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Torcedores improvisam equipamento de obra para ver jogo do Caxias

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Marcello De Vico

Do UOL, em Santos (SP)

16/03/2020 16h05

Resumo da notícia

  • Torcedores do Caxias viram jogo de ontem de cima de um guindaste
  • Caxias venceu o Novo Hamburgo por 2 a 1 no estádio Centenário
  • Ideia surgiu de um torcedor turco que fez o mesmo na Europa
  • "Isso mostra que nunca vai ser só futebol", diz o torcedor Alemão
Classificação e Jogos

Um grupo de torcedores do Caxias alugou uma plataforma elevatória, normalmente usada na construção civil, para poder assistir ao jogo de ontem (15), contra o Novo Hamburgo, no estádio Centenário. A ideia foi uma maneira de driblar a determinação da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), que realizou os jogos dessa terceira rodada do segundo turno do Gauchão com portões fechados - por conta do Coronavírus.

Tudo deu certo, do placar do jogo (2 a 1 para o Caxias) à inédita experiência de acompanhar a partida de um guindaste - ideia que surgiu depois de um turco fazer o mesmo na Europa.

"Um cara fez isso na Turquia há 10 anos. E eu vivo de torcida faz uns 20 anos, e vou ouvindo as histórias, né? Aí esse turco fez e eu resolvi copiar, e deu certo. Foi muito massa. Isso mostra que nunca vai ser só futebol, né? Sempre tem uma paixão, um amor, um sentimento por trás. Ao invés de cenas lamentáveis, se o torcedor ocupasse a cabeça com coisas boas, que não faz mal para ninguém...", conta Guilherme da Silva Camelo, o Alemão, em entrevista ao UOL Esporte.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Ex-presidente da torcida organizada Falange Grená, Alemão, de 29 anos, alugou o guindaste dizendo que faria um serviço de lavagem da fachada de uma casa. Mas a ideia de assistir à partida lá do alto já estava na cabeça, e teve a ajuda de um ex-tenente com experiência em trabalhos na altura.

"Eu loquei esse equipamento para fazer um serviço. Liguei para os caras e falei que ia lavar a fachada de uma casa. Eu tenho curso de NR-35 para trabalho em altura, já trabalhei com isso. E junto com a gente estava um cara da torcida do Caxias, o Chico, que é tenente aposentado dos bombeiros, então ele estava supervisionando a 'obra'", acrescenta Alemão.

"Ficamos rodando pelo pátio do estádio, erguendo todo mundo para cima, enchemos a cara, mas foi tudo com segurança. A gente tinha toda essa estrutura de segurança caso alguém nos barrasse. Mas foi tudo estudado. Cheguei na hora certa, coloquei uma lona para ninguém ver e só ergui mesmo quando estava começando o jogo, pra não ter nenhum problema com a polícia, já que estávamos em via pública. Mas estava tudo sinalizado, dentro das normas", garante.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Segundo Alemão, houve uma conversa com a Polícia antes da partida para que o plano pudesse ser executado.

"Como estávamos na periferia, os caras [fiscais de trânsito] têm medo de ir ali. Nós trocamos uma ideia com a Brigada [Militar] antes de subir, mas o cara que estava com a gente é aposentado dos bombeiros, e todo mundo o conhece, então nem questionaram. Se fosse eu sozinho, não dava certo. O que salvou a gente foi o Chico, que sempre viaja comigo, e conhecia todos os caras da Brigada. Ele é tenente, né? Os caras confiam nele. Só que ele estava mais louco que eu", brinca.

A Brigada Militar de Caxias do Sul, por sua vez, diz que não houve nenhuma negociação com os torcedores para a autorização da utilização da plataforma. "Até porque, em tese, tal medida não seria de responsabilidade da corporação", diz trecho de nota solicitada pela reportagem - leia o texto completo ao fim da matéria.

Depois que a bola rolou, Alemão e alguns amigos se revezaram para subir e assistir ao confronto no estádio Centenário: "Cinco pessoas assistiram ao jogo lá em cima. Mas eu subia e descia, trocava de pessoa, teve gente que subiu e ficou com medo e desceu, aí era o tempo de trocar o cinto. Mas foi muito massa".

Com mais de 20 anos frequentando estádios de todo país, Alemão experimentou algo quase inédito, e não quer parar por aí. Enquanto os jogos continuarem com portões fechados, ele quer dar algum jeito de assistir ao time de coração. Quem sabe um helicóptero para o clássico entre Caxias e Juventude - pela próxima rodada do Estadual que, a princípio, está suspenso por 15 dias.

"Foi uma sensação bem diferente. Já viajei o Brasil todo atrás do Caxias, fui pra todos Estados do Brasil. Teve ano que eu ia em todos os jogos. Esse ano e no passado eu fui em todos, dentro e fora de casa. Mas num equipamento assim é a primeira vez, mas não pode ser a última. Já estava pensando num helicóptero para o Caju, nosso clássico aqui, mas agora parece que o campeonato parou por 15 dias, né? Então temos 15 dias para bolar a próxima", brincou.

Campeão do primeiro turno do Gauchão, o Caxias é o vice-líder do grupo B com sete pontos em três jogos, atrás apenas do Grêmio - que soma nove.

Nota oficial da Brigada Militar

Como de rotina, efetivos da Brigada Militar, do 12º Batalhão de Polícia Militar (12º BPM) de Caxias do Sul, foram mobilizados para o policiamento durante o jogo entre Caxias e Novo Hamburgo. Ao chegar no Estádio Centenário, as guarnições visualizaram um grupo de torcedores reunidos em torno de um caminhão, que informaram apenas a intenção de permanecer no local durante a partida. Entre os torcedores, havia um oficial da reserva do Corpo de Bombeiros Militar, o qual foi apenas cumprimentado pelos colegas da ativa, mas não houve qualquer tratativa em relação a utilização de um guindaste. O caminhão estava corretamente estacionado na lateral da Rua Cristóforo Randon, nos fundos do estádio, e não havia nenhum guindaste erguido nem foi mencionada essa possibilidade. De forma que, em princípio, não caberia à BM qualquer intervenção.

Como a partida transcorreu com portões fechados, apenas uma pequena parte do efetivo permaneceu no interior do estádio, dentro da casamata, para realizar a proteção da arbitragem. A partir do local, não seria possível visualizar o guindaste. O restante do efetivo foi deslocado para acompanhar a manifestação de apoiadores do governo federal, na região central, portanto, também não visualizou a situação ao lado de fora do estádio.

Ressalta-se que não houve qualquer autorização por parte da Brigada Militar para a utilização do equipamento, até porque, em tese, tal medida não seria de responsabilidade da corporação.

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