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No novo Barcelona, Messi deve recuar e virar garçom para Neymar e Suárez

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

21/07/2014 06h00

A contratação do uruguaio Luis Suárez pelo Barcelona tem tudo para dar uma guinada no jeito de jogar de Lionel Messi. Aos 27 anos, o argentino muito provavelmente não será mais aquele jogador que arranca da intermediária e invade a área, driblando três ou quatro defensores, antes de chutar para o gol. Ele não tem mais a mesma explosão física dos últimos anos, e esse tipo de jogo é visto como um desgaste e um risco desnecessários pela comissão técnica do Barcelona.

De acordo com a imprensa catalã, o técnico recém-empossado Luis Enrique pretende fazer Messi atuar não mais na função de “falso 9” que ele tem atrelada a seu nome, mas talvez como um “falso 10”, um armador mais perto do meio-campo, capaz de servir os talentosos finalizadores Neymar e Suárez. Eventualmente, ele teria liberdade para chegar ao ataque, se aproveitando dos espaços deixados na defesa rival, preocupada com a marcação do brasileiro e do uruguaio.

Seria uma aposta no talento de passador do camisa 10, que sempre foi enorme, embora algumas vezes ofuscado por seu faro goleador. Nas seis últimas edições do Campeonato Espanhol, o argentino deu assistência para 79 gols, mais do que qualquer outro jogador do torneio. Desde a temporada de 2008-2009, Messi deu passe para 111 gols do Barcelona, e é o líder neste quesito com larga vantagem para o segundo colocado (Xavi, com 87 assistências).

Na última temporada, ele sozinho criou 2,4 chances de gol por partida – apenas seu compatriota Angel di Maria, do Real Madrid, o superou nesse quesito.

Essa nova posição tática de Messi, mais recuada, já foi vista na Copa do Mundo, quando o capitão da seleção vice-campeã raras vezes foi visto arrancando e rompendo as defesas adversárias como em outros tempos, tendo se concentrado mais em criar jogadas para os homens a sua frente, como Gonzalo Higuaín.

O recuo de Messi não se trata, portanto, de uma ideia nova, mesmo entre os catalães. O falecido técnico Tito Vilanova, dois anos atrás, já vinha pensando em uma opção tática que pudesse minimizar o desgaste físico do argentino e, ainda assim, tirar o máximo de sua visão de jogo.

A chegada de Suárez, ajudada pela esperança de que Neymar finalmente deslanche depois de um ano de adaptação à Europa, parece ter oferecido as condições ideais para a mudança. Os dois seriam os principais responsáveis por balançar as redes; Messi, por deixá-los na frente delas. Segundo o jornal Mundo Deportivo, o camisa 10 está ciente do plano e disposto a desempenhar a nova função.

Suarez no meio ou na direita?

Do trio ofensivo do novo Barcelona, quem menos deve sofrer com mudança de posicionamento é Neymar, que já criou um lar para si no lado esquerdo do ataque (posição em que atua tanto no clube, quanto na seleção). Já Suárez, que no Liverpool foi bem tanto como um 9 clássico (enfiado no meio da defesa) quanto caindo pelas pontas, não deve ter dificuldade para se adaptar à função que Luis Enrique lhe solicitar.

Em sua primeira entrevista coletiva da temporada, o treinador deixou claro que estará aberto a variações táticas ao tradicional 4-3-3 e que é importante que “os jogadores se abram a diferentes opções e tenham a capacidade de surpreender os rivais.”

Isso quer dizer que, ainda que a equipe assuma um desenho tático preferido, ela deve estar apta a mudá-lo de uma partida para outra e dentro de uma mesma partida.

Jogo coletivo x individualismo

A contratação de Suárez um ano depois da de Neymar (dois dos cinco jogadores mais caros da história) levantou críticas em relação a uma possível mudança na identidade do Barcelona, que sempre se orgulhou de formar seus craques em casa.

Johan Cruyff, ex-jogador e técnico da era de ouro do clube, foi quem vocalizou a insatisfação de maneira mais aguda. “Não vejo como o Barcelona pode fazer um jogo coletivo com Messi, Neymar e Suarez na mesma equipe. Os três são individualistas. Assim, o clube mostra que prefere o individualismo a uma equipe que jogue bom futebol”, disse o holandês.

O ex-zagueiro brasileiro Edmilson, que também jogou no Barcelona, é outra voz crítica à contratação do uruguaio. “Não era prioridade. Você podia pegar metade desse dinheiro e comprar um zagueiro, já que a defesa, desde a saída de Puyol, vem se mostrando o principal problema do time”, afirmou ele, que hoje é comentarista de futebol.

Mas a escolha por uma abordagem mais galáctica ao mercado, à moda Real Madrid, parece mostrar que após a difícil temporada passada, a direção catalã percebeu que mais seguro do que depender de apenas uma estrela, é confiar em um trio delas.

Resta saber se as três estrelas conseguirão brilhar juntas ou se, conforme os temores de Cruyff, uma tentará sobressair das outras. O efeito disso será emperrar o ataque catalão.

A partir de outubro, quando acabar a suspensão de Suárez por ter mordido o ombro de Chiellini e o trio galáctico do Barcelona finalmente puder estrear, a bola estará nos pés de Messi. E ele terá de passá-la a quem estiver mais perto do gol.

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