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UOL na terra de Ibra: atacante já sofreu abaixo-assinado de pais de colegas

Gustavo Franceschini

Do UOL, em Malmo (Suécia)

17/12/2015 06h00

Faz tempo que Zlatan Ibrahimovic se tem em alta conta. A arrogância que hoje é uma peça de marketing para o astro do PSG já foi, no passado, um obstáculo na carreira. Em visita a Malmo, cidade natal do atacante, o UOL Esporte conversou com quem viu os primeiros passos do astro e eles contam que a autoconfiança quase lhe tirou do primeiro time da carreira.

"Eu trabalhei com ele dos 14 aos 17 anos, era uma espécie de assistente-técnico. No Malmo [clube em que Ibra se profissionalizou], ele não era nosso melhor jogador. Ele oscilava muito. Podia fazer três gols em um jogo e nada no outro. Os pais dos outros meninos reclamavam dele, achavam ele meio preguiçoso", disse Hans Zielinscki, que hoje trabalha na equipe de olheiros do Malmo.

"Ele é, de fato, mais arrogante que o normal para os suecos. As pessoas estranham. Os pais chegaram a fazer um abaixo-assinado para que ele saísse do time. Só que o clube não levou em consideração e o manteve", conta Johan Erichs, membro da diretoria do Malmo e organizador do Zlatan Tour, um passeio de bicicleta pelos pontos marcantes da vida do craque na cidade.

Malmo superou o "trauma" e hoje ama Ibra

A atração turística é um bom exemplo de como Malmo hoje se relaciona com o filho ilustre. Terceira maior da Suécia, a cidade portuária se despediu de Ibra em 2001, quando ele trocou o clube local pelo Ajax. Na época, ele rejeitou o Arsenal por se sentir ofendido com a ideia de ter de passar por uma avaliação do treinador. Ao decidir-se pela Holanda, viajou reclamando de que teria recebido menos do que merecia na transferência.

A postura nunca mudou. No começo de 2014, a Nike decidiu faturar com isso e lançou a campanha "Dare to Zlatan" ("Desafie Zlatan", em tradução livre), que brinca com a suposta "infalibilidade" do craque e o coloca como imbatível. Ibra, por sua vez, reforçou o estereótipo com respostas afiadas aos jornalistas. Certa vez, por exemplo, um repórter lhe perguntou que presente daria à esposa. "Nada, ela já tem Zlatan", rebateu ele.

As atitudes deixaram uma má impressão que perdurou por anos, mas hoje está quase toda no passado. Ibra é, para todos os efeitos, um patrimônio da cidade. "Há cinco anos, a associação de clubes da cidade deu um prêmio a ele pelos serviços prestados. Ele é um ótimo garoto-propaganda para nós, traz uma imagem muito positiva de Malmo", disse Leif Almo, presidente do Enighet, clube de artes marciais em que o atacante treinou taekwondo quando adolescente.
 

A periferia sueca nunca saiu de Ibra

As homenagens não pararam por aí. Na última visita que fez à cidade, há quase um mês, Zlatan viu uma enorme letra "Z" ser projetada no maior prédio de Malmo antes do jogo do PSG contra o time sueco pela Liga dos Campeões. Em 2010, um partido local tinha como promessa de campanha construir uma estátua do jogador em seu bairro de origem.

O violento Rosengard, onde Ibra cresceu, é lotado de referências a ele. A ponte que marca o início do distrito, por exemplo, é marcada com uma frase dele. "Você pode sair de Rosengard, mas Rosengard nunca sai de você", diz a inscrição, pouco acima de uma representação do sorriso do jogador feita por crianças da região.

No coração do lugar, bem em frente ao prédio em que Ibra viveu parte da infância, está a Zlatan Court, quadra de cimento que a Nike bancou no local em parceria com a Prefeitura em 2007. A praça esportiva tem a silhueta de Ibra, uma frase de sua autoria e os pés do jogador, que esteve lá na inauguração.
 

Ibra consegue limpar a imagem da cidade

Tudo isso está no tour oferecido por Johan, que teve a ideia de explorar a imagem do craque em um negócio pessoal durante uma viagem à Austrália. "Olhava o noticiário e só via Malmo aparecer por causa das bombas, dos protestos, das mortes das gangues e da briga entre bandidos e polícia. Decidi que deveria investir em dar à cidade uma imagem mais positiva", disse ele à reportagem. O passeio existe há dois anos e meio e já atendeu mais de 500 turistas, segundo o dono do projeto.

Nas lojas do centro comercial ou nos bairros mais afastados, Ibra também serve como "isca". O Enighet, por exemplo, se orgulha de sua longa tradição (mais de 120 desde a fundação) em diferentes artes marciais. Na sede do clube, porém, um dos slogans mais chamativos faz referência ao jogador. "Zlatan já entrou. Entre você também", diz o cartaz, que é levado às comunidades carentes onde os professores tentam captar novos alunos.

"Há dois meses a princesa da Suécia [Madeleine, quarta na linha de sucessão] ia nos fazer uma visita ao lado do príncipe. Nós só pudemos avisar os alunos um dia antes para não criar tumulto. Só dissemos que ia vir alguém da realeza. Perguntaram: 'Quem vai vir? O Ibra?'", conta Leif Almo, presidente do Enighet.

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