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Assédio e provocações. Torcedoras comentam o machismo no futebol

Daniel Lisboa

Do UOL, em São Paulo

15/12/2015 06h00

Os últimos dois meses ficarão marcados como o período em que as mulheres mostraram sua força no combate ao machismo. Em manifestações ou campanhas pela internet, elas mostraram que já passou da hora de alguns homens reavaliarem seus valores. Mas, e aquelas que amam o futebol, o que têm a dizer sobre o machismo nesse mundo que sempre foi tão masculino? O UOL Esporte perguntou, e oito delas compartilharam suas experiências e opiniões.

A publicitária Maria Guimarães, 29 anos, segue o Flamengo desde a adolescência, apesar de viver fora do Rio. Vai ao estádio quando o time joga em São Paulo.

"Quando estou lá dentro (do estádio), às vezes fico intimidada pelo assédio dos caras que tentam puxar conversa, se aproximar de maneira agressiva e desrespeitosa. Na campanha do Brasileiro de 2009, lembro de ter ido a um jogo e uns caras se aproximarem tentando me abraçar na hora do gol, tentando se aproveitar da situação. Foi horrível. Eu só queria comemorar aquele momento tão incrível".

"O que mais me incomoda é quando eles (os homens) acham que eu não entendo de futebol só porque sou mulher, ou quando dizem 'pra mulher até que você sabe bastante, hein'. Fora o popular 'nossa, já que você sabe tanto, explica a regra do impedimento'".

Fernanda Magliocco, 26 anos e bibliotecária, é palmeirense desde que "se conhece por gente". Também vai a jogos de outras equipes, já conheceu diversos estádios e esteve em praticamente todos os jogos no Allianz Parque desde que voltou de um tempo morando em Curitiba.

"O que passei (em estádios) não foi muito diferente do que qualquer mulher passa na rua: o assédio. Mulher andando na rua com camisa de time sempre é assediada. Os caras realmente agem como se fosse um convite, 'olha, tô de Palmeiras! Fala pra mim que por causa dessa camisa agora você  também é palmeirense!', ou coisa parecida".

"Recentemente, observei como os homens tratam as moças que geralmente promovem algum produto na porta do estádio, ou com meninas que promovem qualquer coisa durante o intervalo nos jogos. É um pouco desesperador. Muitos agem como se ela estivesse lá pra ser observada e devorada pelos olhos. Como se elas estivessem lá para satisfazer a imaginação e prazer de todos eles. Mas também acho que isso não é uma exclusividade do estádio".

Thalita Pires tem 34 anos e é jornalista. São-paulina, frequenta o Morumbi desde os 19 anos.

"Antes de ter uma certa autonomia, eu não pude ir ao estádio. A proibição estava muito ligada à violência que reinava nos estádios quando eu era criança e adolescente, mas isso também é um sintoma machista. Os trogloditas faziam com que o estádio fosse um ambiente masculino com a selvageria". 

"O futebol feminino continua patinando, as editorias de esporte usam as mulheres apenas como enfeites, concursos de musa. Então o esporte, e o futebol em particular, continua muito machista. O que pode ter melhorado é a facilidade em ir ao estádio. Mas isso não teve nada a ver com enfrentamento do machismo, então não me animo muito".

A webdesigner Nayara Perone tem 28 anos e segue o Corinthians em estádios desde 2001. Não perde um jogo do time em casa.

"Já vi coisas absurdas com outras mulheres, desde homens mexendo com mulheres, até gritos em coro - felizmente extintos atualmente – em que a torcida gritava quando via alguma mulher com roupas que considerava chamativas. Ou mexerem com jornalistas mulheres que estão trabalhando em campo. Atualmente, o que é totalmente desnecessário e machista é o combo FPF-torcedores que, durante o Paulistão, contratam 'cheerleaders' que dançam no campo no intervalo e a maioria dos homens fica na arquibancada chamando as moças de 'gostosa' para baixo. Lamentável".

"Agora a mulher tem participação um pouco mais ativa no mundo esportivo, embora ainda sofra muito com o machismo institucionalizado, esse que vem de cima para baixo, de dirigentes, técnicos e jogadores e da mídia que ainda objetifica a mulher, muitas vezes para que ela possa participar de um programa esportivo. Ou força a temática de que a mulher tem que ser 'musa', em vez de mostrar e incentivar atletas pelo seu talento no esporte".

Gisleine Bedendo é são-paulina e torcedora também do Londrina. Fisioterapeuta, 35 anos, ela tenta ir ao máximo de jogos possível. "Vou mais a estádios do que a cinemas, parques e shoppings".

"Quando estava em Barcelona, deixei de ir a um jogo do campeonato espanhol entre Espanyol e Barcelona, pois apesar de frequentar bastante os estádios no Brasil, fiquei com medo de como seria a reação dos torcedores espanhóis diante de uma mulher chegando sozinha ao jogo. Isso também aconteceu em Santiago quando o São Paulo ia jogar lá. Me arrependo amargamente de não ter ido nas duas oportunidades".

"Eu costumo não chegar vestindo a camisa do time, deixo dentro da bolsa e só coloco quando já estou dentro do estádio, para evitar que fiquem mexendo comigo no caminho. Vejo que muitos engraçadinhos se aproveitam disso para puxar assunto e isso me incomoda".

Núbia Tavares, publicitária e jornalista, tem 30 anos, e "ama estádios e futebol". Só diminuiu o ritmo das idas aos jogos porque agora tem uma filhinha pequena.

"O machismo na arquibancada é menor do que no ambiente futebol. Digo porque sou sócia do Palmeiras e já frequentei a vida política do clube. Ai, sim, o machismo transborda. São sempre piadinhas, tititi, nada direto, meio implícito, mas totalmente perceptível. Ninguém parece te levar a sério até você provar que não está ali 'atrás de macho'. Isso sem contar as 900 mil vezes em que você tem que responder a pergunta idiota: 'você sabe a regra do impedimento?' Nada pode ser mais ridículo e irritante para uma mulher que gosta de futebol".

"Acho que o machismo no futebol está cada vez mais explícito, porque hoje homens idiotas se escondem atrás de um computador para despejar m... pela boca de qualquer mulher que se interesse por futebol. Primeiro, eles questionam se realmente gostamos do jogo ou estamos ali pelos jogadores. Depois, temos que ser submetidas a um questionário sobre nossos conhecimentos sobre as regras futebolísticas. Isso sem falar nas repórteres esportivas que são vistas como maria-chuteiras por dirigentes, técnicos, jogadores, torcedores e coleguinhas".

Júlia Vergueiro, de 26 anos, frequenta regularmente e é sócia do Pelado Real Futebol & Arte, empresa do Morumbi que organiza peladas para mulheres em São Paulo.

"No caminho pro estádio a gente ouve bastante 'xaveco'. Tem gente que acha isso bobagem, mas para nós mulheres é sim uma forma de agressão, porque você fica sem opção de reação, não sabe o que uma retrucada pode vir a causar. Acho bem machista uma pessoa se colocar no direito de te dizer o que ela bem pensa, ainda mais te objetificando, e com a segurança de que nada vai acontecer".

"Não vejo muita mudança em relação ao machismo. O que vejo que evoluiu é a postura das mulheres que querem se envolver com o futebol. Elas estão mais pró-ativas e se importando cada vez menos com os rótulos e com os paradigmas que nos são impostos desde pequenas".

Lígia Molina assistiu a praticamente todos os jogos do São Paulo no Morumbi nos últimos quatro anos. Tem 30 anos e é analista comercial.

"É difícil para alguns homens assimilarem que você esteja no estádio para torcer e apoiar o time. Ou você quer arrumar um marido, ou é maria-chuteira, ou é fã de jogador. Uma vez, fui proibida de entrar num jogo no Pacaembu, contra o Palmeiras, por alguns membros da organizada. Disseram que eu era 'kakazete' e que não ia entrar. Tive que ir embora e assistir o jogo num bar próximo, chorando de raiva".

"Uma vez, o programa de sócio torcedor perguntou o que poderia melhorar para que as torcedoras frequentassem mais os estádios. Li muita coisa bacana, inclusive de homens. Mas li também, inclusive de muitas mulheres, que elas não vão ao estádio porque o clube não pensa na modelagem das camisetas femininas. Meu Deus, vocês deixam de ver seu time jogar porque a camiseta não modela no seu corpo? Me deu vontade de chorar...Sem contar os homens dizendo que o plano de ST deveria dar desconto em salões de beleza e lojas de sapatos".

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