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Futebol tira meninas da rua e do tráfico no Rio de Janeiro

Time feminino do Brasil com Gilberto Silva na Street Child World Cup - Vanessa Ruiz/UOL
Time feminino do Brasil com Gilberto Silva na Street Child World Cup Imagem: Vanessa Ruiz/UOL

Vanessa Ruiz

Do UOL, no Rio de Janeiro

06/04/2014 06h00

A Street Child World Cup (SCWC), torneio de futebol que reúne cerca de 230 jovens em situação de rua, começou no último domingo tendo como jogo de abertura a partida entre Brasil e Indonésia no campo principal. O Brasil venceu por 14 a 0 jogando firme do começo ao fim, sem aliviar mesmo em face da clara inferioridade técnica do adversário.

Mas quem venceu fácil assim foram as meninas do Brasil. O primeiro duelo masculino veio na sequência e não como jogo de abertura, conforme costuma acontecer em eventos que envolvem times femininos e masculinos. É que, na luta para tirar crianças das ruas, não são só os meninos que precisam de uma mão para encontrar um caminho melhor, e também não são só eles que podem encontrar essa ajuda no futebol.

Depois da primeira edição focada nos garotos, na África do Sul em 2010, a ONG Save the Children, responsável pela copa, alterou o projeto de modo a encampar também garotas. Para os organizadores, o torneio feminino é “uma afirmação de solidariedade com as meninas de rua tantas vezes ignoradas. É uma oportunidade para que estas meninas mudem suas percepções e para que suas histórias sejam ouvidas”.

As experiências dos grupos que vieram ao Rio de Janeiro nesta semana para a copa são bem diferentes entre si porque variam de acordo com a realidade sócio-econômica de cada país. Foram nove equipes femininas selecionadas de projetos sociais na África do Sul, Brasil, El Salvador, Filipinas, Indonésia, Inglaterra, Moçambique, Nicarágua e Zimbábue.

Enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, os problemas estão mais ligados às dificuldades que elas têm com as famílias, no Brasil, o maior desafio é afastá-las da violência e do tráfico (e uso) de drogas.

A questão é tão acentuada que a equipe brasileira não pôde acompanhar a visita ao morro do Vidigal nesta terça-feira. O treinador do time e coordenador do projeto Favela Street no Complexo da Penha, Philip Veldhuis, foi quem explicou o veto: “Por mais que haja favelas ocupadas pela polícia, nós sabemos que o tráfico ainda está vivo e a rivalidade permanece. Por essa razão é que alguns pais não queriam liberar as meninas para participar do torneio se a visita ao Vidigal acontecesse, e eu precisava garantir para os pais que elas estariam seguras, ainda que o risco fosse só de 1%”.

Desde a instalação da primeira UPP em 2008 até a 39ª, neste ano, o tráfico vem tentando reorganizar a divisão do território carioca. Enquanto o time masculino do Brasil vem de um projeto de Fortaleza, Ceará, a equipe feminina vêm do próprio Rio de Janeiro, de morros como Caracol, Chatuba, Grotão, Vila Cruzeiro, e também do Complexo do Alemão e da Favela do Lixão, que já tiveram histórico de disputas com a Rocinha ou com o Vidigal no passado.

Sobre as questões que envolvem a situação de vida das jogadoras, é Philip quem fala. O cuidado com a segurança das menores de idade é grande e as entrevistas com o time brasileiro são precedidas pela declamação da lista de restrições: é proibido perguntar sobre a vida delas nas ruas, sobre as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e sobre tráfico de drogas.

A conversa com elas, então, acaba se restringindo a temas amenos, como a rouquidão da capitã Claudiane Santos, de 17 anos — ela cantou e gritou tanto junto com as colegas de time que a voz acabou antes de estreia — ou o esforço para se comunicar com os outros times através de gestos já que não falam a mesma língua, conforme conta Jéssica Maria, 18 anos, que está sendo preparada para ser treinadora.

Mas o que há detrás da alegria de participar de um evento como este são histórias de vida cheias de altos e baixos, idas e vindas, apesar da pouca idade. Há no grupo, por exemplo, uma garota cujo namorado era traficante e a usava de “mula" para transportar drogas para outros países. Ela também está sendo treinada para ser uma das técnicas de futebol do Favela Street, da ONG Ibiss. Durante a SCWC, sua função é manter a animação e a união do time, assim como a segurança, já que hoje ela tem diploma de vigilante.

Tornar ex-soldados do tráfico exemplos para outras crianças e jovens é um dos pilares do projeto idealizado e tocado por Philip, que é holandês e iniciou o trabalho com futebol no Complexo da Penha em 2008: “Todas as meninas que vieram para cá [SCWC] estão se sentindo importantes, estão nesse processo de melhorar de vida e se tornar exemplos positivos no local onde moram”.

Todas as noites durante a copa, o time feminino se reúne para falar sobre o dia, resolver rixas internas e reforçar o espírito de grupo. Os trabalhos feitos dentro e fora de campo se complementam: “Estou há um ano e meio treinando as meninas e ando muito feliz com essa equipe. Elas tocam a bola, têm foco, ninguém deixa a marcação de lado, mostram criatividade, fazem golaços. Nunca tinha gostado tanto de ver um time feminino jogando”, confessa o treinador, meio sem jeito, e completa dizendo que elas têm consciência de que participar do evento de uma semana com jovens do mundo todo está sendo uma das melhores, senão a melhor, experiência pela qual já passaram.

“Fico muito feliz de poder ser a pessoa que leva esse tipo de oportunidades a elas”, diz Philip. Nos últimos dias, as meninas da seleção brasileira receberam dicas de Gilberto Silva antes da estreia, conversaram com Bebeto e ainda encontraram Zico — em vez de visitar o Vidigal, elas foram à Escola Britânica do Rio de Janeiro, outra parceira da SCWC, onde tiveram a surpresa da presença do Galinho e disputaram um amistoso com o time da escola, vencido por elas por 7 a 0.

A ideia é que as garotas entendam que há saídas dignas para qualquer dificuldade e fujam de destinos como o de Danúbia de Souza Rangel, namorada de “Nem da Rocinha”, presa recentemente por participar das atividades do tráfico, e cultivem outros tipos de sonhos. Para algumas delas, o primeiro deles é ser jogadora profissional de futebol, ainda que saibam que será preciso entrar na luta pela melhora no cenário da modalidade no Brasil. “Nossa função é plantar as sementes”, encerra Philip.

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