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Em fim de contrato, Mariano relembra sondagem do SP e quer voltar ao Brasil

Mariano em ação durante partida do Galatasaray - VI Images via Getty Images
Mariano em ação durante partida do Galatasaray Imagem: VI Images via Getty Images

João Henrique Marques

Colaboração para o UOL, em Paris

10/04/2020 04h00

Aos 33 anos, o lateral direito Mariano avalia que a passagem pelo futebol europeu está prestes a ser encerrada. Com contrato válido até o fim de junho com o Galatasaray, o defensor, campeão brasileiro pelo Fluminense em 2010, já elegeu a volta ao Brasil como prioridade na carreira. Em entrevista ao UOL Esporte, ele diz ter conversas para selar o retorno e espera por uma definição em breve.

"Meu plano é o de voltar ao Brasil. Eu realmente quero voltar, e minha família também, isso já é uma convicção nossa. Estou desfrutando do meu momento, tenho cinco assistências aqui [Galatasaray] nos últimos dez jogos, e isso é um ótimo momento para a fase final de contrato. Tenho nível físico para aguentar grandes jogos por mais quatro anos. Tive conversas com alguns clubes no Brasil e por questão de ética não vou falar quais. Deixei as portas abertas para quem quiser conversar comigo por estar em fase final de contrato", disse Mariano.

O ciclo no futebol europeu inclui passagens pelo Bordeaux e Sevilla. No clube espanhol, foi comparado a Daniel Alves e viveu o auge da carreira sendo convocado por Tite para jogos da seleção brasileira em 2017. No ano passado, quando já defendia o Galatasaray, o futebol brasileiro apareceu como perspectiva com uma sondagem do São Paulo.

"O Cuca foi meu treinador no Fluminense e gostava muito de mim. Quando ele foi treinar o São Paulo [fevereiro de 2019], me ligou perguntando se eu toparia ir, mas eu não tinha como sair do Galatasaray com mais um ano e meio de contrato", lembrou o lateral.

Confira a entrevista com Mariano

Confinamento na Turquia

Estamos evitando sair. Aqui foi a última grande liga a parar. Domingo [dia 29 de março] teria jogo e acabou não acontecendo por atitude dos jogadores. Istambul é uma cidade gigante, e a gente vê as ruas quase sem ninguém.

Não acompanho muito a TV turca por conta do idioma. A maioria das coisas vejo pela TV do Brasil, e eu sei que o governo turco segura muito dado com relação ao coronavírus. Eu fico sabendo mais por amigos turcos que falam português.

Cuidado físico

Por aqui não deram data de retorno. Pediram para ficar em casa e não viajar. Evitar aglomerações e tentar treinar em casa. Tem uma empresa de academia que emprestou para os jogadores esteiras, bicicletas, aparelhos de musculação. O clube passou treinos normais, e não deram data de retorno. Esse confinamento é comida atrás de comida. Tenho que tomar cuidado para não ficar gordo (risos). Estou treinando duro todos os dias. É um grande desafio manter a boa forma física.

Vida em Istambul

Istambul é uma cidade gigante com cerca de 15 milhões de habitantes e cheia de coisa legal para fazer. Tem passeios ótimos de barco, mesquitas bonitas para visitar, lojas de grife em ruas turísticas para quem estiver disposto a gastar um banco e restaurantes ótimos. Aqui é aberto para todas as culturas, e a deles é bem marcada, diferente.

Fanatismo turco

Torcida aqui é também é fanática. É até difícil de sair em lugares públicos, pois o assédio é muito grande. Tenho que ir de boné. Estou indo para meu terceiro ano aqui. Dois anos seguidos campeão da Liga, e eu ainda fico impressionado com o clima no estádio. Isso que comentei sobre ir de boné é verdade. Não tenho essa fama toda, e dependendo de onde você vai as pessoas reconhecem. Teve um dia em um centro comercial que fiquei horas para conseguir andar. As pessoas são alvoroçadas, repercutem, gritam ao estilo árabe, e me chamou bastante a atenção por esse amor pelo futebol. O dérbi [contra o Fenerbahçe] nós ganhamos fora [3 a 1, no dia 23 de fevereiro], e os torcedores colocam vídeos nas redes sociais, e você fica impressionado com as reações. O que rolou de vídeos dos torcedores foi uma barbaridade.

O Fluminense

É um clube que tenho carinho muito grande. Tenho história incrível por lá com a fuga do rebaixamento [Brasileiro de 2009] e depois o título em 2010. Fui muito feliz fui lá. Foi no Flu que cheguei na seleção em 2010. Se pintar algo do Fluminense, vamos sentar sim, e seria empolgante.

Foi um dos times mais legais da minha carreira. Clube vinha em crescente e com a chegada do Muricy [Ramalho], também veio o Deco. O Conca estava em grande momento, o Emerson também jogando muito, Washington. Lembro que na outra lateral tinha o Carlinhos voando também. Esse time do Fluminense foi uma grande vitrine e vital para eu chegar na Europa

Amizades no futebol

Aqui no Galatasaray dificulta um pouco a questão do idioma. Mas eu me dou bem com o elenco, temos um tradutor. O Marcão [zagueiro ex-Athletico Paranaense] e o Muslera (goleiro uruguaio) são meus melhores amigos aqui. E na carreira eu tenho muitos amigos. O William Bigode é gente boa demais, começou comigo no Guarani. Era uma turma boa na minha geração que saiu do Guarani: somos eu, William, Jonas, Dinelson, o Evandro Roncatto. Todos meus amigos.

Carreira na Europa

Cheguei no Bordeaux [2011] e foi muito diferente. Tinha muito jogador de velocidade e força, e o time trabalhava com muita bola longa. Vindo de um Flu que só bola no pé, um-dois, eu sofri bastante no começo. Com o tempo fui me adaptando ao esquema de jogo.

A ida para o Sevilla (2015) era algo que almejava. Bordeaux não tinha ambição, e eu tinha na cabeça sair para um clube e dar um passo maior. E me surgiu essa ida para o Sevilla, e fui sem pensar. Foi o auge da carreira. Cheguei lá, e com um ano de clube já estava jogando três, quatro finais. Final da Copa do Rei [2016] contra o Barcelona [vitória do Barça por 2 a 0], final da Liga Europa [2017] contra o Liverpool [Sevilla venceu por 3 a 1]. Cheguei a seleção novamente [2017] para disputar Eliminatórias, e para mim foi importante. Quando vim para o Galatasaray já era um dos mais experientes. E isso também foi uma etapa legal de vivenciar.

Recado de Sampaoli

Fiz a temporada inteira do Sampaoli no Sevilla [2016/2017]. Ele é maluco dentro de campo e no treinamento se transforma. Mas fora de campo ele é fantástico, um cara super do bem. Ele me deu muita moral. A primeira conversa comigo ele disse: "Você vê o Marcelo jogando? Eu amo aquele cara e o jeito que ele joga, o jeito que vocês brasileiros jogam. É com alegria, não tem a preocupação com a falha. Na hora que tem que driblar, dribla, e se precisar arriscar, também. Eu quero você assim, Mariano". Era um cara que a todo momento na beira do campo gritava: ataca, ataca e ataca. Foi inspirador ter um técnico assim.

Ganso no Sevilla

Antes de ele chegar, dei muitas entrevistas e disse que era um cara incrível. Joguei contra ele no Brasil quando ele era do Santos, e o nível técnico era uma coisa espetacular. No São Paulo também fez ótimos jogos. Eu dizia para todos aqui: Ganso é o cara. O Sampaoli que falava que queria ele de todos os jeitos, perguntava para mim o que eu achava também. Só que quando o Ganso chegou aqui, nós éramos um time muito intenso, e isso dificultou ele, que estava fisicamente debilitado, vindo de lesão. É difícil explicar o que aconteceu, pois ele encantou a torcida do Sevilla também. Lembro de um dos primeiros jogos dele que ele deu passe de calcanhar para um gol, e passava o lance a toda hora na TV. Eu tenho contato com o Ganso. Ele é super do bem, baita prazer que tive em jogar do lado dele. Espero ainda nos encontrarmos no futebol.

Comparação com Daniel Alves

Quando eu cheguei no Sevilla, muitos perguntavam sobre o Daniel Alves. Eu não disse que queria ser um novo Daniel, mas sim que queria somar. Ele é incrível, e eu vejo nele características de jogador brasileiro com velocidade, técnica, muito recurso. Bom passe, bom cruzamento. Agora eu tenho acompanhado também ele jogando no São Paulo como 10, um meia. É muito legal de ver. É um orgulho gigantesco ser comparado com ele. Um dos jogadores que mais me impressionou.

Melhores treinadores

Carinho especial pelo Donizetti, treinador da base do Guarani. Me ajudou demais. Quando fiz besteiras, ele soube conversar e me orientar. É um cara incrível, conhece muito de futebol e buscou para o Guarani o Jonas, William Bigode, Dinelson, Elano, Renato, Edu Dracena... até o Neto que é comentarista atualmente.

Outro que me marcou muito foi Cuca em 2009. Ele me deu a oportunidade de ser titular do Flu. Pediu para eu ficar em um momento que eu queria sair, e isso foi o que mudou o rumo da minha carreira. O Cuca quando foi treinar o São Paulo [fevereiro de 2019] me ligou perguntando se eu toparia ir, mas eu não tinha como sair do Galatasaray, com mais um ano e meio de contrato.

Falar de treinador, também preciso lembrar do Muricy. Ele me disse que se tivesse ido para a seleção, eu seria convocado. Um cara muito bacana, especial.

Melhores jogadores ao lado

Cara, eu joguei com tanto craque. Mas olha, posso dizer que o que mais me impressionou foi o Deco. Era uma coisa de louco. E se ainda tenho que escolher um segundo vou colocar o Conca. Esse baixinho com a bola no pé era impossível de tirar. São os dois melhores que já dividi treinamentos.

Melhor jogador que já enfrentou

Caramba, foi o Neymar. Eu peguei ele voando no Barcelona. Você não sabe se ele vai pelo meio, esquerda, direita. Foi o mais chato que já marquei. Agora eu acho que ele mudou o estilo: joga mais com a bola no pé. No Barcelona era impossível de marcar ele pelo lado de campo e ainda tinha aquela sede de mostrar para o mundo quem ele era.

Eu não tenho amizade com ele, mas ele conversa comigo quando me vê. Foi assim na seleção. O Neymar fez algo comigo que eu nunca esqueci: quando eu estava no banco do Sevilla em um jogo contra o Barcelona, nós nem nos conhecíamos, e ele veio me cumprimentar. Eu fiquei bobo. Poxa, o cara veio até aqui e me deu essa moral (risos). Realmente é um cara muito humilde como todos dizem no futebol.

São Paulo