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"Elas estão radiantes", diz técnico do time que tomou 56 a 0 do Flamengo

Jogadoras do Greminho FC, que perdeu de 56 a 0 para o Flamengo pelo Carioca Feminino - Divulgação
Jogadoras do Greminho FC, que perdeu de 56 a 0 para o Flamengo pelo Carioca Feminino Imagem: Divulgação

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

28/09/2019 18h11

Resumo da notícia

  • Flamengo venceu por 56 a 0 o Greminho, um time amador que disputa o Carioca feminino
  • O Greminho se formou dez dias antes da competição e treinou apenas três vezes antes da estreia
  • O técnico e presidente tira dinheiro do próprio bolso para manter as atividades do time
  • Mesmo após a goleada histórica, as jogadoras se dizem felizes pela chance de disputar o torneio
  • A federação carioca de futebol foi criticada por organizar um campeonato com tanta disparidade técnica
  • Jogadoras do Flamengo foram consolar as adversárias após a goleada

O Greminho FC, time amador do bairro do Cosmos, na zona oeste do Rio, parece não ter se deixado abalar após tomar uma goleada de 56 a 0 para o Flamengo no Campeonato Carioca de Futebol Feminino hoje. "As meninas estão radiantes", disse Hamilton Silva, motorista autônomo, técnico e presidente do Greminho há dez anos sobre o sentimento do time após a partida.

"Quando tivemos a oportunidade de entrar na competição colocamos na cabeça que o menos importante seria o resultado e sim dar início a um trabalho que nunca tivemos na região. Montamos um time em dez dias, fizemos três treinos e fomos pra batalha", afirmou ele, que tira dinheiro do próprio bolso e conta com doações da comunidade para manter as atividades da equipe, que não cobra mensalidade das atletas.

Os treinos acontecem em um pequeno campo de terra de uma praça do bairro, e muitas atletas tiveram o primeiro contato com um campo de futebol profissional justamente contra o Flamengo hoje. O clube tem apenas seis bolas de futebol para usar no dia a dia, compartilhadas entre as esquipes masculina e feminina.

"Já fomos pro jogo sabendo que tomaríamos bastante gols porque a estrutura do Flamengo não tem comparação", afirmou a capitã Duda, de 20 anos, que antes de iniciar o projeto do Greminho já tinha pensado em desistir do futebol e tentar carreira no MMA. "Não esperava que fosse tanto. Mas estou muito feliz porque tive essa oportunidade. Ficamos chateadas por ter perdido, mas sei que demos nosso melhor. O resultado são apenas números."

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Imagem: Divulgação

A disparidade física e técnica ficou clara desde o primeiro minuto da partida, e as jogadoras rubro-negras empilharam um gol atrás do outro para fazer o placar elástico. Após cada gol, elas corriam até as redes para pegar a bola e dar seguimento à partida, tentando aumentar o placar.

"Às vezes conseguíamos segurar a bola, mas por elas serem maiores e parecerem mais fortes, a gente ficava com medo. Elas são muito grandes, e a gente é tudo magrelinha", afirmou a atacante Nathalia, de 15 anos, que se disse orgulhosa de representar o Greminho.

Flamengo ajudou e jogadora compartilharam Whatsapp

A atitude das jogadoras de não desistir e continuar jogando mesmo sem ter chance de vencer foi elogiada pelas flamenguistas, que foram ao vestiário ao final da partida para dar força às jogadoras da zona oeste do Rio.

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Imagem: Divulgação

"Nós ficamos tristes com o placar, mas depois que as meninas do Flamengo foram falar com a gente e disseram que vieram de baixo também e foram subindo, nós começamos a olhar para o jogo de outro jeito", conta Nathalia, que fez apenas o seu segundo jogo em um campo profissional. "Uma delas deu o Whastsapp dela e disse pra nunca desistirmos dos nossos sonhos. Aí começamos a brincar, dançar e fazer a resenha que sempre fazemos."

Além da diferença de nível entre os dois times, há outros fatores que explicam a goleada: a necessidade do Flamengo fazer saldo de gols em um campeonato de placares inflados e um acidente sofrido pela goleira titular do Greminho ainda no primeiro tempo.

Machucada, ela precisou ser substituída pela zagueira Muriel, que acabou sofrendo a maior parte dos gols da partida. Mesmo assim, a zagueira/goleira avalia como positiva a experiência.

"Não ganhamos o jogo, mas ganhei aprendizado. Não estou levando em conta o resultado, levo em conta mais o que tenho a aprender com ele", afirmou Muriel. "Eu não queria muito jogar como goleira, mas quando estava lá tentei dar o melhor pra ajudar o time. Só treinei uma vez como goleira e esse foi o meu primeiro jogo na posição. Para uma primeira vez posso dizer que agarrei bem, teve umas bolas difíceis que eu consegui defender."

O técnico Hamilton afirma que foi uma experiência positiva para o time, que hoje conta com 19 atletas federadas. Ele avalia como "super profissional" a postura do Flamengo durante toda a partida e depois dela. "Desde a nossa recepção a equipe do Flamengo foi super profissional e não menosprezou o nosso time. Todos os gols saíram normais, não teve deboche, foi uma coisa natural."

Comentaristas especializados em futebol feminino criticaram a federação do Rio de Janeiro por organizar um campeonato estadual com equipes de nível tão diferente. O treinador do Greminho, porém, viu o aumento do número de clubes na competição como uma oportunidade. "O jogo de hoje foi um marco histórico pra gente. Depois de jogar com o Flamengo, acredito pro ano que vem teremos mais chances de nos organizar."

Em nota à imprensa após a partida, a federação disse que seu objetivo ao organizar a edição deste ano do Carioca feminino foi "abrir portas para a realização de sonhos e oportunidades para inúmeras atletas". Para completar: "A visibilidade está à frente como fonte de geração de talentos. O aspecto técnico vem em segundo estágio, no momento."

A Ferj elogiou a coragem das jogadoras que participam do torneio. "Jamais deixaremos de exaltar vencedores e vencidos, independentemente do resultado de suas respectivas partidas. Aplaudimos o fair-play e a coragem das atletas, bem como os clubes que se propuseram ao primeiro passo de importante caminhada. Continuaremos com nossos objetivos mas sem deixar de abrir a porta da esperança."

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