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Ex-seleção ganha emprego e deixa de ser mendigo. Mas luta contra tecnologia

Pedro Ivo Almeida

Do UOL, no Rio de Janeiro

26/03/2014 06h01

Após se aproximar do fundo do poço e vagar pelas ruas de Portugal no final do último ano, Perivaldo Lúcio Dantas voltou a ter nome, sobrenome e dignidade neste início de 2014. Mais do que isso, o ex-mendigo e lateral da seleção brasileira, com passagens marcantes por Botafogo, Bahia e Palmeiras, agora tem até emprego e uma casa para morar na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro.

Em um recomeço ainda que tardio, aos 60 anos, o famoso “Peri da Pituba” agarra como pode a “chance da vida” no Sindicato dos Atletas de Futebol do Rio de Janeiro (Saferj). Lá, em um cenário que nem de longe lembra os últimos meses, exerce a função de auxiliar técnico de um projeto que mantém em treinamento jogadores sem clube e ainda colabora no setor administrativo.

Com o bom humor que cativa todos ao seu redor e espanta qualquer lembrança mais triste, Perivaldo celebra o renascimento e diz não ter mais problemas na vida. Ou quase nenhum. Seu grande desafio agora é na área da tecnologia, onde trava uma "guerra” com o computador sobre a mesa em seu mais novo local de trabalho.

“Vou aprendendo as coisas no dia a dia. Nunca tive interesse em informática, mas agora preciso me informar, pegar uns toques. Me falaram até que vou ter que fazer um curso... Eu digo ‘não quero, não quero’, mas eles insistem [risos]. Dizem que eu preciso ir. E vou acabar fazendo mesmo. Estão me convencendo. E vai me ajudar bastante nesta nova função”, contou.

Em fase de adaptação na nova casa, Perivaldo terá que se acostumar com a vida em um escritório. O ex-jogador ficará responsável pelo setor de cadastro de atletas no Sindicato. Mas também não esquecerá da função à beira do campo na equipe de desempregados.

“Vai ser tipo uma vida dupla, aqui e no campo. E lá ainda dou meus pitacos. Chego na galera, dou uma dica, falo da maneira de bater na bola, principalmente para o pessoal que joga na lateral. É bacana poder ter uma chance de passar tudo o que aprendi com a bola no pé também”.

E após muito tempo sem rumo na Europa, Perivaldo nem pensa em mudar sua trajetória e função no Brasil. Ele só espera ser forte o suficiente para não “vacilar” mais uma vez e desperdiçar a oportunidade.

“Estou aqui, gosto do ambiente, das pessoas, da maneira como sou tratado. São todos amigos de verdade. Só peço a Deus que me dê força e coragem para seguir aqui. Até me apareceram e ofereceram outras coisas, mas não dá para sair daqui. Dinheiro não me atrai mais, já tive muito. Eu só quero esse ambiente. E acho que não encontro outro lugar para ser bem tratado como esse. Isso aqui é meu futuro. Não posso desperdiçar mais uma chance. Se não fosse o Alfredo [Sampaio, presidente do Saferj] para me ajudar, não sei onde estaria e como seria meu regresso. Nem sei se teria isso”, contou Peri, que tem sido até reconhecido nas ruas.

“Posso dizer que estou muito feliz com esse regresso. As pessoas me ajudam muito aqui. Encontro até torcedores de Flamengo e Vasco na rua e recebo carinho. Eles vêm falar comigo, chamam o ‘Peri da Pituba’, brincam que não gostavam de mim na época que me enfrentavam”, completou.

Por fim, Peri, mesmo evitando tocar no assunto, comentou os dias sofridos em Portugal nos últimos meses. Emocionado na conversa com o UOL Esporte na sede do Saferj, ele não culpou ninguém pelos tempos como mendigo, assumiu os erros, como os problemas com bebidas, e só lamentou as amizades não confiáveis no período.

“Vou falar do fundo do meu coração: eu tive uma vida muito bacana em Portugal. Não tenho que culpar ninguém, apenas a mim. Bebi, gastei muito. Mas não posso reclamar. Sei que tudo que aconteceu foi culpa minha. Eu tive muito dinheiro, fui milionário, mas me prejudiquei. Bebia direto, dormia na rua por conta disso. Além disso, fui traído por muita gente. O futebol tem disso. As pessoas se aproximam, usam seu dinheiro e somem. Tomei muita volta. Por isso que não ligo mais para dinheiro hoje. Só quero estar bem acompanhado e feliz aqui”, encerrou.

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