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Protocolo da CBF aumenta risco de covid em três divisões; atletas protestam

Meia Daniel Bessa, do Goiás, em frente ao estádio Serrinha, que seria palco do duelo com o São Paulo - Heber Gomes/AGIF
Meia Daniel Bessa, do Goiás, em frente ao estádio Serrinha, que seria palco do duelo com o São Paulo Imagem: Heber Gomes/AGIF

Adriano Wilkson e Bruno Fernandes

Do UOL, em São Paulo e Maceió

10/08/2020 00h00Atualizada em 10/08/2020 10h47

Classificação e Jogos

O Campeonato Brasileiro foi iniciado no mesmo fim de semana em que o Brasil atingiu a marca de 100 mil mortos por covid-19. E suas três divisões, que tiveram jogos em todas as regiões do país, expuseram centenas de jogadores e membros de comissão técnica ao risco de contágio pelo novo coronavírus.

A demora na divulgação do resultado de testes, que são supervisionados pelo hospital Albert Einstein, fez com que atletas das Séries A, B e C interagissem com companheiros em viagens e concentrações antes de saberem que estavam contaminados. Muitos dos que testaram positivo estão sem sintomas.

Duas equipes - o Goiás e o Imperatriz - só tiveram acesso ao resultado de seus exames horas antes de entrar em campo, o que causou o adiamento de suas partidas.

E pior: aumentou o risco de contágio dentro do elenco. O time maranhense, por exemplo, enfrentou uma longa viagem (de ônibus e avião) do interior do Maranhão ao interior da Paraíba, e só descobriu que 12 de seus jogadores estavam infectados quatro horas antes da partida.

A risco semelhante foram submetidos os jogadores do Ypiranga (RS), que viajaram a Santa Catarina para enfrentar o Brusque pela Série C sem saber do resultado de seus testes. Horas antes do jogo, descobriram que cinco atletas estavam infectados. A partida aconteceu sem eles, mas com outros potencialmente contaminados.

O Goiás, depois de saber que dez de seus atletas têm covid, precisou pedir uma liminar na Justiça Desportiva para que a CBF concordasse em adiar o jogo contra o São Paulo. O time paulista chegou a ir ao gramado do estádio da Serrinha.

Jogadores - Heber Gomes/AGIF - Heber Gomes/AGIF
Jogadores do São Paulo aguardam Goiás em campo após casos de covid no time goiano
Imagem: Heber Gomes/AGIF

A confusão foi alvo de críticas públicas de alguns jogadores, os mais expostos à contaminação. A mais contundente partiu do zagueiro Breno Calixto, do Treze (PB), que enfrentaria o Imperatriz, pela Série C.

"Teve a semana inteira pra fazer os testes e no mínimo chegar os resultados na quarta ou quinta", escreveu ele no Twitter. "Você faz todo o protocolo, se tranca num hotel perde o Dia dos Pais e no final não tem jogo. E o pior, já pensou se nós jogamos contra os caras com 12 positivos? A merda que ia ser? Todo mundo infectado, e nossas famílias depois? Tnc [tomar no c*] Que desorganização no nosso país, é na política, é no futebol, é em todo lugar mesmo."

O UOL Esporte conversou com um jogador que testou positivo e foi afastado de seu jogo. Ele está sem sintomas, mas seu resultado só saiu horas antes da partida, depois de uma viagem interestadual. Sob a condição de não ser identificado, ele criticou o atraso na divulgação dos resultados.

Eles não estão dando conta de todos os resultados, que estão saindo muito em cima da hora. Se sair antes da viagem acredito que não teria tanta transmissão porque quem está positivado nem viaja. Mas saindo perto do jogo assim, nós acabamos ficando no hotel, na concentração, vamos pro jogo e acabamos infectando outros. Acho que a maioria dos outros jogadores pensa assim."

O protocolo da CBF prevê que os jogadores sejam testados 72h antes de cada partida e que aqueles com resultado positivo sejam afastados e postos em quarentena. Mas com a demora entre a coleta das amostras e o resultado, atletas compartilham ônibus, avião, quartos de hotel e vestiários, sem saber se têm o vírus ou não.

Pela Série C, o elenco do Vila Nova (GO) fez o exame, mas ele não ficou pronto antes da viagem para o Amazonas, onde a equipe enfrentou o Manaus anteontem. Só quando já estava na cidade, o clube soube que um de seus atletas está com covid. Ele foi afastado, mas o jogo aconteceu normalmente.

"Saber que tem jogador concentrado positividado pra covid às 05h [da manhã] faltando 14h pro jogo sem voo para Manaus é brincadeira... isso pq a testagem foi quarta cedo. Futebol deve estar vivendo num mundo surreal! Não se tem público, mas avião está lotado! Eita mundão da hipocrisia!", escreveu o presidente Hugo Jorge Bravo.

O episódio foi classificado como "uma falha grotesca" da CBF pelo presidente do rival Goiás, Marcelo Almeida.

"Lamentável planejamento da CBF", escreveu o atacante Mateus Fernandes, do Manaus. "E olha que estamos falando da entidade maior do nosso futebol. [Precisa de um] pouco mais de organização, pois não é um pênalti perdido ou um acesso que não veio, mas estamos falando de vidas em risco, que uma vez ceifada, não terá segunda chance."

Em nota, o Albert Einstein admitiu problemas com os exames em Goiânia, já que um laboratório parceiro na cidade teria falhado no acondicionamento das amostras.

O Corinthians avisou em nota que não submeterá seu elenco a testes no Einstein. No fim de julho, o hospital tinha admitido erros em exames feitos no Red Bull Bragantino, que enfrentaria os corintianos pelo Paulista.

Jorge Pagura, o médico da CBF, descartou a possibilidade de rever o acordo com o hospital e minimizou os "problemas logísticos" no primeiro fim de semana do Brasileiro.

"Os problemas de logísticas estão sendo resolvidos. Se você pegar a Copa do Nordeste, não teve nenhum problema no final. Só tivemos 20 positivos no início e, depois mais nada. Vamos aperfeiçoando. Estamos trocando o pneu com o carro andando. Está detectada essa questão de hoje. Estamos trabalhando direto, mas outros problemas devem surgir durante o campeonato, estamos falando de muitos jogos", afirmou.

Médico vê alto risco de transmissão na Série B

CSA e CRB se enfrentaram na final do Campeonato Alagoano na última quarta-feira. Na madrugada após o jogo, os jogadores fizeram exame, mas o resultado saiu apenas dois dias depois, na sexta, quando os times se preparavam para a estreia na Série B. Oito jogadores do CSA deram positivo e foram afastados. Os outros, que ficaram esses dois dias em contato com eles, enfrentaram o Guarani em Maceió.

E o CRB, que não teve nenhum positivo, viajou até Caxias do Sul para enfrentar o Juventude.

O epidemiologista Paulo Latufo, da USP, afirma que o ideal seria adiar as duas partidas pela Série B, dado o número alto de infectados após a final do Estadual. Essa, aliás, é a estratégia adotada pelos países que melhor controlam a epidemia: isolar infectados e todos os que tiveram contato com eles.

"Se os jogadores do CSA testaram positivo, mesmo de forma assintomática, podemos dizer sem dúvida que quem teve contato com eles está em risco", afirmou. "Esse é o maior problema das viagens dos clubes, é espalhar o vírus em aeroportos que têm grande circulação de pessoas. Mesmo os jogadores que não testaram positivo deveriam ter ficado em isolamento por serem considerados infectantes."

A reportagem entrou em contato com o presidente interino do Conselho Deliberativo do CSA, Valmá Peixoto, que explicou ter pedido o adiamento da partida contra o Guarani, mas a CBF teria negado. "Houve uma solicitação à CBF quando recebemos os resultados positivos, mas diante do protocolo a resposta foi negativa em razão de os clubes já estariem nos hotéis e pelos locais seguirem os protocolos sanitários estabelecidos", contou o presidente.

Federação de Alagoas faz jogo sem teste

Outro episódio ajuda a ilustrar o atropelo no retorno do futebol brasileiro no meio da pandemia. Em Alagoas, Murici e Asa jogaram ontem sem terem seus jogadores testados antes.

Sob responsabilidade da Federação Alagoana, o jogo aconteceu no estádio Rei Pelé, em Maceió, e valeu uma vaga na Copa do Brasil de 2021.

O UOL Esporte apurou que a falta de orçamento da federação e dos clubes, aliada à falta de tempo hábil, pode ter impossibilitado a realização dos testes nos jogadores de ambas as equipes.

A definição da data do confronto aconteceu apenas na sexta-feira (7). Os jogadores entraram em campo dois dias depois tendo feito o teste para covid pela última vez antes da semifinal do campeonato, que aconteceu no dia 3 de agosto.

Desde então, nenhum dos jogadores que entraram em campo ontem foi testada. A informação foi confirmada por um atleta que esteve presente em todos os jogos.

Procurado, o Murici informou que, apesar da federação desconhecer a realização de novos testes, eles foram feitos durante a semana. Após os testes, o elenco teria ficado concentrado para evitar contato com outras pessoas. O ASA também foi procurado, mas até a publicação desta reportagem não se pronunciou.

Em nota, a federação alagoana confirmou que os atletas foram testados apenas na retomada da competição:

O protocolo elaborado pela FAF contempla testagem sorológica para Covid-19 semanal nos clubes do Campeonato Alagoano além de medidas como aferição de temperatura, rastreio de sintomas e questionário epidemiológico. Todos os clubes foram testados ao menos duas vezes, a primeira vez no retorno aos treinamentos e pela segunda vez na semana da retomada dos jogos do Campeonato.

Convém ressaltar que todos os jogos foram realizados no intervalo de uma semana! Os profissionais que testaram positivo nesses testes estavam assintomáticos e passaram pelo período de isolamento até retomarem as atividades. Além disso, os clubes têm sido monitorados e acompanhados pelo Departamento Médico da FAF.

Mantendo o protocolo de testagem semanal, a Federação realizará ainda nesta semana uma nova testagem em ASA e Murici para a partida de volta da Seletiva da Copa do Brasil que ocorrerá no próximo domingo (16/08).

O Departamento Médico da FAF tem mantido contato estreito com os clubes e até o momento NÃO HÁ NENHUM JOGADOR OU FUNCIONÁRIO SINTOMÁTICO nas equipes de CRB, Murici e ASA.

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