PUBLICIDADE
Topo

Esporte

História, admiração e cultura forjam a ligação gaúcha com os gringos

Argentinos Miralles e D"Alessandro comprovam que gaúchos apostam nos estrangeiros - Foto Miralles (Wesley Santos/Pressdigital) e D"Alessandro (Lucas Uebel/Vipcomm)
Argentinos Miralles e D'Alessandro comprovam que gaúchos apostam nos estrangeiros Imagem: Foto Miralles (Wesley Santos/Pressdigital) e D'Alessandro (Lucas Uebel/Vipcomm)

Carmelito Bifano, Jeremias Wernek e Marinho Saldanha

Em Porto Alegre

03/07/2011 07h02

Estádio lotado em clássico e o tom vindo das arquibancadas é ditado por somente um bumbo. Vermelho de um lado, azul de outro e cânticos regionais ecoados de parte a parte. Tal cenário poderia tranquilamente remeter a Boca Junior X River Plate, mas não. O quadro desenhado se refere a um clássico Gre-Nal. Nas arquibancadas ou dentro de campo, as ligações entre 'hermanos' e gaúchos são evidentes.

Não é de agora que Grêmio e Inter recorrem ao mercado sul-americano para se reforçar. Não é recente a ligação entre os dois clubes e os países vizinhos. E tudo isso, também, não é por acaso. A dupla Gre-Nal apenas complementa um comportamento cultural, entrelaçado ao passado, as histórias entre o Rio Grande do Sul e os vizinhos de Uruguai e Argentina.

     MOVIMENTO POR "COMUNITÁRIOS"

Em fevereiro de 2011, o Internacional e outras personalidades do futebol gaúcho iniciaram um movimento visando estabelecer um padrão para os países do Mercosul parecido com o que ocorre na Europa e permite a utilização de jogadores de outros países do bloco sem contar como estrangeiros. A ideia não teve repercussão e o assunto 'esfriou'. Releia a matéria na íntegra

O UOL Esporte foi atrás dos rastros históricos que explicam tamanha admiração dos gaúchos por jogadores de fora do Brasil. E encontrou elos que remetem as conquistas ainda no tempo da Colônia de Sacramento, passando pela evolução das seleções charrua e albiceleste e culminando com o sucesso do Boca Juniors, e demais times argentinos, na década passada.

No começo, uma luta

A relação histórica do Rio Grande do Sul com os outros países se explica. Não só pelo caráter fronteiriço, mas também por ser uma área de conquistas. Em quase oitenta anos, o território que pertencia aos espanhóis foi tomado. Desde o Mampituba até o Chuí. “A fronteira foi sendo empurrada. Há um intercâmbio, portanto, não só comercial. Mas também cultural”, aponta o doutor em História e membro da Academia Rio-Grandense de Letras Moacyr Flores.

Segundo os estudos, a maior ligação entre o estado mais extremo do Brasil é com o Uruguai. “O Grito de Ascencio [que marcou a independência do Uruguai], foi dado por um rio-grandense, no Uruguai. Quer dizer, é muito forte a nossa ligação com o Uruguai. Não é só a questão de fronteira, estamos muito mais ligados a isso”, garante Flores.

“Temos um sotaque diferente. Nós pronunciamos bem com os dentes as letras ‘T’ e ‘D’ e isso aproxima com a língua espanhola. Enquanto o restante do Brasil chia e substitui o ‘E’ por ‘I’. É um outro regionalismo”, analisa o historiador.

A aproximação com a Argentina nem se vale muito do passado. A distância maior com Buenos Aires, e os poucos fatos políticos da época, nem ligaram tanto os gaúchos com os hermanos. Mas a boa fase dos times na Libertadores foi preponderante.

“Tem muitas coisas que vieram da Argentina porque no início da década estava com o futebol em alta”, comenta Jorge Martins, mais conhecido como Hierro, um dos lideres da torcida mais forte do Internacional nos últimos anos, a ‘Guarda Popular’.

No fim, o futebol

Depois das batalhas, da miscigenação, os resquícios da cultura do Uruguai e da Argentina vieram a reboque. Os reflexos no futebol não demoraram para surgir. Antes de D’Alessandro, Herrera, Maxi López e Guiñazu, Grêmio e Inter investiram em Figueroa, Hugo De Léon, Diego Aguirre e Arce.

  • Torcida do Grêmio admite influência dos argentinos no 'estilo' de torcer: "As semelhanças com as torcidas platinas são evidentes, não nos envergonhamos disso, bem pelo contrário, temos orgulho de sermos fronteiriços com nossos vizinhos de pampa", diz no site oficial da 'Geral do Grêmio'

Tudo para atender a uma característica, que com o passar dos anos, só se tornou mais latente nos estádios Olímpico e Beira-Rio. “Se o Brasil tivesse dois ou três jogadores mais platinos (na defesa), nunca iríamos tomar aqueles três gols em 82”, opina Hierro, ao lembrar da Copa do Mundo na Espanha, onde a seleção de Telê Santana foi eliminada pela Itália.

Atualmente, além dos reflexos na torcida, a presença massiva de jogadores estrangeiros se estende a clubes menores. Grêmio e Inter tem jogadores de fora do país constantemente nas categorias de base. Atualmente o Caxias conta com um em seu elenco. No Gauchão, o Santa Cruz era defendido por um atacante argentino, e outros tantos exemplos que vão até a Série B do Estadual apontam a ligação. Em torneios menores, por exemplo, clubes argentinos e uruguaios são tradicionalmente convidados. A cidade de Alegrete, por exemplo, é sede do Efipan (Encontro de Futebol Infantil Panamericano), que conta com representantes sul-americanos. Já no torneio juvenil da cidade de Santiago, também no interior gaúcho, é outro exemplo de encontro com Boca Juniors, River Plate, Nacional-URU, entre outros.

O fanatismo por clubes de fora do país, quando de enfrentamos com os brasileiros, porém, não é consenso. “Não vejo motivo para que isso seja criticado com argumentos patrióticos. Exigir o sentimento de unidade nacional de um torcedor de futebol não faz sentido em um país tão grande e diversificado culturalmente como é o Brasil”, argumenta um dos criadores do blog ‘Impedimento’, focado no futebol sul-americano, Douglas Ceconello.

  • Colorados preferem dizer que refinaram o jeito oriundo da Argentina e do Uruguai: "Inicialmente, não era adaptação, era uma cópia mesmo. Nós queríamos imitar a maneira que eles torciam. Hoje em dia dá para dizer que remodelamos a forma. Mudamos muito as coisas que eles fazem e readaptamos a nossa realidade e a cultura do Brasil. A gente não usa mais tantos os cantos deles. A gente usa os cantos brasileiros para se adaptar e cantar", explica Hierro, um dos fundadores da 'Guarda Popular'

“Nosso estado faz parte da federação que forma um país. Temos que torcer pela nossa seleção e pelos clubes do nosso país. Vou torcer sempre pelos clubes do país contra os gringos. A não ser o Grêmio. Se for o Grêmio jogando tem que perder até para a seleção da China”, contrapõe Hierro.

No entanto a adoração ultrapassou barreiras naturais. Não é difícil ver gaúchos reunidos durante a Copa do Mundo e a torcida, que deveria ser pelo Brasil, é pela Argentina ou pelo Uruguai. Muitos admitem que não torcem pelo país onde nasceram, mas pelo de escolha própria. O reflexo no estilo de torcer é evidente. Em vez de um ritmo mais 'sambado', natural em outros Estados, no Rio Grande do Sul somente o bumbo dita cada música das torcidas. Não é raro ouvir um "Dále", "La Copa" ou outras expressões naturais do espanhol. Tanto a Geral do Grêmio quanto a Popular do Inter admitem relação direta com hermanos.

Chegadas de estrangeiros param o RS

  • Tárlis Schneider/Agência Freelancer

    Fernando Cavenaghi teve automóvel cercado por centenas de fãs em desembarque em Porto Alegre

  • Tárlis Schneider/UOL Esporte

    Já Miralles fei recepcionado por cerca de 150 gremistas, mais pessoas que esperaram Gilberto Silva, que tem trajetória maior no futebol mundial

Esta relação é reconhecida pelos jogadores. Maxi López, quando contratado pelo Grêmio, telefonou para compatriotas para saber se valia a pena mudar-se para o Brasil. A resposta positiva fez o centroavante atuar pelo Grêmio por quase um ano. O mesmo já ocorreu com outros jogadores, e segue acontecendo. Atualmente, o Internacional conta com três jogadores de fora, enquanto o Grêmio tem dois.

"Acho parecido com a Argentina. As pessoas gostam muito de nós aqui. A torcida me reconhece em qualquer lugar que vou, pede para tirar fotos e camisa. Apoiam muito, me sinto em casa. Isso ajuda quem chega de outro país", reconhece Escudero, que superou problemas de timidez no Grêmio ao ser acompanhado por outro argentino, Miralles. "Aqui temos semelhanças com a torcida argentina, mas o futebol é mais alegre", lembra Miralles. 

Uma pequena olhada para a torcida já possibilita a ligação aos estrangeiros. Os chamados "trapos" - pedaços de tecido com a cor do time expostos na vertical nas arquibancadas - deixam evidente tal situação. Além disso, os movimentos foram criados da mesma forma que os aficionados de grandes clubes argentinos. Geral e Popular não são consideradas 'organizadas' pois não há cadastro de seguidores ou sede. Mas sim um grupo de pessoas que frequenta a mesma parte do estádio e resolveu se unir, cantando durante todo o tempo em apoio a seu time.

"Todas essas lutas de fronteira que deu uma identidade. Ou nós éramos castelhanos ou éramos portugueses. Então, tivemos que assumir uma identidade e ela está presente até hoje. Claro que hoje nós sublimamos essa identidade, pois é uma memória e se inventa uma série de coisas. Somos diferentes por várias razões. O Rio Grande do Sul se diferencia por ser um mosaico cultural", finaliza o historiador Moacyr Flores. Mas neste mosaico, sem dúvida, além de verde e amarelo, o azul e branco se definem de forma peculiar.

Esporte