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Cruzada do São Paulo por 'bodes expiatórios' se repete e atinge Ceni

Rogério Ceni comandou o São Paulo por 37 partidas nesta temporada - Robson Ventura-11.jun.2017/Folhapress
Rogério Ceni comandou o São Paulo por 37 partidas nesta temporada Imagem: Robson Ventura-11.jun.2017/Folhapress

Bruno Grossi e José Eduardo Martins

Do UOL, em São Paulo (SP)

30/08/2017 04h00

Rogério Ceni foi demitido do São Paulo há 58 dias. De lá para cá, o time já fez 11 partidas, teve Pintado como interino, contratou Dorival Júnior e segue mergulhado na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro. Ainda assim, o trabalho do "Mito" como técnico segue como alvo de dirigentes. A administração que resolveu dar chance ao treinador agora o aponta como um dos responsáveis pela crise, a ponto de expor o ídolo em reunião com conselheiros na semana passada.

O tratamento desde a demissão tem incomodado Ceni, como contou seu pai, Eurydes, em entrevista ao UOL Esporte. Os cartolas tentam se distanciar de tudo o que aconteceu no futebol são-paulino desde dezembro de 2016. Ou alegam que não faziam parte da gestão anterior do presidente Carlos Augusto de Barros e Silva ou justificam que Rogério tinha autonomia em seu trabalho.

Essa autonomia, porém, foi concedida a um técnico novato pela própria diretoria, que agora reclama de contratações fracassadas que foram indicadas por Ceni, como Neilton, Thomaz, Denilson e Cícero. O último, inclusive, foi afastado do elenco principal e liberado para buscar novo clube, mas decidiu permanecer no Tricolor até dezembro. O ex-goleiro pode ter errado na avaliação, mas ninguém o barrou.

Ao centralizar boa parte do peso pela luta contra o rebaixamento em sete meses de trabalho de Ceni, o São Paulo e seus dirigentes atingem a imagem do ídolo e rasgam o discurso apresentado desde o início do ano. Antes, cada novidade tática ou de metodologia nos treinos era exaltada, cada ideia era tratada como inovadora e cada deslize, tropeço ou eliminação era defendido com veemência. Com a demissão, tudo se esgotou.

Processos do tipo têm sido recorrentes no São Paulo da gestão Leco. Primeiro, uma figura é cercada de elogios, colocada como responsável por melhorias no clube e um pilar para a construção de uma nova era. Depois, esses feitos são diminuídos e problemas nunca antes citados são tratados como imperdoáveis. Exemplos dessa mudança drástica passam pelo antigo diretor de futebol, Luiz Cunha, e pelos auxiliares Pintado e Michael Beale.

Cunha trabalhou no período em que Edgardo Bauza era o treinador. O time custou a engrenar e o diretor era apontado como peça essencial para levantar a confiança dos jogadores e recuperar Michel Bastos, que teve papel importante na Copa Libertadores da América de 2016. Quando decidiu deixar a diretoria por discordar da compra de Cueva, efetuada durante as negociações para ficar com Maicon, Cunha passou a ser persona non grata, cujo trabalho seria irrelevante e cercado de intenções sobre levar profissionais de Cotia para o CT da Barra Funda. Problemas que nunca haviam sido acusados antes da ruptura com a gestão.

Não entra aqui nenhum juízo de valor sobre se essas figuras eram 100% eficientes ou 100% ruins em suas funções. É uma demonstração do peixe vendido e, em seguida, desvalorizado pelo próprio São Paulo. Como Pintado e Beale, que foram de auxiliares competentes e peças decisivas a personagens que traziam problemas internos ou pouco acrescentavam ao Tricolor.

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