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Sérgio Soares: "Treinador negro, em função de liderança, incomoda a muitos"

Do UOL, em São Paulo

08/09/2020 16h40

Há cerca de 15 anos, Sérgio Soares encara a realidade de ser um técnico negro de futebol no Brasil, onde a realidade é de poucos treinadores negros empregados nos principais clubes nacionais, menor até que o número de estrangeiros que ocupam o cargo nos times da Série A do Campeonato Brasileiro atualmente.

Em entrevista ao programa Os Canalhas, com os jornalistas João Carlos Albuquerque e Rodrigo Viana, Sérgio Soares, que atualmente não está treinando nenhum clube, fala sobre a responsabilidade que tem como técnico negro e a desconfiança da capacidade que um negro enfrenta a cada trabalho de liderança que assume no esporte.

"Só o fato de ser treinador já vive na corda bamba. Isso daí já é uma situação natural inerente à função e você sendo um treinador negro aumenta ainda mais essa responsabilidade, esse crivo fica maior ainda, porque está sempre aquele olho desconfiado para saber se o negro tem capacidade de poder estar exercendo uma função de liderança onde o negro sempre foi um personagem atribuído ao aspecto coletivo, até por causa da escravidão, e nunca o negro esteve em uma posição de liderança porque entendiam que o negro não tinha capacidade para poder tomar decisões importantes, para conduzir processos", diz Sérgio Soares.

O técnico que teve uma longa carreira como jogador de futebol, passando pelo Palmeiras campeão paulista de 1996, além de diversos clubes como Guarani, Náutico e Santo André, diz que o futebol carrega o mesmo preconceito racial que a sociedade e que a situação é diferente quando você é jogador para quando é treinador.

"Você como treinador está nessa função de liderança, está numa função de destaque, que incomoda muita gente. Mas eu me preparei muito para estar nessa posição, não foi que caiu de paraquedas porque eu fui um atleta que joguei futebol por 19 anos. Eu fui me preparando ao longo da minha carreira enquanto atleta, fui procurar estudar, fui fazer cursos", diz Soares.

"Eu sei que o negro é vítima da sociedade, o futebol está inserido na sociedade então não poderia ser diferente, a sociedade é preconceituosa, o futebol faz parte da sociedade, então também tem preconceito", completa.

A diferença de tratamento com jogador e técnico negros

Para Sérgio Soares, os jogadores negros não têm sua capacidade questionada como os técnicos devido ao histórico de sucesso de atletas negros pelo mundo e o fato de Pelé ser negro.

"O papel do negro é o papel do ser humano, o negro é um ser humano, é um papel onde ele tem que ter espaço como qualquer outra pessoa. Eu acho que nós, enquanto da pele preta, a gente tem muita capacidade para poder estar dentro do futebol em todos os segmentos", diz o técnico.

"Como atleta, a gente não precisa provar nada para ninguém porque a gente sabe que o principal atleta da história do mundo é um negro, é um preto, então a gente não precisa provar nada para ninguém. Mas eu vejo que em outros segmentos do futebol, o negro se capacitando, ele também tem capacidade para estar à frente de funções importantes dentro do futebol, e é dessa forma que eu vejo como um negro pode estar ou como um negro pode representar toda uma classe dentro do futebol", completa.

Esperança no engajamento contra o racismo

Apesar das barreiras encontradas no futebol, o treinador vê esperança com o engajamento recente na luta contra o racismo e espera que as próximas gerações possam ter um mundo livre de preconceitos.

"Hoje vivemos um momento onde pessoas de pele clara, pele branca, estão engajadas para que termine isso. Apesar de nós estarmos no século 21, a gente ainda está falando de preconceito, de racismo ainda e isso para mim é lamentável. Talvez eu não vá aproveitar ainda realmente o término dessa questão de preconceito e de racismo, mas meus netos sim, meus netos irão aproveitar porque tem muita gente engajada para que isso termine", conclui Soares.

Além de abordar a questão do racismo no futebol, Sérgio Soares também fala sobre sua carreira como jogador, o título paulista com o Palmeiras de 1996, além da estreia como técnico de forma improvisada vencendo o Flamengo na final da Copa do Brasil de 2004, além de analisar o trabalho e as críticas feitas a treinadores como Fernando Diniz, o tempo de trabalho dado aos técnicos brasileiros e o que os estrangeiros trazem de diferente no futebol.

Os Canalhas: Quando e onde?

O programa Os Canalhas vai ao ar toda terça-feira, às 14h, em transmissão ao vivo, disponível na home do UOL ou nos perfis do UOL Esporte no Youtube e no Facebook e Twitter, com os jornalistas João Carlos Albuquerque e Rodrigo Viana entrevistando personalidades importantes do esporte brasileiro. Inscreva-se no canal Os Canalhas no Youtube para conferir mais de João Carlos Albuquerque e Rodrigo Viana.