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Ex-artilheiro do Santos, Guga desistiu de ter lotérica após 10 assaltos

Guga em treinamento do Santos em 1994 - César Itiberê/Folha Imagem - César Itiberê/Folha Imagem
Imagem: César Itiberê/Folha Imagem

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

28/06/2016 06h01

Carrasco do Corinthians. Assim era conhecido Guga, ex-atacante do Santos que, ao longo de sua passagem de três temporadas pelo clube da Vila Belmiro, marcou 74 gols, foi artilheiro do Campeonato Brasileiro de 1993 e, para alegria dos santistas, transformou o arquirrival do Parque São Jorge em sua principal vítima. Foram quase dez gols contra o adversário, sendo seis deles em apenas dois jogos, três em cada: 3 x 1 no Paulista 1992 e 4 x 3 no Paulista 1994.

Aos 52 anos, Guga vive hoje como guia turístico e é dono de uma escuna para passeios em Ilha Grande, local paradisíaco localizado no Rio de Janeiro. Mas ainda não descarta voltar ao mundo do futebol, de preferência com algo ligado ao Santos, como uma escolinha de futebol. Mais de 20 anos depois, o clube da Vila Belmiro ainda é marcante na história de Guga, que chegou à Baixada Santista em 1991, depois de uma passagem de sucesso pela Inter de Limeira.

“Eu fui vice-artilheiro do Campeonato Paulista pela Inter de Limeira, o Raí foi o artilheiro... Foi aí que eu me destaquei e fui para o Santos. Eu cheguei ao Santos em dezembro de 91, o treinador era o Pepe”, recorda Guga em entrevista ao UOL Esporte. Daí para frente, nada de títulos, mas muitos gols, especialmente contra o Corinthians, como recorda o ex-jogador.

Guga, ex-atacante do Santos - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

“Eu tinha muita sorte. E mesmo o Santos não tendo conseguido um título, a gente sempre conseguia vencer. Em duas oportunidades eu consegui fazer três gols em cada jogo, então isso marcou muito a minha história no Santos. A gente não conseguia título, mas tinha que vencer o Corinthians, então a pressão em cima de nós jogadores era muito grande. Contra o Corinthians era diferente... A gente podia estar numa fase difícil, mas quando jogávamos contra o Corinthians era de igual pra igual e a gente conseguia sempre bons resultados. E fez com que eu me tornasse o matador de gambás por fazer vários gols no Corinthians”, lembra.

 

Dentre os oito gols marcados em 11 jogos contra o arquirrival, Guga cita dois que, segundo ele, foram os mais especiais: ambos marcados nos dois jogos que fez hat-trick (relembre no vídeo acima os seis gols marcados por Guga nas vitórias de 3 a 1 e 4 a 3, pelo Campeonato Paulista).

Todos os gols que eu fiz no Corinthians foram especiais, mas tem dois: aquele de meia bicicleta, 3 a 1, no Morumbi, e nos 4 a 3 aquele gol de cabeça que o Índio [lateral] vai ao fundo, cruza e eu subo no meio da zaga do Corinthians. Subi muito alto e consegui cabecear no canto. O Ronaldo fica estático no gol e a gente consegue vencer por 4 a 3, e eu fiz três gols e a torcida do Santos foi ao delírio com este jogo porque a gente conseguiu virar. O Corinthians era um timaço naquela época e a gente sempre conseguia bater de frente contra eles”, diz.

Época de ‘vacas magras’


Apesar das constantes vitórias sobre o Corinthians, a fase do Santos não era das melhores. Pelo contrário. O time acumulava uma sequência sem títulos e vinha sendo bastante cobrado pelos torcedores, como recorda Guga. “Foi uma época difícil, onde havia muitas cobranças e mesmo assim a gente ainda conseguiu ter o êxito de alimentar a esperança de conquistar um título. Era uma época muito difícil para gente, as outras equipes tinham mais dinheiro, tinham mais poder de contratação, mas o fato de eu ter sido artilheiro daquele time foi a coisa mais maravilhosa que aconteceu na minha vida”, conta o ex-atacante, que ainda recorda outras dificuldades que o elenco santista encarava na época.

“[Nossa geração] roeu muito [osso], porque a gente só tinha o estádio, não tinha o CT. Quando chovia então a gente tinha que ir lá para o Guarujá ou ir até ao batalhão do Exército para fazer treinamento. Às vezes não tinha nem onde treinar, então era uma época muito difícil, uma época que o Santos não tinha tanto dinheiro para poder investir. Foi uma época dura. Hoje já é bem diferente, mas valeu a pena, faz parte da nossa história”, acrescenta Guga.

Nova realidade no futebol

O ex-jogador relembra que a realidade do futebol nas décadas de 80 e 90 era totalmente diferente do que acontece no mundo atual. Ele cita os curtos contratos que os jogadores tinham de assinar e brinca ao dizer que, se jogasse hoje, estaria na Europa, milionário.

Trazendo para os dias atuais eu estaria na Europa, com certeza, milionário [risos].

“A gente fazia contrato de dois meses, três meses, seis meses... Então a gente sempre tinha que estar no auge para poder renovar contrato. Não é como hoje, onde o jogador aparece do nada, faz uns dois, três golzinhos, já ganha 200 mil e faz contrato de cinco anos. Na minha época eu cheguei a jogar em três clubes em um ano: em 90 eu iniciei no Flamengo, joguei quatro meses, fui para o Internacional, joguei quatro meses, e depois eu joguei o Brasileiro pelo Goiás e quase eu fui artilheiro. Só não fui porque eu quebrei o dedinho do pé... O Túlio foi o artilheiro com 11 gols em 1989. Trazendo para os dias atuais eu estaria na Europa, com certeza, milionário [risos]”, brinca Guga.

10 assaltos em lotérica e novo negócio

Depois de encerrar a carreira aos 37 anos jogando pelo Cabofriense, em 2001, Guga largou o mundo do futebol e foi para o Rio de Janeiro, onde abriu duas casas lotéricas. Não deu certo. Ele teve de conviver com dez assaltos e, em um deles, chegou até a correr risco de vida.

Uma vez eu tive as duas [lotéricas] assaltadas no mesmo dia, no final de 2005. Aí eu resolvi vender.

“Depois que eu parei de jogar futebol eu fui dono de casa lotérica, mas a violência no Rio de Janeiro é muito grande, tive dez assaltos na loja. Uma vez eu tive as duas assaltadas no mesmo dia, no final de 2005. Aí eu resolvi vender, vendi as duas e comprei um salão de festas e a Escuna Pavarotti”, conta Guga, que ainda tem a escuna e faz passeios por Ilha Grande.

“Vai fazer 12 anos que eu tenho a escuna. Em Angra a gente tem a casa, onde o barco fica, e eu tenho vários grupos de São Paulo quem vêm passear comigo. Levo para o Abraão, que é a praia onde se concentram as pousadas. Eles se hospedam e ficam dois, três dias passeando comigo. Eu tenho a página no Facebook, as pessoas ligam antes, combinam preço, dia, a hora que vai chegar, e a gente acerta. E passam comigo o final de semana dentro da escuna”, completa.