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Hoje sob tensão e ataques, EUA e Irã fizeram 'jogo da paz' em Copa do Mundo

Jogadores americanos e iranianos posam juntos para foto antes do "jogo da paz" no Mundial de 1998 - Juca Varella/Folha Imagem
Jogadores americanos e iranianos posam juntos para foto antes do "jogo da paz" no Mundial de 1998 Imagem: Juca Varella/Folha Imagem

José Edgar de Matos

Do UOL, em São Paulo (SP)

08/01/2020 04h00

Estados Unidos e Irã reacenderam o caráter de inimigos nas últimas semanas. Primeiro, Donald Trump ordenou um ataque que terminou com o assassinato do general Qasem Soleimani. Na noite de ontem (7), um ataque iraniano atingiu bases americanas no Iraque. Diante de toda a tensão de décadas, os dois países promoveram a paz em um campo de futebol, mais precisamente na Copa do Mundo de 1998, na França.

As duas nações foram sorteados para o mesmo grupo e imediatamente se tornaram dois dos protagonistas no Mundial da França. O confronto recebeu tratamento de segurança máxima, mas trouxe uma mensagem pacífica por parte das duas equipes. O duelo, inclusive, acabou tratado como o "jogo da paz" e marcou a Copa de 98.

A quebra de protocolo começou com a entrada das duas seleções no gramado do estádio Gerland, em Lyon. Os iranianos distribuíram buquês de flores aos jogadores americanos, e os 22 atletas em campo posaram juntos para uma imagem histórica que promovia um raro momento de trégua entre os países, que vivem novo momento de alta tensão.

Toda esta cerimônia de paz, contudo, ficou sob risco e gerou mais uma quebra de protocolo, desta vez por parte da Fifa. Em entrevista à Four Four Two no ano de 2014, o iraniano Mehrdad Masoudi, que trabalhou para a entidade máxima do futebol no duelo, contou sobre a mudança na organização para gerar a imagem repetida até hoje com os atletas se cumprimentando.

"Um dos primeiros problemas estava que o Irã era o time B e os Estados Unidos eram o time A na ordem do jogo. Segundo o regulamento da Fifa, o time B é quem caminha na direção do time A para os cumprimentos, mas o supremo líder Ali Khamenei deu ordens expressas para os iranianos não caminharem na direção dos americanos", contou.

Estili comemora gol Irã - Patrick Kovarik/AFP - Patrick Kovarik/AFP
Iranianos comemoram o gol de Estili, que abriu o placar na vitória por 2 a 1 sobre os EUA em 1998
Imagem: Patrick Kovarik/AFP

Sob a ordem do principal líder, os jogadores iranianos permaneceram parados e contaram com a alteração no protocolo para cumprimentar os atletas adversários, que receberam as flores e posaram para a foto, ainda uma das imagens mais marcantes daquele Mundial.

Em campo, o Irã levou a melhor por 2 a 1 e comemorou a primeira vitória na história da seleção do país em uma Copa do Mundo. Aos 40min, Hamid Estili abriu o marcador para os asiáticos. Já aos 38min da etapa final, Mehdi Mahdavikia ampliou. O centroavante Brian McBride, aos 42min, descontou para os Estados Unidos.

Inimigos de décadas

Irã Estados Unidos flores jogo - Juca Varella/Folhapress - Juca Varella/Folhapress
Iranianos ofereceram flores aos americanos antes do duelo pelo Mundial de 1998; asiáticos venceram
Imagem: Juca Varella/Folhapress

O momento de paz em 1998 ocorreu depois de praticamente duas décadas de enorme tensão entre americanos e iranianos. Desde 1979, data da Revolução Islâmica, os dois países não se entendem.

No mesmo ano do movimento revolucionário, cidadãos americanos permaneceram mais de um ano como reféns de militantes pró-reforma iraniana na embaixada do país na capital Teerã.

No ano seguinte, os Estados Unidos apoiaram o Iraque de Saddam Hussein, que anos depois se tornaria inimigo americano, na guerra contra Irã. O conflito durou quase uma década.

Enfim, em 1984, o futebol entrou em pauta e se viu envolvido diretamente no conflito iraniano. Capitão da seleção do país, Habib Khabiri acabou torturado e morto pelo regime, acusado de apoiar e colaborar com a oposição do líder supremo Aiatolá Khomeini.

O mesmo esporte, 14 anos depois, promoveu uma rara trégua nas duas nações que hoje protagonizam novo momento de tensão no mundo.

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