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Ele jogou com Neymar na seleção, foi ao Arsenal e quer virada na B de MG

Geovane ao lado de Neymar na seleção brasileira de base - Arquivo pessoal/Geovane
Geovane ao lado de Neymar na seleção brasileira de base Imagem: Arquivo pessoal/Geovane

Marcello De Vico

Do UOL, em Santos (SP)

08/01/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Geovane era um dos destaques da base do Santos junto com Neymar e Ganso
  • Meia chegou a passar pelo Arsenal e pela seleção de base, mas não vingou
  • Agora, Geovane tenta recomeçar a carreira no Democrata-GV, de MG

Neymar, Ganso e Geovane. Eram esses os três nomes de maior destaque da base do Santos no fim da década passada. O tempo passou, cada um seguiu o seu caminho, e hoje apenas dois deles continuam em evidência no mundo do futebol. Geovane, que era até mais badalado que o amigo Neymar e chegou a recusar um convite do Arsenal, não vingou, deixou a Vila Belmiro em 2014 sem um jogo sequer entre os profissionais e, depois de rodar por alguns clubes, agora busca um recomeço na carreira jogando pelo Democrata-GV, time que disputa a Segundona de Minas Gerais.

Aos 27 anos, Geovane ainda sonha em recuperar o futebol que o fez ser apontado como uma das grandes promessas do futebol brasileiro —inclusive com diversas convocações para as seleções juvenis ao lado de Neymar. Até mesmo Arsène Wenger, ex-técnico do Arsenal, da Inglaterra, encantou-se com o meia durante um período de testes na Inglaterra. Mas a história não saiu da maneira que Geovane esperava. Ele mesmo admite: não estava preparado para o sucesso.

"Eu cheguei no Santos [aos 14 anos, em 2007] como Geovane e, um ano depois, já era considerado uma das maiores promessas do clube. Tudo aconteceu muito rápido e acabou prejudicando um pouco. Eu não estava preparado para tudo que aconteceu, na proporção que aconteceu. Tanto eu, como minha família, não estávamos preparados. E as pessoas que entraram nas nossas vidas não nos orientaram da forma como era correta para tentar fazer com que as coisas saíssem bem, manter tudo no foco. Eu vim de uma família muito humilde, e nós não tivemos a devida orientação", analisa Geovane em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Não ao Arsenal e elogios de Wenger

O começo no Santos foi tão bom que até o Arsenal resolveu ir atrás de Geovane. O meia teve duas passagens por lá e conviveu com grandes craques do futebol europeu. Na primeira vez, em 2007, após um período de 15 dias treinando com os Gunners, recebeu uma proposta para um longo contrato. Mas a resposta foi negativa — ele queria mesmo é fazer história no Santos.

Arquivo pessoal/Geovane
Imagem: Arquivo pessoal/Geovane

"Não me arrependo. Naquele momento achei que seria certo, mas paciência. Eu preferi retornar ao Santos, clube que eu tinha uma admiração muito grande, e eu queria viver minha história no Santos, e por isso eu decidi retornar e recusar o convite do Arsenal naquele momento. Mas tudo tem consequência. Talvez se eu tivesse aceitado tudo seria diferente, mas hoje não podemos voltar para trás. Temos que olhar para frente, pensar que tudo pode dar volta, de uma forma diferente, mas tudo está em tempo ainda. Mas não me arrependo, fiz o que, naquela hora, achei que deveria fazer", diz o meia, que não se esquece da conversa que teve com Arsène Wenger — técnico que do Arsenal por 22 anos — em sua primeira passagem pelo clube inglês.

"Um belo dia ele me chamou na sala dele, e me chamou atenção quando ele falou: 'Geovane, acredito no seu potencial, você tem muito talento, para se tornar um dos grandes jogadores do mundo'. Isso me deixou muito feliz, escutar um elogio assim de um grande treinador, consolidado no futebol mundial. Levo isso de experiência para a vida inteira", acrescenta o meia.

Briga judicial e 'gelo' no Santos

Ao retornar ao Brasil, Geovane assinou o primeiro contrato profissional com o Santos, aos 16 anos. Continuou se destacando e sendo convocado para a seleção brasileira de base, até que recebeu uma nova proposta do Arsenal. Começou, então, uma briga judicial que passou a atrapalhar a vida profissional do meia. Os Gunners conseguiram uma liminar encerrando o vínculo de Geovane com o Peixe, e ele voltou à Inglaterra para mais um período de treino — este maior.

Arquivo pessoal/Geovane
Imagem: Arquivo pessoal/Geovane

Mas o imbróglio na Justiça foi tão grande que o Arsenal desistiu de Geovane, que acabou voltando ao Santos com um contrato de cinco anos. Será que agora seria a hora dele brilhar? Nada disso. Ele até teve bons momentos, como a participação na Copinha de 2011, mas não fez uma partida sequer entre os profissionais. De 2012 a 2014, viveu o pior período no clube. Ficou encostado, treinando até separado dos demais jogadores, e só chegou a ser relacionado para uma partida dos profissionais com Oswaldo de Oliveira.

"Nenhum jogador profissional quer passar por isso. É horrível. É um momento que você se sente inútil no clube. Você tem o contrato, e simplesmente está cumprindo horários e não está fazendo o que você mais gosta de fazer, que é jogar futebol. Você treina em horários alternativos. Acredito que isso é a pior coisa que um atleta profissional pode passar. Foi um momento de muito aprendizado, de paciência, em relação a várias coisas, e de aprovação. Mas foi um dos momentos mais difíceis para mim, ficar sem jogar", recorda o meia que, apesar do rumo que tomou sua carreira, diz não se arrepender de nada. Não faria nada de diferente.

"Voltar no tempo eu não voltaria, porque tudo que eu vivi no Santos foi muito intenso, muito incrível desde o começo. Um clube que me deu toda estrutura necessária que um atleta de base pode ter, me deu toda valorização, desde o início, acreditando no meu potencial. O que aconteceu de errado foi nas decisões tomadas. Eu poderia ter pensado melhor na tomada de decisões que resultou em consequências não positivas. Fez com que eu não tivesse o mesmo êxito que o Neymar e o Ganso tiveram. Acho que foi bem por aí", acrescenta Geovane.

Arquivo pessoal/Geovane
Imagem: Arquivo pessoal/Geovane

Vida nova no Democrata-GV

Geovane é um dos reforços do Democrata de Governador Valadares, que tenta retornar à primeira divisão do futebol mineiro. O primeiro jogo acontece em 8 de fevereiro, contra o Mamoré, fora de casa, e o meia — que não joga uma partida oficial desde 2017, pelo Rosário (Guatemala), espera entrar em campo para voltar a fazer o que mais gosta e, quem sabe, dar início, enfim, a uma carreira de sucesso no futebol brasileiro.

Arquivo pessoal/Geovane
Imagem: Arquivo pessoal/Geovane

"Hoje é um outro momento. É um recomeço, diferente. Não tem como eu falar que dá para conquistar tudo que eu imaginava quando eu estava no Santos, ao lado do Neymar. Eu tenho meus objetivos, meu foco, e se, porventura, tudo isso puder acontecer, que eu possa viver intensamente, com mais maturidade, mais sabedoria, e seria uma honra iniciar e terminar uma história do jeito que sempre desejei, que seria eu e o Neymar. Mas ele seguiu por um caminho diferente e hoje sou feliz demais. Torço demais por ele, fico feliz pelo nível que ele atingiu. Tenho meus objetivos e espero que tudo aconteça e que eu possa ter êxito", diz Geovane.

"Primeiramente, tenho que fazer um bom trabalho no meu clube. Agradeço ao Democrata pela oportunidade e, claro que, você fazendo um bom trabalho, você, automaticamente, consegue seus objetivos. Coletivamente, você fazendo um bom trabalho junto de seu clube, as coisas acontecem, e o interesse de outros clubes surge, isso é normal. Mas estou preocupado em fazer um bom trabalho aqui e, após o campeonato, a gente vê o que acontece", completa.

VEJA OUTROS TRECHOS DA ENTREVISTA:

Contato com Neymar e Ganso?

Não tenho contato. Até tive um contato com ele [Neymar] há algum tempo, mas de trocar telefone, não, com nenhum dos dois. Mas se eu tiver pessoalmente com eles, vamos lembrar do passado... Uma pena a gente não ter contato, mas isso é do futebol. Os atletas se distanciam, vão por caminhos diferentes. Minha torcida por eles fica. Espero também que eles possam continuar tendo êxito nas carreiras deles.

Convivência com Neymar, Ganso e cia.

A convivência foi incrível. Do Neymar, eu estive mais próximo, fizemos todas categorias de base juntos, fomos para seleções de base, e era um parceiro que eu tive durante toda categoria de base. Foi incrível conviver com esses atletas. Fico muito feliz e honrado por ter dividido uma boa parte desse período com jogadores que hoje eu me espelho, vejo como exemplo.

Período pós-Santos

Eu saí do Santos em 2014, com o fim do contrato, e no início de 2015 pude ir para alguns clubes, e jogar. Foi muito positivo porque pude jogar. As coisas não saíram como eu imaginava, mas pude jogar, conhecer pessoas, conviver em outros ambientes, novas experiências, e o resumo de tudo eu pego como positivo. Mesmo não tendo muito destaque, pude amadurecer muito mais em relação ao tempo que eu fiquei no Santos sem atuar. Isso me prejudicou muito. Se o atleta não joga, ele não consegue atingir um alto nível.

Treino com preparador particular

No ano passado eu tive alguns clubes interessados, mas mantive minha rotina de treinamentos com um preparador físico particular. A gente procurava fazer um trabalho mais próximo possível de um clube. Não é a mesma coisa, mas me esforcei ao máximo para poder estar preparado quando aparecesse uma nova oportunidade. Vamos usar esse período de pré-temporada para poder me preparar para que, no início da competição, eu posso estar no meu auge fisicamente para poder desempenhar um bom futebol.

"Hoje estou mais preparado"

Independente de tudo que aconteceu, hoje é um momento de recomeço. Estou tendo uma nova oportunidade para atuar, mas sempre acreditei e confiei no meu potencial. Acredito que todo atleta que sonha em alcançar um objetivo grande, ou que já teve oportunidade de conseguir isso, tem que acreditar primeiro em si. Sei que tenho capacidade para chegar a um grande clube novamente, mas tem que ser degrau por degrau. Primeiro tenho que fazer um bom trabalho no meu clube, aproveitar as oportunidades, e quando tiver a chance de estar num grande clube novamente, ter mais sabedoria, tomar as decisões corretas e ter orientações corretas. Acredito que hoje eu esteja mais preparado para viver tudo isso.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do que informado anteriormente, Neymar, Ganso e Geovane se destacaram no Santos na década passada e não na retrasada. O erro foi corrigido.
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