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À caça de informante, Juninho é cobrado por reforços e liderança no Lyon

Juninho Pernambucano em entrevista coletiva de apresentação do técnico Rudi Garcia no Lyon - Romain Lafabregue/AFP
Juninho Pernambucano em entrevista coletiva de apresentação do técnico Rudi Garcia no Lyon Imagem: Romain Lafabregue/AFP

Marcus Alves

Colaboração para o UOL, em Lisboa

23/10/2019 04h00

Em meio à má fase do Lyon, uma cara nova chamou a atenção na tribuna de imprensa do estádio Groupama no fim de semana: Juninho Pernambucano. Com o objetivo de ter uma melhor visão do campo, o dirigente brasileiro se sentou ao lado do analista de vídeo e dos demais membros da comissão técnica do clube. De lá de cima, viu a equipe francesa ficar no empate em 0 a 0 com o modesto Dijon e chegar a oito jogos sem ganhar no Campeonato Francês. Enquanto busca um informante dentro do vestiário, ele desembarca em Lisboa hoje com esta carga de pressão para o confronto com o Benfica, às 16h (de Brasília), pela Liga dos Campeões.

Se no Francês o Lyon está somente a uma posição da zona de rebaixamento, a situação é um pouco melhor na competição europeia, com a liderança dividida do grupo ao lado do Zenit St. Petersburgo. Até aqui, em dois compromissos, uma vitória e um empate.

A expectativa é que agora o ambiente da equipe seja outro com a saída de Sylvinho e a chegada de Rudi Garcia no comando. As mudanças, no entanto, terão que ser ainda mais profundas.

Ex-auxiliar de Tite na seleção brasileira, Sylvinho foi demitido após a derrota no clássico contra o Saint-Étienne, no início do mês, resultado que culminou na pior arrancada do clube em mais de duas décadas na Ligue 1. Esse jogo, contudo, foi ainda mais emblemático: ele evidenciou parte dos desafios que perseguem Juninho em seu novo cargo.

Na noite do dérbi local, a escalação da equipe foi definida e repassada aos jogadores por volta das 18h40. Antes mesmo de o elenco descer do ônibus para o estádio, ela já havia sido revelada pelo jornal L'Equipe. O vazamento da informação deixou o ex-jogador de 44 anos extremamente irritado.

Ele aproveitou a apresentação recente de Garcia como novo treinador para mandar o recado por meio da imprensa sobre sua caça para descobrir a "laranja podre" que existe nos corredores do clube.

"A gente tem algumas coisas para resolver, especialmente os vazamentos que existem no vestiário. É algo me chateia muito", afirmou.

Outra situação que aconteceu naquele mesmo dia foi o atraso do dinamarquês Joachim Andersen para a preleção de Sylvinho. O defensor chegou poucos minutos depois da hora marcada, pediu desculpas e não foi repreendido pelo ex-lateral esquerdo. A falta de uma postura mais firme, então, sedimentou a impressão de que o controle do grupo havia sido perdido.

No fim das contas, com a pressão vindo de cima, não restou outra alternativa a não ser a troca no banco.

Desde então, Juninho tem tido também uma postura mais participativa, mostrando a sua liderança e não se escondendo das câmeras. Foi exatamente com essa intenção que o presidente Jean-Michel Aulas o convenceu a retornar ao Lyon para assumir a dianteira e, assim, conseguir se afastar um pouco mais do trabalho.

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"Sylvinho ficou desprotegido"

Com fama de se meter nas decisões da comissão técnica, Aulas está à frente dos franceses desde o fim dos anos 1980. Ele deu carta branca ao brasileiro, maior ídolo da história do clube e reverenciado pelos torcedores, para cuidar do dia a dia em sua ausência.

"Fazia muito tempo que Aulas tentava trazer Juninho de volta ao Lyon. Muito se falava dele como técnico, mas, no fim das contas, acabou sendo como diretor esportivo, um novo cargo dentro da hierarquia. Aulas queria se distanciar um pouco mais da rotina diária e viu no Juninho uma pessoa em que ele confiava para assumir isso", explica Dahbia Hattabi, setorista do Lyon no site Foot Mercato, ao UOL Esporte.

"Esse retorno de Juninho foi uma brisa de ar fresco dentro de uma equipe que carregava um clima hostil em função do antigo treinador, Bruno Génésio. Como jogador, Juninho foi uma lenda, e essa aura dele foi muito importante. Foi decisão dele buscar Sylvinho e também reforços como Thiago Mendes e Jean Lucas. A princípio, isso causou um pouco de discordância interna com o chefe de scouting, Florian Maurice, mas logo se resolveu. Havia uma onda positiva, e os primeiros resultados foram animadores. Porém, ele não acertou com o Sylvinho e, ao não falar com a imprensa, acabou deixando Sylvinho ainda mais desprotegido", completa.

Naquela altura, em somente uma ocasião, contra o Nantes, no fim de setembro, Juninho resolveu enfrentar os microfones e responder aos questionamentos dos repórteres.

Com a casca grossa que sete títulos da Ligue 1 pelo Lyon lhe asseguram, Juninho era considerado a blindagem perfeita para que qualquer trabalho se desenvolvesse. A decisão de se preservar mais, no entanto, fez com que até mesmo Aulas voltasse a falar mais e, ao seu estilo espontâneo, realizasse cobranças públicas.

Um dos alvos do cartola foi o brasileiro Thiago Mendes, ex-São Paulo e Goiás. Ele custou 25 milhões de euros (R$ 108 milhões, de acordo com a cotação da época), mas não tem conseguido repetir o futebol que mostrou no Lille, seu último clube.

"Alguns de nossos reforços têm me decepcionado. Eu não vou citá-los, mas eles sabem quem são. Na última temporada, eram os melhores em suas equipes, e hoje são uma sombra do que mostravam", disparou, completando posteriormente que o desabafo não era direcionado apenas a Mendes.

Esse é apenas um dos desafios que Juninho tem pela frente após deixar a função de comentarista na TV Globo, se mudar com a família para os Estados Unidos e agora retornar ao Lyon.

"Juninho ainda tem o apoio dos torcedores e dá para ver que ele quer muito que tudo dê certo. Ele vive o clube intensamente", relata Hattabi.

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