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Por que RB Leipzig pode ser considerado "o mais inglês" dos times alemães

REUTERS/Matthias Rietschel
Imagem: REUTERS/Matthias Rietschel

Arthur Sandes

Do UOL, em São Paulo

19/02/2020 04h00

Classificação e Jogos

Não é exagero dizer que o RB Leipzig é o clube que mais incomoda na Alemanha. É a filial mais forte da Red Bull, vive sucesso meteórico com o investimento da empresa e até driblou regras do país para incluir o "RB" em seu nome. É o mais afiado representante do futebol financeiro e, neste sentido, é o mais inglês dos clubes alemães.

O RB Leipzig enfrenta um clube inglês pela primeira vez em sua história às 17 horas (de Brasília) de hoje, quando visita o Tottenham em Londres. O duelo vale pelas oitavas de final da Liga dos Campeões da Europa e representa para o time alemão uma viagem ao país que é a sua cara.

Fundado em 2009, o clube nasceu como plataforma de marketing para a Red Bull mostrar sua marca no maior mercado esportivo do mundo, o futebol europeu. Apenas dez anos depois, frequenta a Liga dos Campeões, dá trabalho no Campeonato Alemão e faz fortunas revendendo os jovens jogadores que garimpa mundo afora. São sinais claros de sucesso, mas em um país que encarou tal estratégia primeiro com estranheza e depois com desaprovação.

O Leipzig é alvo de protestos quase semanais quando joga no Campeonato Alemão. São comuns as críticas ao modelo de negócios e a recusa, por parte de clubes adversários, de mostrar o logotipo da empresa de energéticos — em telões ou nos informativos do jogo. O posicionamento é público, como o chefe de operações do Eintracht Frankfurt deixou claro em entrevista recente. "Nós preferiríamos nossos piores inimigos", disse.

É um tipo de resistência que pouco aparece na Premier League, cujas regras permitem que qualquer milionário compre um clube e basicamente faça o que quiser com ele. O Arsenal, por exemplo, tem muito dinheiro em caixa mas o dono Stan Kroenke não quer gastar; enquanto o Manchester United é administrado com pouca ambição esportiva (e muita financeira) pela família Glazer.

Na Alemanha, onde o negócio do futebol tinha mudado pouco em comparação aos demais países europeus, o Leipzig driblou regras deliberadamente restritivas aos oligarcas do futebol. A Federação Alemã exige, por exemplo, que associados dividam ao menos 51% das ações dos clubes, com poucas exceções apenas por respeito à história de alguns times. A Red Bull driblou esta regra emitindo poucas ações no Leipzig, comprando 49% delas e colocando preços exorbitantes no restante.

A empresa também contornou proibições quanto ao nome Red Bull e à marca, fazendo alterações mínimas para se adequar às regras. Na prática, a empresa subjuga as regras da Federação Alemã e impõe seus interesses mercadológicos, vencendo batalhas que no futebol inglês (bem mais permissivo) nunca precisaram ser travadas.

Tottenham tem donos há 120 anos

O clube inglês virou companhia limitada ainda em 1898, e em alguns anos o controle já era dividido por algumas poucas famílias. Ao longo de quadro décadas, até 1984, todos os presidentes do Tottenham ostentavam sobrenome Wale, Richardson ou Bearman.

Foi justamente na década de 1980 que o clube, endividado, passou a ser controlado por uma única pessoa: Irving Scholar, que colocou o Tottenham na Bolsa de Valores de Londres e fez do clube a primeira instituição esportiva a entrar no mercado de ações. O time mudou de mãos um par de vezes e passou a ser controlado pela ENIC International Limited, que é registrada nas Bahamas e subsidiária do ENIC Group, um fundo de investimento britânico.