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"Torcida Humana" não evitou brigas e deu prejuízo ao Athletico em 34 jogos

Torcida do Athletico enche Arena da Baixada; média caiu com a "Torcida humana" - Divulgação/Athletico
Torcida do Athletico enche Arena da Baixada; média caiu com a "Torcida humana" Imagem: Divulgação/Athletico

Napoleão de Almeida

Colaboração para o UOL, em São Paulo

17/08/2019 04h00

Em decisão anunciada no último dia 7, o Athletico Paranaense encerrou o "projeto Torcida Humana", que vetava a presença de pessoas trajadas com roupas dos adversários do time na Arena da Baixada e não determinava local de ingressos para visitantes. A iniciativa será oficialmente encerrada neste sábado, 19h, quando o Atlético-MG vai até o estádio em jogo válido pelo Campeonato Brasileiro.

Controverso, o projeto foi criticado até mesmo pela Polícia Civil do Paraná e trouxe prejuízo aos cofres do Furacão enquanto esteve em vigor, durante exatos um ano e três meses. Causou cisão entre as diretorias do Furacão e de pelo menos quatro clubes e marcou atos de união entre a principal organizada atleticana e torcidas visitantes, como a Gaviões da Fiel, ligada ao Corinthians. Para a diretoria do Athletico, entretanto, a iniciativa foi "bem sucedida" e encerrada como parte de um pacote de medidas que tentam reaproximar a torcida do clube em um ano eleitoral.

Em 34 partidas, o saldo considerado positivo pelo clube foi de uma redução de 170 para 151 policiais militares necessários para a realização de um jogo. O clube ainda registrou 20 episódios de brigas entre torcedores durante o projeto, contra 28 no modelo anterior - entretanto, não divulgou o intervalo de tempo do recorte do modelo que vigorou por décadas. Nota emitida afirma que "o projeto passou, com sucesso, tanto pelo crivo prático quanto jurídico."

Vendido como iniciativa do Ministério Público do Paraná, recusado por Coritiba e Paraná Clube e adotado apenas pelo Athletico, o projeto foi encerrado unilateralmente segundo Maximiliano Deliberador, promotor do MP-PR que assinou a ideia em conjunto com o Furacão: "Foi uma escolha do clube. Desde o primeiro dia que o MP ofereceu o projeto aos clubes de Curitiba, foi dito que poderiam entrar ou sair dele a qualquer momento".

Em contato com o UOL Esporte, o delegado de Polícia Civil Clóvis Galvão, que comanda a delegacia especializada em dias de jogos, afirmou que os problemas de violência de torcidas não diminuíram com a iniciativa.

"Quando o Athletico tomou essa postura, a gente se manifestou no sentido de que a realidade do futebol paranaense não comportava essa decisão. E era uma decisão do clube, o poder público nada poderia fazer a não ser acatar. O problema aqui no Paraná, de violência, não temos verificado ela no estádio. O local está sempre muito seguro com policiamento, juizado criminal, a delegacia móvel. O nosso problema é na periferia, é nos terminais de ônibus que se desenvolve essa violência. As ocorrências continuaram as mesmas, não tivemos qualquer decréscimo", afirmou o delegado Clovis Galvão.

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Prejuízo foi aliviado pelos jogos com argentinos

Com o projeto, a média de público do Athletico caiu cerca de 30% no primeiro ano da medida em relação ao ano anterior e teve pequena reação em 2019 contando com jogos de Libertadores e Recopa contra Boca Juniors e River Plate, respectivamente. O clube foi de média de 14 mil pessoas por jogo na Arena da Baixada em 2017 - quando teve média de 22.009 na Libertadores - para pouco mais de 10 mil em 2018 - ano em que bateu recorde do estádio com os 40.263 torcedores que assistiram à final da Sul-Americana - e 15 mil em 2019 - quando a presença de setores para os visitantes em jogos de competições organizadas pela Conmebol foi obrigatória.

Um bom recorte pode ser visto na arrecadação: foram R$ 13 milhões em bilheteria em 2017, contra R$ 10 milhões em 2018. Neste ano, contando com os jogos internacionais, a bilheteria já arrecadou cerca de R$ 10 milhões. Os três jogos contra Boca (2) e River levaram cerca de 30 mil pessoas à Arena da Baixada. Outro recorte da perda de arrecadação pode ser visto nos borderôs dos duelos contra o São Paulo, sediado em cidade próxima e com torcida numerosa no Paraná: 19.150 pessoas assistiram ao duelo de 2017, contra 8.257 pagantes no jogo de 2018. No dia 21, já sem a "torcida humana", os times se enfrentam em Curitiba.

Contra o Corinthians, que de acordo com pesquisas disputa com o próprio Athletico a preferência dos torcedores paranaenses, a queda foi menor, mas existiu: 18 mil pessoas em 2017, 14 mil em 2018 e novamente 18 mil em 2019. Neste tempo, a organizada "Os Fanáticos" já havia articulado com a corintiana "Gaviões" a destinação de um espaço, sugerindo que os alvinegros comprassem ingressos no setor Cel. Dulcídio Superior, o que gerou uma nota solidária por parte da organizada paulista.

Protestos, ações e retaliações marcaram medida

A medida unilateral desagradou dirigentes de outros clubes, que procuraram assegurar suas torcidas em Curitiba. Foi o caso do Santos, que entrou com uma ação na Justiça Comum, derrubada por liminar com apoio do MP-PR. O Cruzeiro tentou o mesmo caminho. Já o Coritiba se mobilizou na esfera desportiva e ganhou o direito de ter sua torcida no clássico em decisão do TJD-PR, mas o Athletico não cumpriu a medida, alegando falta de tempo e foi punido pelo tribunal. Botafogo, Sport, Paraná e Flamengo seguiram uma terceira via: se em Curitiba não havia espaço para suas torcidas, não haveria espaço para atleticanos em suas casas.

O Inter questionou a decisão em carta como sinal de protesto: "O que o principal dirigente do Athletico Paranaense, Mário Celso Petraglia, faz de fato é isso: unilateralmente, impede que torcedores visitantes possam ter um local reservado em seu estádio e, ainda pior, proíbe que usem vestimentas que façam alusão ao clube para o qual torcem. O que isto tem de humano?", questionou.

Na nota em que anunciou o fim da medida, o Athletico confirmou a pressão dos adversários para que o projeto se encerrasse. Veja, a seguir, a integra do comunicado divulgado pelo clube.

Em 08 de maio de 2018, o Club Athletico Paranaense aderiu ao projeto piloto "Torcida Humana" de iniciativa da Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor de Curitiba, órgão integrante do Ministério Público do Estado do Paraná.

É preciso ressaltar o sucesso desse projeto, levado a efeito pelo CAP mediante a sua implementação nas partidas de sua equipe profissional como mandante no Estádio Joaquim Américo Guimarães, válidas pelos Campeonatos Brasileiros - Série A de 2018 e 2019, Copas do Brasil de 2018 e 2019, Campeonato Paranaense 2019, além de amistosos internacionais realizados no período.

Foram, ao todo, 34 partidas neste formato.

Como já divulgado em balanço apresentado pelo MPPR em 31 de janeiro deste ano, o saldo é positivo.

De acordo com o levantamento, que contabilizou os números relacionados aos jogos ocorridos entre maio/dezembro de 2017 e maio/dezembro de 2018, a força policial deslocada para a segurança nos dias de partidas (no estádio do Athletico e nas proximidades) apresentou uma redução de 14% - a média nos jogos com as duas torcidas era de 170 policiais militares e nos jogos do projeto-piloto foi de 151. Outro dado positivo foi a diminuição nas ocorrências de conflitos entre torcedores: nos jogos com a presença de duas torcidas, foram 28 registros. Nos de torcida única, 20.

Em relação às ocorrências envolvendo o patrimônio público, os registros de atos de violência entre torcedores nos terminais e tubos de ônibus da cidade também apresentou redução: foram 132 nos dias de jogos com duas torcidas e 109 nas partidas do projeto-piloto, o que representou uma redução de 17%.

No relatório, o 13º Batalhão da PM, que cuida da área onde se encontra o Estádio Joaquim Américo Guimarães, destaca como positiva a implementação da iniciativa, à medida que permitiu à corporação "aplicar o efetivo de forma mais eficiente tanto no evento quanto em outros ambientes públicos, ampliando assim os serviços prestados pela Polícia Militar, bem como dando maior sensação de segurança à população local".

O Poder Judiciário do Estado do Paraná, nas duas únicas oportunidades conhecidas em que foi acionado, também realçou a validade jurídica do modelo, sustentando que "o que assegura a lei é que o torcedor, de qualquer das agremiações, possa ingressar no estádio e acompanhar o seu clube, acomodando-se no local indicado em seu ingresso", bem como que não se vislumbra "como um direto assegurado pelos Estatutos Legais que seja destinado um espaço exclusivo e segregado, para que o torcedor visitante nele permaneça durante os eventos".

O projeto passou, com sucesso, tanto pelo crivo prático quanto jurídico.

A coragem das instituições envolvidas no projeto demonstrou que é sim possível cooperar para a erradicação da violência nos eventos desportivos, bastando que a vontade de mudar supere o conformismo com a incômoda realidade que durante décadas se perpetua nas praças de jogo.

No entanto, considerando que implementação do projeto "Torcida Humana" em dias de jogos do CAP se deu mediante adesão, inclusive não havendo oposição do Ministério Público quanto à uma tentativa de retorno ao modelo antigo de acesso das torcidas visitantes, com espaço reservado no estádio, e

CONSIDERANDO que há um esforço conjunto para propiciar a união dos clubes brasileiros das Séries A e B, mediante inclusive a criação de uma associação para tanto;

CONSIDERANDO que vários clubes solicitaram ao CAP o término do período de testes do formato mencionado, possibilitando o acesso usual de seus torcedores nas partidas disputadas com mando do Athletico;

CONSIDERANDO que os regulamentos da Conmebol expressamente preveem a segregação da torcida visitante em suas competições;

CONSIDERANDO que o clube selou um acordo com a torcida organizada "Os Fanáticos" para que, a fim de viabilizar a implementação do Boulevard na área outrora por ela ocupada no estádio, houvesse o seu deslocamento para o setor Coronel Dulcídio Inferior;

CONSIDERANDO que a própria torcida organizada, ademais, solicitou a permissão da entrada usual dos torcedores visitantes no Estádio Joaquim Américo, a fim de que também possa ela viajar e acompanhar as partidas do CAP realizadas fora da capital paranaense;

CONSIDERANDO que o CAP espera que o exemplo levado a efeito pelo projeto citado tenha conscientizado e contribuído para a melhoria da relação entre torcedores de agremiações adversárias;

CONSIDERANDO que o CAP compreende que o foco maior da violência em dias de jogos ainda está relacionado a confrontos em meio aos terminais de ônibus, ruas, praças e demais espaços públicos, esperando que as autoridades competentes possam seguir envidando esforços para contornar esse cenário;

CONSIDERANDO que o CAP espera que os representantes eleitos da sociedade dediquem espaço em suas pautas de trabalho para a consolidação de alterações legislativas que permitam o apenamento rigoroso daqueles que tumultuem o regular convívio social em dias de eventos desportivos; e

O Club Athletico Paranaense RESOLVE suspender a adesão aos termos do Projeto Piloto "Torcida Humana" do Ministério Público Estadual, esperando que, na prática, o bom relacionamento apresentado pelas torcidas locais e visitantes no período de testes siga prevalecendo mesmo em meio ao retorno do formato usual e, inclusive, estenda-se aos arredores do estádio, bem como em todo e qualquer espaço público de convivência social.

O CAP, por fim, reafirma seu compromisso com a volta das famílias aos estádios e com a erradicação da violência em dias de jogos.