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Patrick de Paula imitava pênalti de Neymar, e técnico ensinou a sentar o pé

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

09/08/2020 04h00

O jovem volante Patrick de Paula, de 20 anos, pode ter surpreendido os jornalistas e a torcida ao cobrar com segurança o pênalti que deu o título de campeão paulista ao Palmeiras ontem contra o Corinthians. Mas não surpreendeu um de seus primeiros treinadores, Carlos Felipe Zanata, do projeto social Cara Virada, no Rio de Janeiro.

"Quando o jogo foi para os pênaltis eu falei pra minha mulher que o Patrick ia bater o último", disse Zanata, que viu o jogo na zona oeste do Rio. "Eu sabia que ele não ia perder. Ele nunca perdeu um pênalti na vida, ia perder agora?" O treinador, que começou a trabalhar com Patrick quando ele tinha 13 anos e ainda era conhecido como "Pelezinho", lembrou de uma história curiosa sobre o garoto.

Ele nem sempre cobrou pênaltis com a seriedade e a maturidade demonstradas no Allianz Parque. Às vezes, influenciado pelos craques da televisão, entrava na moda. E essa moda não combinava com o estilo de Zanata, um treinador que se considera do tipo "raiz".

"Quando eu treinava ele, percebia que ele ia bater pênalti e ficava como uma mola, indo pra frente e voltando pra trás, igual o Neymar", conta o técnico, em referência à corrida errática que o atacante do PSG costuma dar antes de uma cobrança. "Eu falei pra ele: 'Por que você fica rebolando pra bater o pênalti? Entra na bola e senta o pé. Ele me ouviu. Sempre me ouviu."

A partir daí, segundo Zanata, Patrick passou a bater pênaltis com o estilo visto no Allianz: uma corrida constante, seguida de um chute forte e bem colocado, permitindo chance mínima de defesa ao goleiro.

Patrick - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Patrick de Paula no Cara Virada, do Rio
Imagem: Arquivo Pessoal

"Eu já achava que ele alçaria voos muitos maiores e tinha que aparar aquilo que podia prejudicá-lo. Imagina você ir pra bola e voltar, ir pra bola e voltar... você fica com os nervos à flor da pele."

Sua atuação foi um dos poucos destaques individuais do Palmeiras na final e premiou uma arrancada que começou nos campos de várzea do bairro suburbano de Santa Margarida, onde cerca de 300 meninos e meninas participam do projeto de Zanata. Com o apoio da comunidade, os organizadores oferecem uma oportunidade para as crianças "saírem das ruas". Raramente, um ou outro tem a chance de ser notado pelo olheiro de algum clube.

O sucesso de Patrick, que renovou contrato com o Palmeiras até 2024, já inspira as outras crianças da região. E até adolescentes mais velhos, para os quais a história é um sopro de esperança. Foi chamado pelo Palmeiras aos 17 anos, uma idade já considerada tardia para um jogador de várzea, sem experiência na base dos grandes.

"O Cara Virada sempre foi muito importante para o bairro, mas a história do Patrick deu uma visibilidade muito maior. Temos um antes e depois do Patrick. Nove entre dez crianças daqui agora usam a camisa do time, e os pais, que antes não acompanhavam os filhos nos treinos, hoje acham que todos podem ser o novo Patrick", conta Zanata.

Patrick pênalti - WILIAN OLIVEIRA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - WILIAN OLIVEIRA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Imagem: WILIAN OLIVEIRA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Da geração de Patrick em Santa Margarida, outros atletas poderiam ter vingado, mas acabaram se perdendo no meio do caminho. Por diversas circunstâncias, algumas delas ligadas à pobreza e às dificuldades da vida na periferia.

"Trabalhei bastante para estar aqui comemorando este título. Fazer o gol com o último pênalti, eu treinei a semana toda. Pude dar alegria para a torcida alviverde. Vai, Palmeiras!", afirmou o jogador após o título.

Curiosamente, o volante quase foi dispensado pelo Palmeiras em um episódio até hoje meio nebuloso.

Depois de brilhar na torneio Amador da Capital Sub-17 e na Taça das Favelas, ele e um amigo atacante foram chamados pelo Palmeiras. Ambos foram aprovados em uma peneira para o time sub-17. Como já estavam estourando a idade, seriam encaminhados ao sub-20.

O problema é que a equipe sub-20 logo saiu em viagem internacional para uma competição. Não se sabe exatamente o que aconteceu a partir daí. Mas uma das versões é que um treinador da base pediu para que os dois esperassem no alojamento mais alguns dias para novas avaliações. Outra é que eles foram dispensados.

Aos 17 anos, muito ligado a sua família e comunidade, eles decidiram arrumar as malas e voltar ao Rio. O Palmeiras não gostou, considerou o ato uma insubordinação e quis dispensá-los.

Patrick levou uma bronca do pessoal do Cara Virada. Seu amigo foi definitivamente desligado, mas o Palmeiras foi convencido a readmitir o volante.

Para sorte das duas partes, Patrick vingou.

"Ele sempre foi um líder e sempre soube exatamente o que queria. Treinava de corpo e alma e acreditou desde o início que aquilo podia mudar a vida dele", afirma Zanata.

Voa Patrick! Voa Cara Virada! Voa periferia! Hoje tivemos mais um pouquinho dessa alegria que o futebol é capaz de...

Publicado por Cara Virada em Sábado, 8 de agosto de 2020

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