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Beckham tenta, em Miami, alcançar o sucesso onde Romário e Ronaldo falharam

David Beckham, durante evento de lançamento do Inter Miami - Divulgação/Inter Miami
David Beckham, durante evento de lançamento do Inter Miami Imagem: Divulgação/Inter Miami

Beatriz Cesarini e Bruno Grossi

Do UOL, em São Paulo e Miami (EUA)

06/09/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Seleção brasileira joga um amistoso hoje em Miami contra a Colômbia
  • Em 2020, a cidade passará a ter um time na MLS, principal liga de futebol dos EUA
  • O projeto tem como líder o inglês David Beckham, que jogou na MLS pelo Los Angeles Galaxy
  • A criação do Inter Miami tem histórias cruzadas com aventuras brasileiras na Flórida
  • Romário, Ronaldo e Adriano Imperador tentaram, mas não fizeram o futebol local crescer
  • Beckham aposta em gestão mais democrática e voltada aos latinos

Romário, Ronaldo, Adriano e, agora, David Beckham. Estrelas do futebol mundial que marcaram seus nomes na história e têm na cidade de Miami um ponto de convergência peculiar em suas trajetórias. Romário jogou no Miami FC, que passou a se chamar Fort Lauderdale Strikers, que teve o Fenômeno como gestor. Esse projeto naufragou. Mas o estádio usado foi recuperado por Beckham na criação de uma nova equipe, que precisou mudar a ideia inicial de nome porque já existia um Miami United, um clube modesto que tentou chamar a atenção do planeta retomando a carreira de Adriano Imperador.

Sim, é complexo. Mas vamos tentar explicar. A partir de 2020, o Inter Miami será o novo integrante da MLS, principal liga de futebol dos Estados Unidos - o torneio ainda conta com os canadenses Montreal Impact, Toronto FC e Vancouver Whitecaps. Um projeto ousado e democrático que tem Beckham como um dos líderes e que, por coincidência, esbarra em algumas aventuras passageiras de astros brasileiros pela costa leste dos Estados Unidos.

Ronaldo, durante entrevista nos tempos de sócio do Fort Lauderdale Strikers - UOL Esporte
Ronaldo, durante entrevista nos tempos de sócio do Fort Lauderdale Strikers
Imagem: UOL Esporte

A herança Romário-Ronaldo-Beckham

Em 2006, por apenas seis meses, Romário foi a estrela do Miami FC. Um clube que disputava a USL, considerada a terceira liga mais importante dos Estados Unidos. O atacante, então com 40 anos, chegou a ter a companhia do meia Zinho no time e deveria ser o grande atrativo para os turistas latinos da região. A média de público da equipe até aumentou com a presença do craque, mas o projeto durou pouco.

Depois de cinco anos, em 2011, o clube conseguiu passar para a NASL, a segunda liga do país, e resgatou a marca Fort Lauderdale Strikers, que havia obtido certo sucesso no século passado. Houve nova melhora sensível na procura de torcedores, animados com o passado revisitado, mas ainda era pouco. Foi aí que apareceu Ronaldo.

O Fenômeno, junto de outros empresários brasileiros, resolveu comprar os Strikers no fim de 2014. Jogadores brasileiros foram contratados e até amistoso contra o Corinthians foi disputado. Só que mais uma vez não houve continuidade no projeto. Salários atrasaram, investidores se afastaram e atletas ficaram à deriva, como Bruno, ex-goleiro do Palmeiras e comentarista da DAZN.

"Jogar nos Strikers foi muito legal, uma experiência fantástica, que vou levar para o resto de minha vida e que abriu outras portas para mim nos Estados Unidos. Mas acho que os donos e os investidores não calcularam direito a chance de perder dinheiro. Afinal, tirando a MLS, não tem lucro. Nas outras ligas é só gasto, não há cota de TV, patrocínio alto. Eles não imaginaram ou não estudaram o mercado. O time em si fez uma boa campanha diante de tudo o que aconteceu", contou Bruno, ao UOL Esporte.

Projeto de reforma do Lockhart Stadium, antiga casa do Fort Lauderdale Strikers, que será reformada pelo Inter Miami - Divulgação/Inter Miami
Projeto de reforma do Lockhart Stadium, antiga casa do Fort Lauderdale Strikers, que será reformada pelo Inter Miami
Imagem: Divulgação/Inter Miami

O Lockhart Stadium, em Fort Lauderdale, cidade ao norte de Miami, ficou sem uso. Havia relatos de abandono completo do estádio. Até que David Beckham entrou na história. O local passa por uma reforma intensa desde o início deste ano e será a casa do Inter Miami nos dois primeiros anos de MLS. Depois, o clube do ex-jogador inglês usará a área como centro de treinamento e deixará o estádio para a prefeitura da cidade receber projetos com escolas e faculdades da região.

A aventura de Adriano no time que "frustrou" Beckham

Adriano, em 2016, durante a estreia pelo Miami United. A aventura do Imperador durou pouco - Divulgação/Miami United FC
Adriano, em 2016, durante a estreia pelo Miami United. A aventura do Imperador durou pouco
Imagem: Divulgação/Miami United FC

Durante três meses em 2016, Adriano interrompeu a aposentadoria para defender o Miami United, que disputava a NPSL, uma liga de escalão ainda menor nos EUA. O Imperador jogou duas vezes, fez um gol e logo desistiu da aventura. Só que os proprietários da equipe seguiam sonhando alto e, cientes dos planos de Beckham para o futebol da cidade, planejavam uma parceria no futuro.

Camisas "misteriosas" lançadas por Beckham em 2014, quando franquia da MLS foi comprada - Arquivo pessoal
Camisas "misteriosas" lançadas por Beckham em 2014, quando franquia da MLS foi comprada
Imagem: Arquivo pessoal

Essa boa vontade passava por um detalhe curioso. Quando Beckham comprou a licença para criar um clube na MLS, ainda em 2014, o nome registrado foi exatamente Miami United. Camisas chegaram a ser vendidas nas lojas esportivas da Flórida na época, com esse nome na frente e o número 23 nas costas, uma marca registrada do inglês.

Não foi possível seguir essa ideia inicial, mas o que poderia ser uma frustração acabou apresentando uma possibilidade de criar uma identidade mais peculiar para o projeto de Beckham. A democracia.

Inter Miami quer ser o time de todos

Nesse processo de cinco anos entre a compra da licença e a entrada definitiva na MLS, Beckham e seus companheiros decidiram mergulhar na realidade de Miami para formular um projeto que pudesse ter a empatia de quem vive na cidade. A população é majoritariamente latina, característica que se reforça pelo alto número de turistas de países sul-americanos. Europeus também buscam as praias da região durante o verão. E há bairros que exaltam raízes de outras nações por todo canto.

Foi dessa mistura que surgiu a ideia do novo nome: Clúb Internacional de Fútbol Miami, ou só Inter Miami. Escolher o espanhol como idioma "oficial" não é ocasional. Artistas locais foram convocados para elaborar o escudo da equipe, com cores e traços baseados em símbolos da cidade. E até a localização do novo estádio passou pela aprovação direta de torcedores que ainda nem conhecem o clube.

Perspectiva do Freedom Park, futuro estádio do Inter Miami - Divulgação/Inter Miami
Perspectiva do Freedom Park, futuro estádio do Inter Miami
Imagem: Divulgação/Inter Miami

Uma pesquisa entre os moradores de Miami interessados na criação do time foi feita. Possíveis locais para a construção do estádio foram apontados e essa votação apontou para uma grande área ao lado do aeroporto de Miami, onde há um parque e um enorme campo de golf. Ali será erguido o Freedom Park, com entrega prevista para 2022.

O espaço também terá campos de treinamento e, assim como o posto provisório em Fort Lauderdale, contrapartidas para a população. A ideia é que o estádio fique integrado ao parque, inclusive com um telão voltado para o lado externo que possibilite a quem está do lado de fora acompanhar jogos e eventos. A promessa é de que não será investido dinheiro público.

Mapa das futuras instalações do Freedom Park, casa do Inter Miami - Divulgação/Inter Miami
Mapa das futuras instalações do Freedom Park, casa do Inter Miami
Imagem: Divulgação/Inter Miami

Por que o futebol na Flórida custou a engrenar?

A região sofre até para emplacar franquias de sucesso em esportes americanos mais tradicionais. O Miami Heat viveu tempos áureos no começo desta década na NBA, é verdade, mas na NFL duas equipes patinam há anos. Os Jaguars, em Jacksonville, não tem taxa de ocupação entre as maiores da competição. Já o Miami Dolphins convive com elencos pouco competitivos, embora tenha no Hard Rock Stadium um grande atrativo para shows e eventos de outros esportes - o estádio vai receber o amistoso de hoje entre Brasil e Colômbia, às 21h30 (de Brasília).

No futebol, os projetos no Estado sempre se resumiram às ligas menores. No passado, os próprios Strikers tiveram força e uma rivalidade com o Tampa Bay Rowdies chegou a ser criada. Mas na MLS ninguém conseguiu prosperar. Times como Tampa Bay Munity e Miami Fusion deixaram de figurar na competição e só em 2015 a região voltou para o mapa do futebol com o Orlando City, com Kaká como chamariz.

"O projeto do Beckham é legal, tomou anos até sair de vez do papel e é totalmente diferente. É MLS. Tem um padrão a ser seguido. É preciso ter profissionais fixos, e não tratar como segundo emprego, até nas categorias de base. Tem tudo para dar certo. A torcida pode ser mais difícil, por ter muito turista na cidade. Então é preciso ir devagar, mas o Orlando mostra que pode dar certo. Depende de muitos fatores, inclusive dos jogadores que eles trouxerem. Mas não é só o Beckham por trás disso tudo. Há mais investidores, até mais fortes e mais ativos que ele. Com tudo isso, e na MLS, é mais difícil de dar errado", analisou o ex-goleiro Bruno.

John Raoux/AP
Imagem: John Raoux/AP

Em comum com o Inter Miami, o Orlando investiu na comunidade latina e no potencial turístico da cidade. Construir estádios menores e mais confortáveis também foi uma solução parecida para as duas franquias, que deram passos maiores e mais profissionais do que os vividos por Romário, Ronaldo e Adriano.

"Esses times que acabaram não seguindo estavam em outras ligas e essas ligas não funcionaram, não cresceram. São coisas distintas. Hoje, dentro da MLS, as franquias como um todo têm conseguido seus resultados e sucesso. Junto com a liga, que já está consolidada e está perto de completar 25 anos [começo em 1996]. É um tempo de estrada já e o sucesso vem daí. Nosso projeto nasceu para levar o time à MLS, como é com o Miami. Entendemos que só assim iria se desenvolver o futebol dos Estados Unidos", disse o CEO do Orlando City, Alexandre Leitão.

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