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René Simões enviou carta a Neymar após episódio do 'monstro': "agradeceu"

René Simões - Reprodução/Instagram
René Simões Imagem: Reprodução/Instagram

Marcello De Vico

Do UOL, em Santos (SP)

23/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • René Simões conta que mandou carta a Neymar após polêmica coletiva em 2010
  • "Eu explicava que não tinha absolutamente nada de pessoal com ele", diz
  • Segundo o técnico, Neymar chegou a agradecê-lo através de um assistente
  • René ainda destacou a importância que Leonardo pode ter na vida de Neymar

"Estamos criando um monstro". Quem não se recorda da polêmica frase dita por René Simões sobre Neymar há cerca de dez anos? Na época, o então técnico do Atlético-GO ficou inconformado após presenciar, da beira do campo, o atacante descumprir ordens e xingar Dorival Júnior, então treinador do Santos, durante jogo válido pelo Campeonato Brasileiro de 2010, na Vila Belmiro (recorde os gols mais abaixo).

Desde então, Neymar e René Simões nunca mais se encontraram. Em entrevista ao UOL Esporte, o técnico — que recentemente ficou duas semanas isolado em casa para se curar do novo coronavírus (veja mais abaixo) — conta que, apesar de eles não terem mais se cruzado, houve um contato entre ambos dias após a coletiva na Vila, em 15 de setembro de 2010.

"Nunca o encontrei. Até escrevi uma carta. Ele foi ao programa da Hebe Camargo, em que as mulheres entrevistavam os homens. Então, tinham várias mulheres o entrevistando, e uma disse: 'Neymar, foi dito que você estava se tornando um monstro', e a Hebe entrou e disse assim: 'É, Neymar, essas pessoas, a gente nem dá crédito pra ela...', e eu estava vendo, eu gostava da Hebe, e ele disse: 'Não, o professor é uma pessoa muito séria'", recorda René.

"Aí, eu sentei e escrevi uma carta pra ele e mandei, por um assistente meu. Eu sabia de todas as coisas que estavam acontecendo no Santos, e ele leu... Eu explicava que não tinha absolutamente nada de pessoal com ele, e o que eu tinha era uma observação e uma constatação como um profissional que está acostumado com jovens, e eu não queria que esse jovem talentoso como ele se perdesse. Ele leu e disse para o meu assistente: 'Agradece ao professor'. Nunca mais estive com ele", acrescenta o técnico.

'Leonardo é grande oportunidade na vida de Neymar'

Em setembro do ano passado, René Simões aproveitou o período que passou na França para assistir a alguns jogos de Neymar — um deles in loco, vitória por 1 a 0 do PSG sobre o Lyon com gol do brasileiro, pelo Campeonato Francês. E ficou impressionando com o futebol apresentado por ele.

Na opinião de René Simões, o 'não' de Leonardo — atual diretor esportivo do PSG — a uma eventual transferência de Neymar para retornar ao Barcelona pode ter feito bem ao jogador.

Leonardo, diretor do PSG - John Berry/Getty Images - John Berry/Getty Images
Imagem: John Berry/Getty Images

"Ele está indo muito bem agora, terminou essa fase jogando excepcionalmente. Eu estive com o Leonardo na França, e disse pra ele: 'Leo, acho você uma grande oportunidade na vida do Neymar, você é um cara equilibrado, um cara sério, e acho que você vai ajuda-lo muito', e deve estar ajudando, porque os últimos jogos ele jogou muito, comprou a ideia do time...", analisa.

"E agora, recebendo esse não [do PSG, pra ir para o Barcelona], tomara... E se tiver que ir para o Barcelona, vai ter que fazer esse sacrifício [reduzir salários em 70%]... Aí as coisas podem funcionar, porque ele nunca recebeu um não na vida, porque jogar, ninguém discute a qualidade do cara. Nessa viagem que eu fiz para a França, eu disse para o pessoal: 'como vocês dizem que não gosto do Neymar, o que não é verdade, eu só vou ter olhos pra ele'. Ele marcava, tá louco... Não dá pra marcar, não... Ele está jogando muito bem. Você o vê comprometido com o time, nas comemorações, é bem legal", acrescenta René.

LEIA OUTROS TRECHOS DA ENTREVISTA

UOL Esporte: Já está 100%? Passou quanto tempo isolado?

René Simões: Passei 15 dias isolado. Sim, 100%, já estou trabalhando, estou na Jumper, agência de assessoria e marketing digital [Jump]. E também tenho os restaurantes [seis, no Rio de Janeiro]. Mas estamos trabalhando só com delivery. Isso é 20% do faturamento.

Renê Simões e Jorge Jesus - Reprodução / Instagram - Reprodução / Instagram
Imagem: Reprodução / Instagram

UOL Esporte: Qual o maior desafio para vencer o coronavírus?

René Simões: Primeiro é a notícia, que você começa a passar mal. Comecei a tossir muito, dor no corpo, dor de cabeça tensa demais, febre, e aí você diz: 'Peguei'. A tosse era um negócio absurdo. Me testaram e me mandaram para casa. E eu disse: 'Aqui nesse quarto ninguém entra mais, vou morar sozinho'. Deitei, dormi, tossindo muito, e no dia seguinte, quando levantei, é a primeira decisão que tenho que tomar: 'Quem vai ganhar essa briga? Eu ou o vírus'? Tem que ser eu. Aí levantei com dificuldade, fui ao banheiro, voltei, sentei na minha poltrona e fiquei olhando pra minha cama: 'Que mensagem ela passa para mim toda bagunçada como tá'? Uma mensagem de que a vida está desorganizada lá fora e aqui dentro também'. Então, vou arrumar minha cama, botei tudo no lugar. Minha mulher deixou a comida no chão, peguei meu café, tomei e pensei: 'Agora tenho que criar uma rotina para conviver com isso aqui'.

E a primeira foi trabalho mental, aquele sudoku... Depois entrei no Whatsapp pra ver questões de trabalho, depois falei com amigos, e 'agora tenho que me informar sobre essa doença'. E passei a ver todos os canais. É absolutamente surpreendente a linha editorial de cada canal, não tem nada a ver uma coisa com a outra, um é A, outro é B, outro é C, e eu via todos os dias, todos, porque não queria que um determinasse o que eu ia pensar sobre o que.

Depois eu tinha uma bola e, quando começou a melhorar a dor no corpo, comecei a me exercitar bem de leve. Então, eu tinha alimentação muito boa, bebia muita água, fazia exercício físico, e faltava o trabalho espiritual, com as salas de oração com as minhas famílias, e passou a ser muito intenso, online. E quando chegava a noite eu ia para a televisão, aí vi futebol demais, vi Muhammad Ali, Mike Tyson, Jorge Foreman, foi um espetáculo. Vi grandes jogos de beisebol, que eu gosto, voleibol, Renan, Montanaro, Nalbert, nossos ídolos. O tempo foi passando e eu fui começando a cada dia ficar mais forte. No 11º dia, eu já estava torcendo para dar positivo, e foi o que deu. Mas aí só faltavam três dias... Foi quando peguei minha bola, fiz minhas embaixadas e disse para todo mundo que tinha testado positivo.

UOL Esporte: O maior desafio com o coronavírus é mental?

René Simões: Não tenha dúvida. Existe um ditado muito interessante: 'cuidado com o que você pensa, pode ser verdade'. O cérebro é controlado por você. Eu só pensava em coisa boa. 'Está tudo bem, estou saudável, aprendendo, estudando, escrevendo', e foi ótimo, foi um tempo muito bom. Mas é o mental. Imunidade é o estado de espírito. Como estou imunizado, eu faço parte do efeito rebanho. O vírus só vai acabar quando 70% da população pegar o vírus. Por isso eu me preocupo com esse retardamento, de trancar todo mundo. O que acontece? Quando soltar vai estourar todo mundo. Tem que ir soltando. Deixa pegar. Quem pode tem que pegar. Minhas filhas já pegaram. Depois que você pega, você é o imunizador. Você tem que ir pegando o vírus por aí e matando ele.

UOL Esporte: E futebol... Está com alguma coisa?

René Simões: Íamos fazer agora, início de maio, um reality de futebol. Eu, Joel Santana e a Glenda Kozlowski, no SBT. Seriam 22 jogadores, de 18 a 20 anos, eu com um time e Joel com outro. Agora parece que passou para outubro. E eu estava aguardando isso... Em setembro do ano passado eu fiz minha imersão, eu faço a cada sete anos, e essa foi na França, porque era campeã do mundo... Aí voltei com muitas coisas e pensei: 'Nesse reality vou colocar essas coisas todas', e se me sentir bem, de repente volto para o campo. A ideia era voltar agora, no segundo semestre. Estou com saudade já. Dirigente não, mas técnico sim. Eu sinto falta.

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