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Tenório tenta presidência do Flu apoiado por mecenas e prega fim do ódio

Ricardo Tenório encabeça a chapa "Libertadores" na eleição do Fluminense - Divulgação
Ricardo Tenório encabeça a chapa "Libertadores" na eleição do Fluminense Imagem: Divulgação

Alexandre Araújo e Léo Burlá

Do UOL, no Rio de Janeiro (RJ)

07/06/2019 04h00

Candidato à presidência do Fluminense pela chapa "Libertadores", o empresário do ramo imobiliário Ricardo Tenório, de 58 anos, que foi vice de futebol em 2009 e 2013, chega à eleição tendo o apoio de Pedro Antônio, um dos idealizadores do centro de treinamento do Tricolor. No discurso, repetidamente palavras como união, austeridade e transparência foram utilizadas. Para ele, a marca do clube e a torcida serão aliados para sair da crise financeira pela qual o Flu atravessa. Tenório terá como adversário no pleito que acontece amanhã (8) Mario Bittencourt, que era seu aliado até o início de abril e com quem formou chapa na última eleição, em 2016.

"Não teve nenhum tipo de briga ou rompimento. Simplesmente, perfis diferentes, onde vemos de um lado um perfil eufórico, personalista, megalomaníaco, e, do lado de cá, um perfil austero, responsável, em que a gente consegue unir pessoas em torno de um objetivo só", disse, ao UOL Esporte.

Tenório ainda pregou o fim do discurso de ódio nos corredores do clube. Veja na íntegra o bate-papo com Ricardo Tenório. A entrevista de Mario Bittencourt foi publicada ontem (7).

Por que se candidatar?

"Me sinto preparado para exercer essa função. Me sinto capacitado para liderar esse processo de mudança. Estou formando uma equipe, que já divulguei, e, para fazer isso, você precisa ter diálogo, precisa ter condições de liderar esse processo. E, como disse, é uma missão, um sonho. Da outra vez, já estava participando do processo eleitoral de uma outra forma, só que entendi que, enfim... Naquela época se vendeu a ideia de que o Fluminense estava equilibrado financeiramente e, hoje, a gente vê que as coisas, realmente, não estavam do jeito que a gente imaginava. Além desse problema caótico das finanças, você tem uma guerra política dentro do clube, onde o ódio impera, os grupos não se conversam, as pessoas não se entendem. Existe um Fla x Flu interno e, na verdade, somos todos tricolores. Essa pacificação é necessária para que a gente comunique bem, a todas as pessoas de fora, aos parceiros, às confederações, federações, investidores, fornecedores, que o Fluminense está coeso, unido para que possa sair dessa situação. Então, diante disso tudo, minha candidatura está lançada. Não é minha. É de uma equipe. É de um projeto que essas pessoas abraçaram e eu entendo que esse momento é um momento de união. E, neste momento de união, estou me sentindo capaz de liderar esse processo".

Mas você fazia parte de uma outra coligação, onde estavam também Mário Bittencourt e Celso Barros, hoje adversários. Houve algum estopim para que a decisão de sair fosse tomada?

"Não houve discussão alguma, nenhuma briga. O que houve foi que ficou insustentável, não tive outra alternativa. Existia um projeto em que a gente abraçava o projeto de uma forma junta, unida, e quando vi que o projeto passou a ser um projeto de uma pessoa só, projeto personalista, entendi que esse não era o objetivo do chamado trio. E aí, não tive outra alternativa. Assim que saí, na verdade, várias pessoas me procuraram e entenderam que a gente não precisava ficar omisso nesta situação. Temos uma situação muito grave e, do outro lado, vejo risco, vejo um projeto personalista. Entendo do lado de cá, implementamos uma linha de austeridade, responsabilidade, e uma equipe bem capacitada para encarar essa situação. Não teve nenhum tipo de briga ou rompimento. Simplesmente, perfis diferentes, onde vemos de um lado um perfil eufórico, personalista, megalomaníaco, e, do lado de cá, um perfil austero, responsável, em que a gente consegue unir pessoas em torno de um objetivo só".

Você comentou que, quando deixou o trio, foi procurado. Então, não havia a ideia inicial de se candidatar?

"Na verdade, eu fiz uma carta onde eu comuniquei a retirada em função dos motivos que lá estão, por entender que os pensamentos eram diferentes, e falei que já servi ao Fluminense por duas vezes e que estaria sempre disposto a servir. Voltaria para minhas origens da arquibancada e assim ficaria. Quando disse que fui procurado, são pessoas, não foram grupos. E, enfim, tricolores que sempre estiveram presentes na vida do clube e aí a coisa foi se formando, a ideia foi sedimentando e falei: "Bom, então vamos construir uma candidatura juntos, uma candidatura de união, uma candidatura em cima de projeto, que pertenci há um tempo atrás, fiz parte da construção deste projeto e a diferença é como fazer. Como fazer funcionar, como colocá-lo em prática. E entendemos que tínhamos a obrigação de demonstrar uma equipe forte, projeto forte e união mais forte ainda. É o que estamos nos propondo e levando até agora na campanha".

Há algum incômodo em debater com quem era aliado até bem pouco tempo atrás? Após eleição, alguma possibilidade de diálogo?

"Nenhum tipo de incômodo. Tivemos debates e foi em alto nível. Debatemos ideias, cada um expôs a sua campanha. E quanto ao diálogo, é o que venho pregando. Depois que acabar a eleição, somos todos tricolores, todos queremos ajudar. Quem quiser ajudar, acho importantíssimo participar. Se for eleito, se assim o sócio quiser, ele já sabe que, comigo, o diálogo estará aberto. E pretendo implementar essa pacificação no Fluminense. Temos de parar com esse ódio que vinga lá dentro e só destrói. A gente acaba perdendo para nós mesmos".

Quando fala de ódio, são grupos políticos?

"Não são só grupos, são pessoas que carregam uma história de muitas disputas. Toda eleição, as amizades, às vezes, se desfazem. Pessoas pensam diferentes, mas não aceitam o contraditório. Isso é muito ruim. Hoje não cabe mais isso. Fluminense, hoje, vive uma crise de todos. Então, se a gente não unir em torno de um objetivo, que é sair dessa situação, a gente não vai conseguir. Não estou falando algo que é utópico e não estou falando algum tipo de heresia. Estou dizendo a realidade. A gente precisa parar, separar as contradições e lutar por um objetivo único, que é tirar o Fluminense sair dessa situação".

A dívida do Fluminense é enorme. Como gerir um clube desta forma?

"Com muito trabalho. Não tem mágica alguma ou outra alternativa a não ser muito trabalho. A gestão, não é só uma gestão de negócios. Ela é uma gestão de pessoas também. Quando se coloca uma equipe para trabalhar, tem de fazer uma gestão da equipe, tem de saber se comunicar bem com o torcedor e tem de cuidar da marca para que se gere receita. Como fazer? É trabalhando. Agora, de que forma? Sempre digo, vamos chegar com o Campeonato Brasileiro em andamento, em um momento caótico financeiro. Vamos ter de sentar com esses credores que engessam o fluxo de caixa, que estão aí penhorando as nossas receitas, para que eles entendam que para eles conseguirem resolver, precisamos ter o fluxo de caixa retornado para que a gente consiga equacionar esse fluxo de caixa e, assim, dar continuidade à gestão. Pagar o salário em dia é, evidentemente, uma obrigação, todo mundo sabe, mas ninguém cumpre. Estamos aí há muito tempo vendo salários atrasados, gerando crise... E acho que isso é fundamental para que se tenha um ambiente saudável de trabalho. E, aí sim, levar o Campeonato Brasileiro até o final do ano, com dignidade e em busca de outros compromissos que temos, que é a Copa do Brasil (entrevista foi realizada no último dia 4, antes da eliminação para o Cruzeiro, nas oitavas de final) e Sul-Americana. Planejamento, paralelamente, receitas para que em 2020, realmente, tenhamos a capacidade de investimento, coloque um time em campo à altura do Fluminense e dispute os títulos".

E caso vença a eleição, qual o primeiro ato?

"Primeiramente, tentar entender qual é a real situação financeira do momento. Chamar as pessoas, conversar, mostrar credibilidade de uma nova direção e tocar o clube no dia a dia. Evidentemente, minha equipe já está se preparando para isso. Algumas conversas que temos tido, já é nesse sentido. De imediato, tentar trazer um patrocínio, tentar conversar com alguns credores, tentar conversar com o poder público. Temos o ato trabalhista, tem muitas ações trabalhistas fora do ato e precisamos renegociar isso. Tem o Profut, que pelo que estamos ouvindo, as parcelas estão atrasadas e, se não me engano, entrou com uma liminar para não perder a condição de financiamento. Então tudo isso... Temos o Rafael Rolim, procurador do Estado, que vai assumir a pasta do jurídico, e temos o Ney Brito, que vai assumir a pasta de finanças e é capacitado e gabaritado para que a gente sente, forme a equipe e converse com os poderes estabelecidos para podermos dar continuidade a uma gestão saudável".

O tamanho do Fluminense o ajuda a sair dessa situação em quanto tempo?

"O Fluminense é enorme. Você tocou em um ponto importantíssimo, que é explorar a marca Fluminense. Então, quando mais você consegue trazer credibilidade dentro de uma gestão, mostrar trabalho, mostrar força e, principalmente, união, que é o que estou pregando para a marca ser fortalecida, você consegue vender melhor a marca. Então, "a marca do Fluminense vai ajudar" não, ela é a solução, junto com os torcedores, para que a gente saia dessa situação".

Falta credibilidade do Fluminense no mercado?

"Sim. Essas últimas gestões vêm acumulando inadimplências, não cumprimento de contrato, não avaliação dos riscos dos contratos que são assinados. Não se avalia o risco, não se avalia a capacidade de pagamento... Tudo isso gera uma instabilidade no mercado, onde o mercado, de uma forma geral, entende que o Fluminense não é um bom credor. Então, isso gera falta de credibilidade e queremos mostrar que isso vai mudar. Vamos trabalhar muito duro para que a gente consiga reverter esse quadro de instabilidade para que possamos cumprir com nossas obrigações".

Falando em credibilidade, recentemente, alguns contratos entre Fluminense e empresa parceiras terminaram de forma litigiosa...

"É isso. Uma não avaliação de um contrato comercial. Contrato comercial tem de avaliar não só o risco, mas como a capacidade de pagamento não apenas sua, mas do fornecedor também. Toda vez que se faz um contrato, uma parceria com outras empresas, é importante saber quem são essas empresas, avaliar os riscos dela no mercado e, consequentemente, se proteger dentro do contrato para que não se tenha essas rupturas constantes e que geram a falta de credibilidade e prejuízo para ambas as partes. É importante avaliar a capacidade de pagamento e riscos dos contratos. Isso tem de ser feito no Fluminense e não é feito. Não em procedimentos lá dentro que a gente entenda como são avaliados esses contratos. E isso já vem de muito tempo. A dívida hoje que o Fluminense tem, não só a fiscal, mas a trabalhista e a cível vem muito desta falta de planejamento, desta falta de avaliação, desta falta de entendimento da capacidade de pagamento do Fluminense. Se gasta mais do que se arrecada e acaba gerando uma dívida que é pior. O custo dessa dívida acaba sufocando o Fluminense, é altíssimo. Hoje, se tivesse sem dívida, com receita e despesa, o Fluminense seria superavitário. Entendemos que isso não pode continuar, que cada vez mais vai sufocar o clube".

Você tem o apoio de Pedro Antônio (entrevista foi feita antes de Pedro Antônio declarar apoio publicamente)?

"Não sei se o Pedro Antônio apoia o Tenório (entrevista foi feita antes de Pedro Antônio se manifestar), mas acho que, como prego a união e prego a união de grandes tricolores, que querem ajudar o Fluminense, não posso descartar o Pedro Antônio, que já demonstrou sua capacidade de ajuda, sua capacidade de trabalho e de fazer valer a valorização da marca Fluminense. Então, conto, sim, com todos os tricolores e com o Pedro Antônio também, se assim ele quiser".

Recentemente, uma matéria de "O Globo" mostrou que Pedro Antônio teve uma grande quantia em dinheiro bloqueada porque uma empresa em que era sócio majoritário esteve envolvida em um esquema. Tal apoio, pode representar algum risco?

"Zero de risco. Acho que é a vida pessoal do Pedro Antônio. Ele pode responder. Acho que a vida dele dentro do Fluminense é de voluntariado, de muita ajuda. Evidentemente, a gente sempre conversa sobre a maneira que se pode ajudar dentro de um projeto. Em momento nenhum isso poderia atrapalhar ou ter algum tipo de conotação. Acho que até essas pessoas se aproveitam desse momento da política para criar situações onde a gente denigre a imagem dos outros. Temos esse problema interno, como costumo dizer, de acabar com a imagem das pessoas, destruir biografias e de pessoas que querem ajudar o Fluminense. É preciso ter muita responsabilidade, preciso ter muita calma para que possamos avaliar e contar com pessoas que queiram, realmente, contribuir com o clube".

Você já disse, em mais de uma oportunidade, que quer "servir o Fluminense e não se servir do Fluminense"...

"É minha história no Fluminense. Eu sempre servi ao Fluminense e nunca me servi do Fluminense. Prego isso porque o cargo ao qual estou me postulando a exercer é um cargo voluntariado, é um cargo onde vou exercer uma função sem ser remunerado. Então, se estou me propondo a exercer um cargo voluntariado, estou me propondo a servir ao Fluminense e nada ter de volta, a não ser a alegria de poder exercer um bom trabalho e ter um excelente retorno, que é a paixão que nos move e, como disse, a missão que me cabe nesse momento".

Sua candidatura recebeu apoio de uma famosa torcida organizada do Fluminense. Como será a relação da gestão Tenório com as organizadas?

"Melhor relação possível, relação do diálogo. Em 2009, assim que assumi, naquela crise, tinha uma crise de relacionamento com a torcida e torcedores foram às Laranjeiras protestar, enfim, de uma forma mais agressiva. Pedi que reunissem os torcedores no salão nobre do clube. Seguranças ficaram preocupados e eu disse: "Pode colocar lá que eu vou subir". Perguntaram se eu queria que eles me acompanhassem, eu disse que não precisava e fui lá, conversei com eles de peito aberto, franco como sempre fui. Disse que estava chegando, que eles tinham de abraçar o time. Eles entenderam. Evidentemente, fizeram as reivindicações deles, legítimas, umas possíveis, outras não. Mas o diálogo estava aberto e eles abraçaram o time. Criaram, naquela época, o "Time de Guerreiros", que está aí até hoje. Então, temos de parar de estigmatizar o torcedor organizado. Existe o torcedor e existe o marginal. Isso é um problema de segurança pública, não é um problema do Fluminense ou da torcida organizada.

Evidentemente, eles têm de se comportar dentro da legalidade e eu prego muito isso. Venho conversando com os poderes estabelecidos. Converso com Ministério Público, conversei com secretaria de Governo, eles têm um projeto muito bacana em desenvolvimento e querem implementar, que é o "Dia do Jogo", para que a gente tenha segurança, para que os torcedores possam estar no estádio com segurança, para que todos possam se divertir, levem as famílias e que as organizadas também participem de forma pacífica, levando seus equipamentos, instrumento de música e fazendo a festa. É isso que todo mundo quer e acho que o Fluminense tem de se fazer representar junto ao seu torcedor para que o torcedor tenha segurança e traga isso de uma forma geral. Então, o Fluminense vai se fazer representar. Na minha gestão, tenho o projeto de criar uma diretoria de relacionamento com o torcedor para que o Fluminense se represente nessa relação do torcedor junto aos poderes estabelecidos, que façamos uma grande comunhão de paz e tranquilidade porque o futebol é um espetáculo e as famílias têm de participar".

Quais os planos para o futebol?

"A gente vai entrar com o Campeonato Brasileiro em andamento. Vamos conversar com a comissão técnica e diretoria, não pretendendo mexer absolutamente em nada neste momento. Acho que temos de entender qual é o projeto dos profissionais que lá estão, passar a nossa filosofia de trabalho para que eles entendam a nova direção e dar tranquilidade para o ambiente ficar equilibrado e a gente consiga desenvolver um bom trabalho. Temos uma janela que vai abrir agora, no meio do ano e em um recesso em função da Copa América, vamos entender da comissão técnica quais são as necessidades e as possibilidades do Fluminense em assumir compromissos, como disse, vendo nossa capacidade de pagamento, vendo os riscos dos contratos que temos pela frente e entendendo também quais as necessidades do treinador e comissão técnica de uma forma geral. Então, isso vai ser visto e conversado para que possamos ter um ano de 2019 digno e de forma competitiva. A partir de 2020, podemos fazer um planejamento mais de médio e longo prazo para que a gente busque coisas maiores, que é onde o Fluminense deve estar. Esse é o objetivo e minha primeira medida dentro do futebol".

Algum nome em vista?

Sempre fica na expectativa de se trazer um grande jogador, de uma ideia que imediatamente tem de montar um time altamente competitivo. Óbvio que queremos montar um time altamente competitivo. Fluminense é enorme e não teria de ser diferente. Agora, isso passa por um projeto. Não adianta eu dizer para você: "Vou trazer o Thiago Silva porque o Thiago Silva é apaixonado pelo Fluminense e quer encerrar a carreira no Fluminense". Claro que eu quero trazer o Thiago Silva e o Thiago Silva quer vir, mas, para isso, precisar ter uma estrutura. E essa estrutura não é apenas financeira, é uma estrutura de planejamento, comercial, de espaço. E eu entendo que essa estrutura que ele comenta é um projeto. Então, quando venho conversando com patrocinadores, de alguma forma, e também com fornecedora de material esportivo, que o Fluminense vai mudar nesse segmento, venho conversando também sobre projetos. Não só sobre dinheiro diretamente, mas também para repatriação, projetos em cima de um jogador, projetos em cima de jogadores já com a gente, temos aí o Ganso, que precisa ser melhor explorado, acho importante explorar a imagem de um ídolo, de um craque. Isso tudo precisa ser revisto e é o que pretendemos fazer".

Quais os planos para o programa de Sócio Torcedor e como enxerga o papel da torcida em sua possível gestão?

"Tenho falado muito sobre sócio-torcedor. Temos um plano mal comunicado, ao meu ver, mal elaborado. Podemos melhorar muito, existem exemplos aí a fora. Tem o Benfica e Sporting, em Portugal, aqui dentro tem o caso do Bahia, que fez uma fidelização muito bacana com seu torcedor. Com o Maracanã com administração do Fluminense, compartilhada com o Flamengo, onde o Fluminense é protagonista ao lado do Flamengo, vamos poder fazer ações no Maracanã, envelopar o Maracanã com as cores do Fluminense, trazer o torcedor para um programa onde ele se mantenha dentro do programa porque há uma oscilação muito grande. Da última eleição para cá, o número de sócio-torcedor diminuiu em relação ao número de aptos a votar. É importante a gente entender que não só trazer o torcedor para comprar o plano e investir no Fluminense, mas mantê-lo ali, em cima de ações diretas e dentro de um programa claro. Além disso, cuidar do torcedor fora do Estado, onde o Fluminense faz jogos pelo país e o torcedor é muito mal tratado, não tem acesso ao ingresso, não tem acesso ao estádio, não sabe como conduzir, por onde entra... É importante ter alguém nesse relacionamento que estou pretendendo ter com o torcedor no Estado em que for jogar, na capital ou outra cidade, para que possamos promover ações, fazendo com que ele tenha um plano onde ele tenha retorno de premiação e consiga se manter motivado para que continue investindo no clube. E isso, cada vez, aumentando mais.

Isso depende de tecnologia. Temos uma coisa, parece, a ser implementada nessa gestão, que me foi comunicado que você coloca toda a tecnologia a favor dessa comunicação, desse relacionamento. Isso precisa ser feito. Precisamos entender se precisa de algum investimento ainda porque isso é prioridade. A gente precisa trazer esse torcedor, fidelizar ele para que ele gere uma receita mensal ao Fluminense".

Apenas mal comunicado?

"Ele foi muito modificado. Planejou-se mal. Lança um plano mal planejado, ele não dá certo direito, você vai lá e muda. Aí, tira o cara, o sócio X passa a ser sócio Y naquele momento, por uma promoção, tenta bonificá-lo, daqui a pouco volta e ele fica tonto. Precisamos ser claro, com planejamento de médio e longo prazo para se alcançar um número de torcedores interessante para que se tenha uma receita fixa mensal, que se possa, realmente, contar com ela. Quando digo "claro, transparente e bem comunicado", é que tem de movimentar pouco as opções, mas que seja dinâmico nas promoções, na manutenção, na fidelização do torcedor. Isso sim é importante".

E tem o sócio que frequenta o clube

"Sócio do futebol tem as receitas destinadas para o futebol e para lá elas vão 100%. O sócio do clube, que é o sócio patrimonial, proprietário ou contribuinte, ele tem a receita destinada ao sustento do clube, das Laranjeiras. Precisamos fazer, no Fluminense, um centro de custo onde a gente entenda que cada setor tem um custo e responde pela sua receita. Entender o perfil daquele sócio, se vai ao clube para a natação, para jogar tênis ou para a escolinha A, B ou C. Precisamos entender isso para fazer com que as coisas melhores e o esporte de alta performance, os olímpicos, aliados a projetos de incentivo, possamos montar um time que possa disputar essas modalidades. Pretendo que o futebol vá 100% para o CT Pedro Antônio e Laranjeiras seja uma unidade impendente".

Fernando Leite, presidente do Conselho Deliberativo, é um dos nomes que o apoia. A assessoria chegou a divulgar que não poderia haver boca de urna na eleição, depois, o próprio Fernando mudou o tom, mas disse que haverá regras. Essa decisão passou pela chapa?

"Não, absolutamente. Fernando tem autonomia. Ele é o presidente da Assembleia, então, é uma decisão dele, da equipe dele. Não passou nada pela gente. Ele tem todo o direito de criar, flexibilizar regra e cabe a gente a cumprir. Estamos vivendo em uma democracia, informação, evidentemente, tem de ser dada, claro que com respeito às regras, aos candidatos e ao eleitor que for lá votar. Às vezes, as coisas acontecem em um nível de emoção grande e, talvez, a preocupação dele seja nesse sentido".

Você teve participação em uma empresa do ramo imobiliário que foi apontada por ter atuação irregular...

"Esse assunto é um assunto meu, particular. Prefiro não desenvolver porque existem muitas ilações, mas especulações. Sou um empresário que tenho minha vida limpa. Então, prefiro não desenvolver esse assunto".

Você se mostrou incomodado com uma matéria do UOL, sobre o evento que anunciou Wagner Victer como seu vice, pelo fato de dizermos foi secretário do ex-governador Pezão

"Não teve incômodo. A conotação que sempre se dá é negativa. Acho que tem de ter uma conotação positiva. Esse mesmo secretário do governador Pezão foi a pessoa que reconstruiu a Cedae, com uma gestão fantástica, que tem um duplo A na escala de um avaliador de risco. Então, tirou uma empresa falida, quebrada e colocou com um duplo A. Isso tinha de ser alvo da matéria de vocês, alvo da qualificação do meu vice geral".

Esta eleição que será disputada é uma eleição que foi antecipada. Como enxerga este momento do clube?

"O presidente atual achou que não tinha mais condições de continuar e resolveu criar uma assembleia onde o sócio decidiu que a proposta dele de antecipar a eleição era necessária. Infelizmente, ocorre no meio da temporada, isso gera algum tipo de risco, mas é o que se tem, é o que temos de encarar. É missão que estou encarando de peito aberto e vejo nisso um processo democrático que vai culminar no dia 8".

Como sua família está vendo essa candidatura?

"Tenho 58 anos, sou casado, tenho três filhos, dois netos. Tenho uma vida equilibrada emocional e profissionalmente. Eles entendem que, em função da minha paixão, esse trabalho voluntário, de poder dedicar esse tempo ao Fluminense, poder dedicar a minha capacidade ao Fluminense para que eu possa cumprir essa missão. A família sente, evidentemente. Não vou dizer que todos não ficam preocupados, mas eles entendem e eu tenho total apoio. Se não fosse assim, não faria. É uma coisa que está bem equacionada, eles estão preparados e estarão ao meu lado, com certeza".

Em certo momento, Abad foi alvo de críticas e memes. Teme em perder a liberdade de fazer coisas corriqueiras?

"Acho que, evidentemente, se tem uma exposição maior que a sua vida tem até esse momento. Quando se assume um clube de futebol com o tamanho que é o Fluminense, se tem a exata noção de que essa exposição se torna muito grande. Mas sendo transparente e muito franco, sou aberto ao diálogo. Não fujo, encaro as situações com muita clareza e, com isso, o torcedor que, como eu, que sou torcedor, vai entender que meu trabalho é nesse sentido e vai abraçar. Evidentemente tem as críticas, os momentos difíceis, mas ele vai abraçar a causa, vai entender que o Fluminense precisa entrar em uma diretriz de crescimento, de modernidade. Estou montando uma equipe para que, junto comigo, trabalhemos em conjunto, dívida responsabilidades e possamos levar o Fluminense às glórias. O objetivo é o mesmo e eu tenho a expectativa super positiva em relação a isso. Não temo nada fora da legalidade, mas sei da exposição, mas estou preparado para enfrentar isso".

Primeira eleição, em alguns anos, sem um candidato da FluSócio

"Nós já fomos oposição ano passado à essa atual gestão. Natural que a gente siga em oposição ao que vem acontecendo no Fluminense durante muito tempo. A diferença é como você tem a capacidade de modificar isso e entramos nessa disputa, que é saudável, democrática e que cada um faça seu eleitor a diferença entre uma candidatura e outra e demostre quais os planos e projetos".