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Aos 85, historiador precisou vender camisa de Pelé para manter museu

Camisa que Pelé usou na inaguração de estádio que leva seu nome, contra a seleção alagoana em 1970 - Acervo pessoal
Camisa que Pelé usou na inaguração de estádio que leva seu nome, contra a seleção alagoana em 1970 Imagem: Acervo pessoal

Bruno Fernandes e Josué Seixas

Colaboração para o UOL, em Maceió (Alagoas)

31/03/2020 04h00

Era uma tarde de passeio em 2007. Naquele dia, há 13 anos, um garoto entrara pela primeira vez no Museu do Esporte de Alagoas, que fica dentro do Estádio Rei Pelé. Esse é o único e maior acervo sobre futebol no Estado, com mais de 10 mil itens. Lá dentro, esse mesmo garoto conheceu um senhor chamado Lauthenay Perdigão.

Jornalista, Lauthenay é responsável por manter sozinho a sala em que guarda alguns dos objetos mais importantes do futebol brasileiro há 27 anos. Ao ouvir as histórias contadas, principalmente sobre o alagoano Dida, homenageado com o nome do museu e segundo maior artilheiro do Flamengo, aquele menino decidiu que se tornaria jornalista e que hoje é um dos que repórteres que escreve essa matéria.

Lauthenay nunca escondeu, por exemplo, as dificuldades que passou para manter o museu já visitado por Zagallo, Nilton Santos, Valdir Espinosa e o próprio Pelé. Ele teve de colocar dinheiro do próprio bolso para a manutenção das instalações e até vendeu uma camisa do Rei do Futebol utilizada na Copa do Mundo de 1958 — um presente de Dida, também campeão na Suécia, a Lauthenay.

É raro, em Alagoas, encontrar alguém que não conheça Lauthenay, considerado o mais importante jornalista esportivo do Estado porque, além do museu, também promoveu projetos esportivos e campeonatos de futebol voltados para mudança da realidade por meio do esporte durante décadas. Aos 85 anos, 'Seu Lau' construiu uma história de lutas e glórias reais, paixão pela bola desde a juventude, quando jogava peladas e até foi campeão juvenil pelo seu clube do coração, o CSA.

Tudo começou nos anos 40, quando Lauthenay foi ao mercado a pedido do pai. Na mercearia, viu um homem arrancando as páginas de uma revista para embrulhar alimentos. Quase como se tivesse presenciado um crime, Lauthenay resolveu salvar aquela edição da Sport Ilustrado, carioca, e começou a colecioná-la. Não pararia mais.

Profissionalmente, Lauthenay teve de se desdobrar nas horas do dia para fazer render todos os seus planos. Foi bancário de carreira durante 34 anos, sempre trabalhando no segundo horário. Pela manhã, pesquisava; entre lanches, saía para acompanhar alguma história. Tinha a amizade dos chefes para isso. No último horário, ainda dava conta do trabalho como radialista. Tudo isso com apoio da esposa, Maria Augusta.

Daquele amor, nasceram filhas e netos. Do amor ao futebol, teve de se materializar o Museu do Esporte. O quarto que mantinha em casa com faixas, fotografias, camisas, livros, anotações, jornais e mais materiais tornara-se pequeno para o acervo. Para se ter uma ideia do conteúdo, é preciso contar que Lauthenay fotografava quinzenalmente a construção do Estádio Rei Pelé, entre os anos 1960 e 70.

Lauthenay Perdigão na construção do Trapichão, em Maceió, em 1969 - Acervo Museu dos Esportes
Lauthenay Perdigão na construção do Trapichão, em Maceió, em 1969
Imagem: Acervo Museu dos Esportes

Dali teve de seguir procurando salas e só encontrou o espaço, que mantém até hoje, em 1993, cedido pelo Governo de Alagoas. Em entrevistas, Lauthenay até brinca: ele não recebe para fazer o trabalho, mas também não paga pelo espaço. Um dos objetos que guarda com carinho, é a camisa de Pelé, presente dado a ele pelo próprio após a inauguração do Estádio na partida entre Santos e Seleção Alagoana, em 1970.

Único arrependimento veio em 2004

Com infiltrações nas paredes, o Museu do Esporte poderia não continuar. Era difícil manter o acervo e havia grande medo de que os materiais fossem perdidos. Lauthenay precisava de uma solução, porque o dinheiro que tinha não seria suficiente para custear todo o processo. Investira a vida ali. O jornalista procurou as autoridades do Estado, que prometeram ajudá-lo, mas ninguém chegou junto.

Pensou, pensou, pensou e teve a solução — teria de leiloar a camisa de Pelé da Copa de 1958. Foi leiloada na Inglaterra e tudo indicava que os custos da manutenção seriam sanados com tranquilidade. O problema é que não compensou. "Só ficaram R$ 52 mil para a manutenção do museu", lamentou Lauthenay. Da camisa, então, resta somente a foto pendurada na parede.

Apesar do baixo valor, o jornalista contou com um pouco de sorte. O dia não era um dos mais promissores e a concorrência era grande naquele tarde. No mesmo leilão, uma camisa de Zagallo também foi colocada à venda por outro colecionador, com valor estimado entre 10 mil libras e 15 mil libras e um par de chuteiras avaliado entre 3 mil libras e 5 mil libras; apesar do valor histórico, os itens não atingiram o preço mínimo e nada foi vendido.

Lauthenay teve biografia lançada em 2019

Um quixote do esporte nacional. É assim que é chamada a biografia de Lauthenay Perdigão, escrita pelos jornalistas Mário Lima e Wellington Santos e que descreve várias histórias do historiador.

Era 1943 e, para ir ao banheiro, era necessário que o estudante pegasse uma pedra na mesa do professor e saísse da sala. Lau gostava de fazer isso várias vezes ao dia e às vezes não voltava para a aula. Se perdia nos corredores da escola porque tinha aprendido a gostar de futebol.

E, ao aprender a gostar de futebol, via no pequeno Dida alguém capaz de fazer maravilhas com a bola. Tinham só 9 anos. Enquanto Lauthenay ainda não entrava em campo, o menino que também se tornaria ídolo de Zico no Flamengo já indicava talento. Tornaram-se amigos ao longo dos anos e até jogaram juntos no CSA.

O museu, conta o livro, poderia nem existir hoje. Em 1949, uma enchente acometeu Maceió e muitas casas vizinhas à de Lauthenay e sua família foram destruídas, inclusive a dele, assim como pontes. Na época, 19 pessoas morreram, mas ele conseguiu escapar, salvando alguns itens, e seguiu com sua história. Aquele dia foi classificado como um dos dias mais tristes da sua vida.

Jornalista não quer parar de contar histórias

Aos 85 anos, Lauthenay não consegue ficar longe do museu. Apesar da idade, mantém o espaço aberto sempre no primeiro horário. Há alguns anos, depois de um problema no coração, é levado pelas filhas ou pelas netas para o trabalho. Ao atender a ligação da reportagem na última quinta-feira (26), após um período em que passou hospitalizado, o jornalista garantiu que já quer voltar às atividades.

"Se a gente vai ficando idoso e se acomoda, perdemos de acompanhar o ritmo da vida. Isso não pode acontecer. Eu tenho que ir ao museu. Sempre tem que ter alguém lá e ele tem que ficar aberto", disse.

Mesmo em casa com a família, em período de repouso após a internação, Lauthenay não parou de pesquisar. Agora, separa informações sobre o alagoano Dida, aquele que foi seu amigo e nomeia o Museu do Esporte de Alagoas, para escrever mais um livro em parceria com o jornalista Mário Lima, um dos responsáveis pela sua biografia.

Agora, o Seu Lau só quer ficar bom. E, se você quiser alguma informação, está bem pertinho: é só ligar para ele.

Santos