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Como narradores se preparam para "segurar emoção" durante revisão do VAR

VAR é acionado para analisar o gol de Gabriel Jesus na partida entre West Ham e Manchester City - David Klein/Reuters
VAR é acionado para analisar o gol de Gabriel Jesus na partida entre West Ham e Manchester City Imagem: David Klein/Reuters

José Edgar de Matos

Do UOL, em São Paulo (SP)

24/09/2019 04h00

Resumo da notícia

  • O UOL Esporte entrevistou Paulo Andrade e Rogério Vaughan, da ESPN, e Jorge Iggor, do Esporte Interativo, para falar sobre como é narrar com o VAR.
  • Paulo Andrade e Jorge Iggor seguram a narração no gol confirmado pelo VAR, enquanto Vaughan repete o grito após o uso da tecnologia.
  • Todos concordam que a presença do VAR exige uma atenção ainda maior por parte dos narradores.
  • Quando "aperta" a situação, o trio recorre aos especialistas de arbitragem dos respectivos canais.
  • Iggor, Andrade e Vaughan, mesmo após viverem esta experiência e exaltarem as mudanças, são a favor do uso do árbitro de vídeo no futebol.

Chelsea x Liverpool, em Stamford Bridge. A milhares de quilômetros do estádio em Londres, Paulo Andrade solta o grito de gol dos donos da casa durante transmissão da ESPN Brasil. Toda a emoção do momento mais sublime no futebol, contudo, dura minutos. Afinal, desde o início da temporada do Campeonato Inglês, o árbitro de vídeo, conhecido também como VAR, auxilia a arbitragem a corrigir lances duvidosos. No caso, um impedimento que anulou o gol da equipe dos brasileiros Jorginho, Willian e Emerson Palmieri - este naturalizado italiano.

A intervenção do VAR se tornou novidade na narração esportiva. As mudanças no jogo causadas pelo auxílio da tecnologia ainda dividem os narradores. Afinal, como proceder? Narrar o gol duas vezes? Apenas registrar o momento?

O UOL Esporte ouviu profissionais de televisão para saber como o árbitro de vídeo influencia na preparação e na rotina de quem convive com as mudanças causadas pela tecnologia no Inglês, na Liga dos Campeões e, recentemente, no Campeonato Brasileiro.

Fernando Torres / CBF
Imagem: Fernando Torres / CBF

Paulo Andrade, ESPN

A gente fica mais atento, mas a preparação não muda. O VAR na Premier League tem funcionado muito bem, pois adotaram a lei da mínima interferência. Você não fica naqueles minutos intermináveis esperando uma decisão. O que é estranho é acontecer o gol, narrar esse gol, e no meio do caminho a imagem fecha no árbitro e ele faz o gesto de anular. O que adotei como critério próprio: independente de aparecer, vou com o grito de gol até o fim. Não interrompo o grito, termino a palavra gol. Penso em como isso será inserido nos melhores momentos do jogo: se precisar daquele frame e de um grito de gol, vai ter o grito de gol até o fim, porque não conhecemos o desfecho da jogada. O grito de gol é no momento em que a bola bate na rede e o estádio explode; isso é sagrado.

Jorge Iggor, Esporte Interativo

Agora a gente tem duas situações, e são difíceis para a gente lidar. Há dois movimentos que acontecem: o gol sai e fazemos a descrição, depois tem o grito de gol, e no fim de tudo é analisado e tem que esperar para saber se aquele grito vale a pena. Aí você tem depois da confirmação do gol. Alguns fazem de novo, eu faço o grito uma vez só. Eu faço ali o registro e subo o tom, mas não grito gol duas vezes. Enquanto tem a comemoração do gol, o clima está lá em cima, e você grita mesmo sem ser validado. Quando o bandeira para o lance, quebra tudo. Não tem como gritar gol neste momento. Já vivi isso na Champions, por exemplo, e é péssimo. Este é o "prejuízo" de uma justiça maior da aplicação da regra.

Rogerio Vaughan, ESPN

Eu narro o gol quando ele sai, independente do VAR; afinal, todo lance de gol é revisado. Narro de qualquer maneira. Já aconteceu comigo de sair o gol, o bandeirinha levantar e eu não narrar o gol. Se ele valida o gol, eu narro o gol de qualquer maneira. Como é totalmente novo para a gente, eu adaptei para mim: se o cara validou, narro o gol de novo. Quando ele valida o gol, existe uma comemoração, e o narrador vai no embalo daquele momento, daquela alegria que gol foi confirmada pelo VAR. O nível de alerta é muito maior agora. Temos que ficar vendo o juiz, o bandeira e lendo a comunicação deles para fazer a melhor leitura possível do jogo, para que a cabeça do telespectador não fique embaralhada. O consumidor do produto precisa entender.

Necessidade de conhecer a regra e estudar protocolos

Pedro H. Tesch/AGIF
Imagem: Pedro H. Tesch/AGIF

Jorge Iggor, Esporte Interativo

Narrador tem que estar atento às jogadas, aos desdobramentos dos lances, ao que acontece na sala do VAR. A gente na transmissão do Brasileiro tem acesso à sala do VAR. Em alguns casos, sabemos até o replay que estão vendo. No returno do Brasileiro, isso vai acontecer [o acesso público às imagens]. Isso dobrou a nossa atenção. Por ser uma recomendação, aumentou nossa responsabilidade de reconhecer a regra. O VAR força que os profissionais estejam em constante atualização com o estudo das regras do futebol. Vi as recomendações e contei muito com a ajuda do Péricles Bassols [ex-árbitro], que, na hora que o "bicho pega", a gente joga para ele explicar da maneira mais didática.

Rogerio Vaughan, ESPN

No início, o Sálvio Spínola [hoje comentarista de arbitragem no Grupo Globo] e hoje a Renata Ruel [ESPN] nos ajudam a tirar as dúvidas do cotidiano. Essas consultas te ajudam nas transmissões internacionais, principalmente, pois não estamos no estádio. Os lances são mais dos comentaristas de arbitragem, é uma situação nova para todo mundo. O narrador tem a missão de passar o jogo, a história dos jogadores e contexto. Narrador também precisa ter o papel de humanizar quem está ali [jogadores e arbitragem].

Paulo Andrade, ESPN

Durante os jogos mesmo, às vezes faço consultas com a Renata [Ruel] pelas redes sociais ou via Whatsapp. É fundamental ter o apoio dela. São tantos detalhes que alguns podem passar despercebidos por nós. O protocolo do VAR existe e tem sido adaptado com o uso da ferramenta. Na Inglaterra, eles seguem o protocolo do jeito deles, então tive que ter atenção nisso também, pesquisar como eles utilizariam e seguiriam este protocolo. Quando o VAR chama o árbitro, ele passa a ser autoridade máxima na Inglaterra, por exemplo. A interferência é mínima. Quando o VAR chama o árbitro de campo, ele apenas para para ouvir a determinação [no caso, por exemplo, a anulação do gol de Azpilicueta].

VAR no futebol: sim ou não?

Pedro H. Tesch/AGIF
Imagem: Pedro H. Tesch/AGIF

Rogerio Vaughan, ESPN

Eu sou a favor do VAR. Bem aplicada, a operação do VAR sendo muito bem executada, só tem a somar com o futebol. Sou totalmente a favor do VAR, ele pode ser muito importante. Quando é bem trabalhado, as pessoas estão ali em sintonia, elimina a injustiça. Quando bem afinado, quando existe questão profissional do VAR, com o treinamento, ele pode deixar a injustiça de lado do futebol.

Paulo Andrade, ESPN

É extremamente positivo. A cada rodada os ingleses estão ensinando ao mundo como utilizar ao VAR, e isso tem sido reflexo da qualidade da arbitragem. No Brasil e América do Sul ainda tem sérios problemas, como a arbitragem tem problemas por aqui. O VAR na Espanha também tem problemas, como tem problemas na arbitragem. Na Inglaterra há menos problemas pelo nível da arbitragem. O nível de arbitragem, aliás, e seguimento do protocolo têm que seguir melhorando e evoluindo.

Jorge Iggor, Esporte Interativo

Eu enxergo de maneira positiva. O VAR veio para trazer justiça. Nos primeiros meses ou anos, talvez a gente tenha dificuldade com a dinâmica. Ainda estamos entendendo melhor como funciona, e essa recomendação vai se ajustar com o tempo. Quanto mais fizer, melhor será o desempenho. Acredito mesmo que com o passar do tempo a operação estará mais ajustada, as decisões serão mais rápidas. Se a gente tem uma ferramenta que aumenta as chances de acerto e dá um olhar a mais, a gente não pode considerar como algo ruim.