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Fla-Flu: torcedores criticam transmissão de YouTube em final do Carioca

Flamengo e Fluminense se enfrentarão na final do Campeonato Carioca com transmissão em seus canais do YouTube - Reprodução/Twitter
Flamengo e Fluminense se enfrentarão na final do Campeonato Carioca com transmissão em seus canais do YouTube Imagem: Reprodução/Twitter

Caio Blois e Leo Burlá

Do UOL, no Rio de Janeiro

11/07/2020 14h00

Classificação e Jogos

Nenhum campeonato no Brasil sofreu mudanças tão drásticas e repentinas com a Medida Provisória 984 como o Campeonato Carioca. Do dia para a noite, muito em função do Flamengo não ter acordo de direitos de transmissão com a TV Globo, o Estadual do Rio passou a ter transmissões nos canais oficiais de clubes no YouTube.

Flamengo, Vasco e Fluminense fizeram lives para mostrar jogos importantes do Carioca. A final da Taça Rio, inclusive, fez o Tricolor bater recorde de acessos simultâneos em uma transmissão esportiva no YouTube no Brasil. Ainda assim, os torcedores ainda não se acostumaram com as mudanças, e fizeram críticas.

"Muito além do clubismo, as transmissões são tecnicamente ruins, tanto as equipes como as imagens. E não há jornalismo, o que particularmente não gosto", afirmou Bruno Maisonnette, 25, torcedor do Flamengo.

A transmissão da FluTV para a final da Taça Rio teve alguns problemas. O sinal não chegou a cair, mas as imagens nem sempre estiveram tão nítidas, o que não aconteceu em jogos do Fla, por exemplo. "A única que passou algo de qualidade foi a FlaTV, que tinha mais opções de câmeras, sinal limpo, áudio bom e ótimo narrador", opinou, elogiando Emerson Santos, que narrou jogos do Flamengo no canal oficial do clube no YouTube.

Outra crítica foi ao humor excessivo de algumas transmissões, principalmente a do Fla, que teve comentários de Alexandre Tavares, do "PopBola", programa esportivo e humorístico de rádio no Rio de Janeiro.

"É muita gracinha em uma situação que muitas vezes é tensa. Gosto muito do [Alexandre] Tavares, mas o ideal seria uma mesa redonda com essa pegada de humor, como o programa de rádio. Ao vivo, o time nem sempre está bem e quem gosta mesmo de futebol não quer saber de piada. Imagina na final do campeonato?", disse João Amorim, 40, também rubro-negro.

Além disso, a natural vibração e "parcialidade" das transmissões para seus clubes também incomoda os torcedores rivais. "Como a final seria na TV do Fluminense, já esperava que fosse uma narração feita para tricolores. Mas o narrador nem falava os nomes dos jogadores do Flamengo. A experiência como espectador, sendo rival, é péssima. E é um problema que não parece ter solução, já que todos, naturalmente, defenderão seus clubes em seus canais. Imagino que os tricolores também não vão gostar da transmissão rubro-negra da FlaTV, o que é normal", comentou Maisonnette.

"Por enquanto, estamos na "vantagem" (risos)", disse Sergio Alves, torcedor do Fluminense de 60 anos, para completar: "Mas imagina jogo decisivo com todos torcendo para o Flamengo contra o Fluminense? Vai ser ruim, claro para os tricolores. Mesmo que sejamos campeões e vibremos com os 'sorrisos amarelos' na transmissão da FlaTV, não terá a mesma graça. Fora que é difícil para conectar, depende de internet. Pode ser o futuro, mas não é o presente", opinou.

Estudos de maio de 2020 informam um em cada quatro brasileiros nem sequer tem acesso à internet. O número é ainda menor para a qualidade de serviços de banda larga necessários para uma transmissão por streaming.

"Não é nada inclusivo. Excluímos muita gente: famílias com índices socioeconômicos mais baixos, o interior do Brasil, pessoas mais velhas e também torcedores de outros times. Na TV aberta, alguém assiste um jogo 'se estiver passando', mas não vai procurar a partida no YouTube. Pode ser um complemento e me parece boa ideia para os clubes, mas a longo prazo. Por enquanto, é muito ruim", comenta Maria Rodrigues, de 21 anos, também tricolor.

Apesar das críticas, nas redes sociais, muitos torcedores elogiaram as iniciativas dos clubes e projetam ganhos financeiros com as transmissões. Os debates, ainda incipientes, mostram, principalmente, que faltou mais conversa antes da MP 984 e de seu desenrolar.

"Não fizemos pesquisas, não conversamos com pessoas e nem sequer fomos ouvidos", informou o dirigente de um clube da Série A, que não quis se identificar: "A ideia não é ruim, mas não era o momento, durante uma pandemia, para uma medida provisória sobre direitos de transmissão. Da forma que foi, pelos encontros que existiram entre dirigentes de clubes e o presidente [Jair Bolsonaro], parece que foi feita para apenas alguns. De todo jeito, nos parece sim que é o futuro e nos planejaremos o mais rápido possível", opinou.

E como a transmissão ficou menos inclusiva, tem gente ainda em dúvida sobre onde a final do Carioca irá passar.

"Não tem mais Globo?", perguntou Valdomiro Simões, 54, que guarda carros em Ipanema de camisa do Fluminense por baixo do uniforme, apesar de ser nascido no Ceará. Informado de que a final seria no YouTube, brincou: "E não podemos nem procurar um botequim, né? Vou ver se algum parente me ajuda a assistir ou vou ouvir no rádio, como antigamente".