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Como pandemia de coronavírus afeta caso de Ronaldinho e Assis no Paraguai

Ricardo Perrone

Do UOL, em Assunção (PAR)

16/03/2020 04h00

O centro de Assunção, capital do Paraguai, lembrava uma cidade fantasma na tarde de ontem (15). Ruas vazias, parques fechados, motoristas de táxi em sono profundo à espera por passageiros que nunca chegam e muitos restaurantes fechados. O medo do avanço do novo coronavírus e as medidas duras impostas pelo governo para tentar combater o problema provocam reflexos em todos os setores da cidade. Assim, a prisão em que estão Ronaldinho e Assis, seu irmão, também foi afetada.

De maneira geral, o caso envolvendo os dois ex-jogadores sofre as consequências do pavor que o vírus causa. Sobrou até para os fãs do ex-jogador do Barcelona que pretendiam vê-lo no quartel adaptado para ser uma penitenciária.

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Rua do centro de Assunção, no Paraguai, vazia na tarde de ontem
Imagem: Ricardo Perrone/UOL

Plaza - Ricardo Perrone/UOL - Ricardo Perrone/UOL
Plaza Italia, fechada como parte das medidas de combate ao novo coronavirus
Imagem: Ricardo Perrone/UOL

Em entrevista ao UOL Esporte, Blas Vera, administrador da "Agrupación Especializada de la Policia Nacional", afirmou que seria obrigado a interromper um ritual iniciado com a chegada do astro, preso preventivamente sob a acusação de portar e usar documentos públicos paraguaios falsos.

Ele se referia à colher de chá que dava para garotos fãs do brasileiro que compareciam ao local na esperança de voltar para casa com um autógrafo e uma selfie tirada ao lado do ídolo.

"Sempre tem os meninos querendo entrar. Quando forma um grupinho, eu costumo deixar. Ronaldinho gosta de recebê-los. Mas agora, por causa das medidas de combate ao coronavírus, não vamos mais poder fazer isso". O estafe do ex-jogador diz que já o viu cercado por aproximadamente dez garotos na cadeia.

Na manhã de ontem, a reportagem notou oito pessoas, entre crianças e adultos, tentando entrar na cadeia para conseguir autógrafos de Ronaldinho. Entre eles, havia gente que tinha parentes e amigos na cadeia, mas, mesmo assim, encontrava dificuldades para entrar.

Identificar essa turma é fácil. Uma camisa da seleção brasileira, do Barcelona ou de outro time e uma caneta na mão fazem parte do kit básico dos que tentam realizar o sonho de conhecer o ídolo.

Enquanto a reportagem esteve lá, nenhum deles havia conseguido ingressar no local.

Além de afirmar que seria obrigado a acabar com o "Ronaldinho tour", o administrador do presídio revelou no sábado que naquele dia começavam a valer novas medidas para os visitantes, seguindo determinação do governo.

Antes não havia limite no número de visitantes que cada preso poderia receber nos dias de visitação. Agora, porém, cada um só pode receber uma visita por dia liberado.

A medida afeta diretamente Ronaldinho, que conta com pelo menos dois amigos para visitá-lo diariamente. No entanto, o número costuma ser maior.

Além das restrições provocadas pelo combate ao novo coronavírus, o ex-jogador deixa de ter o benefício de poder ser visitado todos os dias. Isso porque já completou uma semana na cadeia, assim como Assis. Ambos foram presos preventivamente na sexta-feira retrasada.

"Para facilitar a adaptação, nós deixamos novos presos receberem visitas diariamente na primeira semana. Ronaldinho já completou uma semana, agora só poderá ser visitado às quartas, sábados e domingos", disse o administrador da prisão.

Como mostrou o UOL Esporte desde o último sábado, quem entra na prisão como visitante precisa passar por uma checagem médica, ter a temperatura medida e responder a algumas perguntas. Se tiver algum sintoma ligado ao novo coronavírus, não pode entrar.

Documento desinfetado

Fora do presídio, os efeitos do coronavírus são sentidos nos órgãos que tratam do caso.

Ministério Público e Justiça atuam de maneira emergencial dentro do prazo de 15 dias de validade do plano estabelecido pelo governo paraguaio.

Por isso, a defesa de Ronaldinho e Assis não pode apresentar determinados recursos nesse período. Os advogados ainda aguardam a definição de uma apelação que ainda não foi julgada.

Ir até a sede de um órgão público é a melhor maneira de entender como a tentativa governamental de conter o avanço do vírus influencia na rotina daqueles que trabalham no caso Ronaldinho.

No Departamento de Imigrações, a reportagem esperava na sala do setor de comunicação por uma entrevista com a diretora do órgão, María de los Ángeles Arriola Ramírez, quando foi surpreendida por um jato de spray que passou por perto.

A simpática secretária explicou que estava cumprindo o protocolo de combate ao novo coronavírus.

Na verdade, ela desinfetava com uma lata de spray todos os documentos que recebia antes de tocá-los.

Em seguida, assessora de imprensa chegou explicando que não poderia cumprimentar o repórter. "Protocolo", disse.

Já a diretora do departamento recebeu a reportagem com um aperto de mãos. Ao ser indagada sobre o tal protocolo, ela respondeu enquanto esfregava as mãos com álcool em gel: "Aqui fazemos assim. Pronto, problema resolvido".

Por sua vez, a assessora de imprensa do Ministério do Interior protagonizou uma cena engraçada. Ela cumprimentou a reportagem protegendo a mão com seu paletó e dando um toque com antebraço: "Protocolo", justificou, claro.

Onde está todo mundo?

Uma caminhada no centro da cidade ontem em busca de um restaurante aberto era capaz de dar uma boa noção de como os moradores de Assunção estão dando ouvidos aos governantes, que pedem para eles evitarem sair de casa.

As ruas e os poucos restaurantes funcionando estavam vazios. Em um deles, apenas uma mesa estava ocupada. Mas isso não significa que o trabalho era pequeno. O ritmo era acelerado na entrega de refeições para viagem. A maioria dos restaurantes que funcionam trabalha mais com pedidos de clientes que vão buscar marmitas ou com delivery.

O Bolsi, conhecido restaurante na região central de Assunção, só permaneceu aberto, segundo um dos garçons, porque o dono convenceu as autoridades de que diminuindo o número de mesas e aumentando o espaço entre elas o risco de o vírus se espalhar seria reduzido. Bastava entrar no local para notar o efeito do novo coronavírus. Nas mesas, em vez de temperos, havia um recipiente com álcool em gel.

Bolsi - Ricardo Perrone/UOL - Ricardo Perrone/UOL
Restaurante Bolsi com mesas afastadas para manter clientes distantes
Imagem: Ricardo Perrone/UOL

As medidas rigorosas foram anunciadas pelo governo paraguaio na última terça-feira. Elas incluem veto a aulas e eventos com grande concentração de público, entre outras restrições. Jogos de futebol só podem acontecer com portões fechados.

Quando a investida contra o vírus foi lançada, o Paraguai contabilizava cinco casos, dois a menos do que a quantidade registrada até o início da noite de ontem.

Antes de o governo aumentar seu arsenal contra o vírus, já era possível notar grande preocupação com o problema no país. Passageiros de voos internacionais tinham a temperatura medida antes de irem para áreas comuns do aeroporto de Assunção. Nos hotéis, já havia álcool em gel à disposição. Nas rádios, eram tantas dicas sobre como se prevenir que até dava para desconfiar de algumas delas. Boa parte da população de Assunção demonstra saber como se cuidar.

Com tantos estabelecimentos fechados e gente trancada em casa, outra questão começa a perturbar moradores da cidade. O sentimento é bem resumido pelas palavras de uma senhora que estava perto do portão de entrada da prisão em que Ronaldinho se encontra. "Falam para a gente ficar em casa, é mais seguro. Mas se a gente não trabalhar, como vai ter dinheiro comprar comida?", questionou.

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