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Em busca de novos praticantes, futebol de mesa esbarra em violência, distâncias e videogame

Garotos se divertem em torneio de futebol de mesa no Museu do Futebol - Fernando Donasci/UOL
Garotos se divertem em torneio de futebol de mesa no Museu do Futebol Imagem: Fernando Donasci/UOL

Bruno Doro

Do UOL, em São Paulo

06/03/2012 06h00

No ultimo sábado pela manhã, um grupo de 30 pessoas se reuniu em frente ao Pacaembu. O motivo, no entanto, nao foi nenhuma partida de futebol, pelo menos que fosse disputada no gramado do estádio. Durante duas horas, crianças e adultos se reuniram em volta de mesas para disputar animadas partidas do tradicional futebol de botão, iniciativa que fez parte da terceira edição do Campeonato Aberto do Museu do Futebol, iniciativa para resgatar a prática da modalidade na capital paulista.

NOVATO LEU AS REGRAS NO DIA ANTERIOR

  • Fernando Donasci/UOL

    Aos sete anos, Patrick Sasson teve, no último sábado, seu primeiro contato com o mundo do futebol de mesa organizado. Ele chegou sem um time, jogou com o Brasil emprestado pelo pessoal da federação. E evoluiu bastante nas três partidas, apesar de ter conhecido as regras somente no dia anterior ao torneio.

    “Eu vi uma matéria sobre o campeonato no jornal e perguntei se ele queria participar. Ele se animou. Nós olhamos as regras pela internet e hoje ele acordou dizendo que lembrava de tudo”, diz a mãe, Karen. “Ele adora futebol, achei que seria uma boa ideia”.

    O garoto gostou do campeonato, principalmente do último jogo. Apesar de perder por 1 a 0, Patrick conseguiu bons chutes e mostrou evolução. “Deu para perceber que ele melhorou bastante. Acho que se divertiu”, comemorou a mãe.

     

É verdade que eram apenas oito garotos, de 7 a 15 anos, competindo, mas o fascínio pela modalidade era visível. Os mais velhos tratavam os discos de acrílico com carinho, passando a flanela a cada partida para garantir o máximo desempenho em campo. Os mais novos eram só sorrisos enquanto aprendiam as regras.

A empolgação mostra que o futebol de botão ainda pode ser atrativo, mesmo que a falta de renovação entre os praticantes seja um problema sério que a modalidade enfrenta atualmente. Em São Paulo, só um clube, o Nacional, tem uma equipe juvenil. Em torneios oficiais, a categoria foi extinta e os atletas mais jovens precisam disputar torneios adultos se quiserem competir.

“Muita gente fala que o videogame está acabando com o futebol de botão. Mas em eventos como esse a gente vê que não é verdade. Garotos de nove ou dez anos ainda ficam fascinados pelo botão, pelos movimentos que conseguem executar. O problema é seguir praticando. Em uma cidade como São Paulo, em que os pais precisam levar os filhos para os clubes de botão, só os apaixonados mesmo acabam seguindo no esporte”, diz Elcio Buratini, diretor eventos da Federação Paulista de Futebol de Mesa.

Entre os presentes, quem mais se destacava era o garoto Lucca, de sete anos, filho do jornalista Fabio Bolla. Em três partidas, usou três times diferentes. E a cada lance, dava um sorriso, procurando a aprovação do pai. No terceiro confronto, precisou ser convencido a jogar. Com um empate e uma derrota, as chances de classificação não eram muito animadoras. “Vai lá, Lucca. Precisa jogar. E se você ganhar de 3 a 0, se classifica”, disse Bolla, ele mesmo um botonista federado, com direito a título mundial.

Casos de família de botonistas eram comuns. Bicampeão paulista, Elvis Teruel levou o sobrinho, Renan, de oito anos, para o torneio. “Muita gente fala que estamos perdendo os botonistas para o videogame. Mas não é isso. É a violência. Quando eu era moleque, a minha mãe não queria que eu ficasse em casa. Mandava ir brincar na rua. Hoje, os pais dão o videogame para a criança para que ele fique seguro dentro de casa”.

PAIXÃO POR BOTÃO NASCEU NA COPA DE 82

Presente no campeonato para levar o sobrinho, Renan, Elvis Teruel tem uma boa história para contar sobre seu início do esporte. Bicampeão paulista, ele começou a jogar botão em 1982, ao lado do irmão. Os dois compraram um estrelão (campo de futebol de mesa amador) e fizeram sua própria Copa do Mundo.

“A tabela era a mesma da Copa. E a gente também não queria placares muito altos, como era comum quando jogávamos. Então, fizemos os goleiros de caixinha de fósforo, naqueles gols pequenos, para que fosse difícil fazer a bola entrar”, lembra.

Hoje, só Elvis segue jogando. “Meu irmão é muito competitivo e jogava muito bem com os botões comuns. Mas quando passamos para os botões de acrílico, no ambiente federado, ele não se adaptou muito bem e parou”.

Filho de um botonista, Pedro Henrique Dias, de 12 anos, garante preferir o botão ao videogame. “Eu jogo os dois, mas se tiver de escolher, é o botão”, diz, convicto. O pai, Carlos Aldir, não acredita muito. “Pode falar a verdade, Pedro”. Entre risadas, os dois admitem que o tempo do caçula da família é dividido entre os dois passatempos. “Quando eu estou em casa, ele realmente prefere o botão. Mas quando estão os amigos, fica com o videogame”, conta o pai.

Carlos era um dos poucos pais não federados no local. Mas a paixão pelo esporte não era menor. Ele joga todas as sextas-feiras com um grupo de amigos, no Grêmio Butantã. “Comecei com um estrelão, jogava com meu filho mais velho. Hoje ele não joga mais, mas acho que convenci o caçula a adotar o esporte”.

VELHA GUARDA SOBREVIVE COM AUTO-GESTÃO E PAIXÃO

Existe um grupo de fãs de futebol que gerem sua própria entidade, confeccionam tabelas de campeonato como bem entendem e viabilizam contratações de jogadores impensáveis no mundo real. Composto de bolinhas de feltro, jogadores em fórmula de círculo e goleiros retangulares, o jogo de botão que abrigou sonhos malucos de tantos meninos nos estrelões da vida agora luta para sobreviver na desleal batalha contra o detalhista universo dos videogames.

O futebol de botão hoje sobrevive através da paixão de adeptos saudosistas, boa parte deles ligada a clubes grandes. Em geral, trata-se de uma turma acima da casa dos trinta (ou quarenta), que luta para transmitir o vício das palhetas para seus filhos, geralmente já seduzidos pela quase perfeição das partidas de videogame.

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