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Apoio a goleiro Jairo após críticas ajudou a criar Democracia Corinthiana

Jairo defendeu o Corinthians por mais de três anos e conquistou dois títulos paulistas, em 1977 e 1979 - José Manoel Idalgo/Corinthians
Jairo defendeu o Corinthians por mais de três anos e conquistou dois títulos paulistas, em 1977 e 1979 Imagem: José Manoel Idalgo/Corinthians

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

07/02/2019 04h00

A Democracia Corinthiana surgiu em 1982 e ganhou força na temporada seguinte para marcar a história do futebol brasileiro. Dois anos antes de eclodir, porém, o movimento político de jogadores do Corinthians apresentou os primeiros indícios, ainda de forma tímida. Na ocasião, o personagem central foi o goleiro Jairo, que morreu na última quarta-feira (6), aos 72 anos, após lutar contra um câncer no rim.

O episódio, que se tornou uma espécie de prólogo da Democracia Corinthiana, ocorreu em maio de 1980, depois de uma crítica pública do presidente alvinegro Vicente Matheus a Jairo. Para o dirigente, o arqueiro tinha como evitar um gol sofrido na derrota do Corinthians por 1 a 0 para o Coritiba.

Segundo o mandatário alvinegro, o jogador estava distraído no lance e, por isso, apesar da estatura, não conseguiu deter o chute de longe do adversário. A atitude de Matheus fez o elenco criar um grupo de apoio a Jairo. Sob o comando do lateral-direito Zé Maria, alguns jogadores deram declarações no dia seguinte à derrota do Corinthians no Paraná. Um deles foi Sócrates, que fez questão de eximir o goleiro de culpa.

"Chutou e marcou [o atleta do Coritiba]. Não vamos analisar o comportamento de um companheiro. Não podemos acusar Jairo de falha, porque se ele errou, nós erramos também, porque não fizemos nada lá na frente", disse à época o meio-campista, que se tornaria um dos maiores líderes da Democracia Corinthiana dali a dois anos, ao lado de Zé Maria, Casagrande e Wladimir.

Jairo Corinthians - Reprodução - Reprodução
Críticas de Vicente Matheus a Jairo resultaram em um movimento de apoio ao arqueiro no elenco corintiano
Imagem: Reprodução

O apoio do grupo corintiano a Jairo não ficou restrito apenas às declarações à imprensa. No jogo seguinte, disputado três dias depois, o Corinthians goleou o Grêmio por 5 a 0 no Morumbi. Nas celebrações dos gols, toda a equipe alvinegra se dirigiu a Jairo para abraçá-lo na área.

De acordo com Zé Maria, esse tipo de comportamento era comum anos antes de o movimento ganhar força em 1982 e explodir em 1983 com a conquista do bi paulista em meio à busca de redemocratização do Brasil.

"Era uma manifestação que a gente gostava de fazer. Quando acontecia isso, gente se juntava para dar moral para o jogador. A gente tentava fazer o possível para mudar a situação", afirmou o ex-lateral em entrevista ao UOL Esporte

Zé Maria lembrou ainda que a mesma postura do elenco ocorreu em 1981, após falha do goleiro César. Assim como aconteceu com Jairo, ele recebeu apoio de muitos companheiros de grupo. "Era um movimento que já acontecia. A Democracia foi o ápice, com a participação de muita gente. Foi um momento inédito", contou.

Jairo - Reprodução - Reprodução
Jairo passou 1.132 minutos sem sofrer gols pelo Corinthians no Brasileirão 1978 e é dono do recorde do torneio
Imagem: Reprodução

Seis meses depois de ver o elenco sair em sua defesa, ainda com Matheus na presidência, Jairo foi negociado com o Náutico pela diretoria corintiana. O presidente do clube, por sua vez, deu lugar a Waldemar Pires em 1981, ano em que a Democracia começou a amadurecer ainda mais.

No Corinthians, em pouco mais de três anos, Jairo entrou em campo 190 vezes. Até hoje, o goleiro, também conhecido como Pantera Negra, sustenta o recorde de maior série sem sofrer gols no Campeonato Brasileiro - foram 1.132 minutos (11 jogos inteiros, além de dois jogos incompletos), em 1978.

"O Jairo transmitia muita tranquilidade e segurança para gente. Ele sempre nos alertava. E era um grande ser humano. Era um cara positivo, nunca pensava no lado negativo", frisou Zé Maria, que lamentou a morte do amigo.

Jairo conquistou dois títulos paulistas pelo Corinthians. Em 1977, disputou o segundo jogo da final contra a Ponte Preta. Dois anos depois, foi titular nos três duelos decisivos diante da mesma Ponte. O arqueiro, que chegou a defender a seleção brasileira em 1976, também brilhou com a camisa do Coritiba - ele é o recordista de jogos pelo clube e se sagrou campeão brasileiro em 1985.

Jairo estreou no Corinthians na Copa Libertadores de 1976

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