mandar mensagem, e eu bloqueei em todos. Não sei como, ele conseguiu meu WhatsApp e começou a me assediar por lá. Fiquei muito nervosa na época, pedi ajuda ao meu namorado, mas ele [o fisioterapeuta] sumiu. Agora, ele reapareceu, e muita gente sabe de quem eu estou falando."

Assédio - Reprodução - Reprodução
Fisioterapeuta tinha abordagem insistente nas redes sociais
Imagem: Reprodução

A consultora financeira e corretora de imóveis Kelly Fernanda Ferreira, de 24 anos, conta uma história semelhante sobre a mesma pessoa.

"O meu relato começa em 2017. Eu era da Loucos e estava no grupo de apoio à torcida. Ele me mandou uma mensagem no privado perguntando se eu era botafoguense, mas como eu já não gostava dele porque ele ficava me encarando nos jogos de forma escrota eu bloqueei de imediato. Nisso ele me mandou um SMS dizendo: 'Nossa, foi rápido, hein!'" "Depois me mandava SMS pedindo pra desbloquear ele. Só parou porque eu troquei de número", contou a corretora. Ela diz que depois dessa abordagem, o fisioterapeuta ainda voltou a entrar em contato, dessa vez usando o perfil de sua clínica de massagem.

Uma quarta torcedora, que também preferiu não se identificar, relatou ter sofrido abordagem semelhante pelo Instagram. Nos prints compartilhados, o perfil da clínica e o perfil pessoal do fisioterapeuta se mostram insistentes nas propostas de trabalho e nos pedidos de desbloqueio.

Torcedor não responde questionamento

A reportagem tentou contato em seis oportunidades com o acusado. No dia 11 de setembro, duas ligações para o celular foram recusadas. No mesmo dia, foram feitas duas tentativas de chamadas para a clínica de Siciliano, que não foram atendidas. Já no dia 24, a reportagem fez mais uma tentativa pelo celular e não foi atendida. Siciliano respondeu a uma mensagem pelo WhatsApp, chegou a confirmar sua identidade, mas parou de responder ao se inteirar do assunto.

Botafogo e torcida organizada se manifestam

Depois que as denúncias vieram à tona, o Botafogo e a torcida organizada Loucos Pelo Botafogo se pronunciaram, repudiando o assédio contra mulheres.

O grupo de mulheres importunadas pelo fisioterapeuta busca reunir provas para dar parte na delegacia. No entanto, a maioria tem medo de levar o caso à frente. Torcedoras mais ativas tentam convencer as companheiras de que esse é o melhor caminho, mas até o momento não há uma definição.

Nota do Botafogo

Em função das graves denúncias de assédio relatadas por torcedoras e por se tratar de um sócio-proprietário, o Botafogo comunica que, após receber as denúncias com as provas pertinentes, irá instaurar um processo interno para averiguar o caso, como determina o estatuto.
O Botafogo entende a gravidade dos relatos e repudia com veemência qualquer tipo de assédio. O Clube reitera o seu posicionamento de que jamais vai admitir situações como essa, exigindo respeito às mulheres.

Nota da torcida organizada Loucos Pelo Botafogo

Conforme reunião extraordinária dos Loucos Pelo Botafogo, informamos que o indivíduo em questão não estará mais presente à frente da banda, sede e nem eventos da torcida. A presença dele dentro e fora da torcida está banida!

Os Loucos Pelo Botafogo sempre lutaram para as mulheres terem sua liberdade e a posição que quisesse na arquibancada e agora não será diferente.

Informamos para todos nossos integrante e simpatizantes que qualquer tipo de assédio não será tolerado, dando total liberdade para a mulher que se sentir assediada falar com algum membro da torcida e tomaremos medidas cabíveis.

Não importa quem você seja, não será tolerado!

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