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Sob ameaça do coronavírus, futebol volta na Rússia com torcida e escândalo

Leo Alvarez

Colaboração para o UOL, em Moscou (Rússia)

21/06/2020 17h41

Com mais de 580 mil casos e pouco mais de 8 mil morte, mas com a pandemia de coronavírus controlada segundo o governo, a Rússia retomou no fim de semana seu campeonato após três meses de pausa. E decidiu ir um passo além do que as principais ligas do continente, permitindo já a entrada de público nos estádios.

Claro que ainda há um limite para que as coisas não fujam de controle. Segundo as autoridades sanitárias, só está liberada a ocupação de até 10% da capacidade dos estádios. O UOL Esporte esteve presente num desses estádios para conferir quais os protocolos adotados e o ambiente nessa retomada do futebol.

Mas o que poderia ser motivo de festa para os torcedores mais fanáticos ou saudosos também foi de preocupação e polêmica. O coronavírus teve impacto direto na rodada, provocando adiamento de um jogo e influenciando em uma goleada de 10 a 1 em outro, que se tornou um vexame.

Isso já começou a levantar questionamentos na imprensa local sobre a continuidade ou não da liga e se agora as sete rodadas restantes serão disputadas. Por ora, a ordem é jogar até o fim.

Tentativa de máximo controle

Estádio do CSKA pós-pandemia - UOL - UOL
Assentos marcados de verde: CSKA tenta isolamento de torcedores em seu estádio
Imagem: UOL

A torcida do CSKA Moscou praticamente lotou sua VEB Arena, na capital russa. Quer, na medida do possível. Foram 2.904 espectadores presentes para o jogo contra o Zenit St. Petersburg neste sábado (20), na retomada da liga nacional. No estádio cabem 30.457 pessoas, para constar. Então chegaram perto dos 10% de capacidade permitidos. O UOL Esporte esteve presente.

Essa foi uma das raras experiências nos dias de hoje: poder acompanhar um jogo de futebol com torcida real —outros exemplos são Sérvia e Belarus. Neste último, a Liga nem parou.

De certa forma, o que os admiradores do CSKA sentiram no jogo pode servir como um reflexo dos torcedores do campeonato como um todo. Eles estavam lá, presentes, mas não quer dizer que tenham comemorado totalmente. Afinal, seu time foi massacrado por 4 a 0 pelo Zenit, com direito a dois gols do brasileiro Malcom, ex-Corinthians.

Nas ruas ao redor da VEB Arena, pouco movimento e quase nada de trânsito — clima bem estranho considerando que estamos falando de um clássico russo. Poucas pessoas caminhando e nenhum carro ou ônibus de São Petersburgo: visitantes estão proibidos neste momento.

O acesso foi apenas para sócios do CSKA com carnê para toda a temporada. Ainda assim, um sorteio teve de ser realizado para atender às limitações. No total, 2.904 espectadores acabaram privilegiados e puderam ver o time de coração ser goleado.

Para entrar no estádio, a temperatura foi medida. Qualquer um com 37 graus ou mais seria barrado. Além disso, o uso de máscaras e luvas foi obrigatório. Os torcedores apenas passaram por um detector de metal, sem uma revista manual para evitar qualquer aproximação.

Fotógrafos no campo também nem pensar, enquanto os câmeras da equipe oficial de transmissão são obrigados a fazer testes regulares.

Nas arquibancadas, também já se notava a diferença em relação ao período pré-pandemia. Lugares específicos foram marcados em verde para apontar onde se poderia sentar. Tudo mantendo ao menos dois metros de distância. Nada de aglomeração. Somente pessoas da mesma família foram permitidas para sentarem juntas.

"Sou sócio do CSKA e já estava sentindo falta do futebol. Se já podemos andar de metrô, os terraços dos restaurantes estão abertos, por quê não vir a um jogo? Estamos ao ar livre e com todas as medidas de segurança sendo tomadas", disse Vadim Ilichuk.

Em Moscou, o isolamento acabou no dia 9 e desde a última terça-feira (16), cafés e restaurantes podem servir os clientes em mesas na calçada.

Moscou durante a pandemia - Valery Sharifulin / TASS - Valery Sharifulin / TASS
Imagem: Valery Sharifulin / TASS

Mas voltando ao estádio. Todas as lanchonetes estavam fechadas para evitar ao máximo o risco de contágio. Nos corredores, garrafas de álcool em gel foram disponibilizadas para que pudesse ser feita a higienização.

Anúncios foram feitos constantemente nos alto-falantes lembrando aos torcedores para manter distância e que ficar sem máscaras e luvas poderia acarretar em multas e até a proibição de jogos futuros com público.

Ainda que com apenas 10% da capacidade, porém, já foi possível de fato sentir o clima de um jogo, sem aquele silêncio que tem sido a marca das transmissões de TV. Os torcedores organizados do CSKA cantaram durante os 90 minutos, apesar da derrota.

Mas a acachapante goleada sofrida pelo time moscovita em nada lembraria o grande vexame da rodada em campo.

Juvenis e um placar de 10 a 1

10 a 1 Sochi - Reprodução/Instagram @premierliga - Reprodução/Instagram @premierliga
Imagem: Reprodução/Instagram @premierliga

O escândalo da retomada se deu em Sochi, ainda na sexta-feira (19). A goleada de 10 a 1 do Sochi sobre o Rostov (a maior da história da Liga Russa) gerou muito mais motivos de lamentações do que de comemoração.

Isso porque o time visitante mandou a campo toda a garotada da base. Um elenco com média de 17,2 anos. Não teve outra alternativa após seis atletas da equipe principal testaram positivos para coronavírus, obrigando que os 42 integrantes do clube fossem colocados em quarentena, seguindo as determinações das autoridades sanitárias.

Mesmo pedindo e insistindo ao rival por um adiamento desde a quinta-feira, não foi atendido. Assim, não restou alternativa para evitar um W.O. que poderia ter outros impactos mais adiante. A atitude do Sochi foi condenada pelos torcedores e o termo "Vergonha" ficou nos trend topics do Twitter russo durante toda a noite de sexta-feira e no sábado.

Como reconhecimento pelo esforço e as 15 defesas feitas, sendo uma delas em um pênalti, o goleiro de 17 anos do Rostov Denis Popov ganhou o prêmio de melhor em campo em escolha da TV Local.

A federação e a direção da liga russa afirmaram que nada poderiam fazer uma vez que caberia apenas aos times entrarem em acordo sobre um adiamento para 19 de julho a única data disponível no calendário. De acordo com os órgãos, isso ficou acordado no regulamento formulado para a retomada da liga.

Dois times se acertaram e adiaram jogo. Motivo: coronavírus

Enquanto o Sochi foi irredutível, o Krasnodar já tomou outra postura e aceitou adiar seu jogo contra o Dínamo de Moscou que deveria ter acontecido no domingo para o dia 19 de julho.

Isso após no sábado três jogadores do time da capital terem resultado positivo para coronavírus nos testes obrigatórios antes de cada rodada.

O Dínamo sequer viajou para a partida e todo o elenco foi isolado em seu CT. O adiamento, porém, foi oficializado apenas seis horas antes do apito inicial.

Mistério até o fim

Outro jogo que esteve sob risco foi o do Ufa contra o Tambov, que terminou em 2 a 1 para os mandantes.

Segundo relatos da mídia local, Andres Vombergar, do Ufa, teria testado positivo para coronavírus. Isso poderia obrigar o time todo a ser colocado em quarentena.

O jogo acabou ocorrendo normalmente, mas Vombergar nem para o banco foi relacionado. O clube não explicou o motivo.

Pouco a pouco, a Rússia tenta se adaptar a uma nova realidade e já se fala que até o fim da temporada em 25 de julho, as arquibancadas poderão ter 30% de ocupação. Tudo, claro, dependendo de como evoluirá a situação epidemiológica. Isso, claro, se novos episódios de impacto como de Sochi ou algo até mais grave do ponto de vista de saúde pública não acontecerem, claro.

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