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Copa 2018


Há quatro anos! Meu 7 a 1 foi no sofá com as tias do Fred em Teófilo Otoni

Bruno Freitas

Do UOL, em São Paulo

08/07/2018 04h00

Há exatos quatro anos, enquanto a seleção era surrada pela Alemanha em Belo Horizonte, eu estava sentado na sala da casa de um dos titulares do time, em Teófilo Otoni. Ali, a cerca de 500 quilômetros do Mineirão, acompanhei a derrota mais acachapante da história do futebol brasileiro. Em 8 de julho de 2014, o meu 7 a 1 foi doído como o da maioria da torcida verde amarela. O meu 7 a 1 foi do lado das três tias do atacante Fred. 

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Em 2014, eu estava rodando o Brasil durante a Copa na produção de reportagens lado B sobre o torneio no país, com uma equipe que contava com o videomaker Bruno Pedersoli e o fotógrafo Junior Lago. Uma das últimas paradas do itinerário de 40 dias era ali, no norte de Minas Gerais, com o planejamento de ver a seleção se classificando gloriosamente para uma final dentro de casa, flagrando a alegria dos parentes do camisa 9.

Não foi o que aconteceu, como a história está aí para não nos deixar esquecer. Na verdade, o que acabei experimentando em Teófilo Otoni foi uma tarde de contornos surreais. Depois de degustar salgadinhos diversos oferecidos pelas irmãs Guinera, Ivone e Alice, testemunhei a agonia de uma família de escutar o sobrinho querido vaiado por um Mineirão inteiro. As lágrimas na sala dos Guedes não foram derramadas na dor comum do futebol brasileiro, mas, sim, em razão do massacre público em cima dos vilões do 7 a 1. 

A pauta, como chamamos no jornalismo, virou do avesso. O planejado registro da classificação para a final virou quase uma narrativa de luto. Em meio ao choque, ainda não era possível percorrer as camadas do que significava aquele fracasso esportivo. Então, o que foi para o texto e o vídeo acabou sendo mais um recorte do lado humano. Menos os gols perdidos de Fred ao longo da Copa e mais a aflição dos familiares de ver o parente no foco de críticas de todo um país.

A cada gol no massacre alemão, o desânimo aumentava exponencialmente na sala da família Guedes. No segundo tempo, com comentários críticos dos homens da transmissão da TV, a família do atacante externava indignação.

"Eu não vejo ninguém culpado, individualmente. Eles podem até querer culpar o Fred. Então eles estavam esperando muito do Fred. Para culpar o Fred agora, sendo o responsável pela derrota, eles estavam esperando muito do Fred", opinou Jenésio Souza, tio que ajudou a criar o atacante.

Junior Lago/UOL
Imagem: Junior Lago/UOL

Com morte precoce da mãe, Fred foi criado pelas tias

Guinera, Ivone e Alice valem mais do que tias. Irmãs do pai de Fred, seo Juarez, as três integrantes da família Guedes ajudaram na infância a criar o futuro jogador, após a morte precoce da mãe dele, Giselda, quando o menino tinha apenas 8 anos.

O garoto acabou criado na casa de duas delas, primeiro debaixo do teto de Guinera e do esposo José Geraldo, depois com o afeto de Ivone e do marido Jenésio. Foram tempos de muitas peladas no campinho do bairro, o Carecão, e aulas matadas para correr atrás de bola, com alguma reclamação da diretora da escola.

"A mãe dele era uma grande companheira também. Inclusive, nós fomos colegas de classe. Era uma pessoa fantástica. Toda vez que o Fred fala dela a gente se emociona. Morreu com 38 anos, muito jovem ainda", recordou a tia Ivone naquele dia.

"Acompanhei o sufoco que eles passaram. Foi uma fase que, graças a Deus, eles passaram, foram para frente. E não deixou marcas na vida dele. Apesar das dificuldades que passou, soube passar", acrescentou Alice.

E foram as tias "corujas" que defenderam o sobrinho famoso em tempos de Copa. Fred foi eleito pelo técnico Luiz Felipe Scolari como o homem gol da seleção de 2014, mas em sete partidas no torneio só conseguiu balançar as redes uma vez, contra Camarões, ainda na primeira fase. Em Teófilo Otoni, a família do jogador lidou com o assédio nas ruas de gente que cobrava o filho ilustre da cidade.

"Incomoda, e a gente defende ele, porque a gente sabe a qualidade dele como jogador", disse à época a tia Ivone.

Mas, mesmo com o choque dos 7 a 1, a família do jogador se esforçou para evitar o clima de depressão naquele 8 de julho. Como uma boa casa mineira, tudo acabou em comida após a derrota para a Alemanha. Dona Guinera engoliu a tristeza e caprichou no camarão para oferecer aos parentes e também aos visitantes da imprensa: "a gente morre de nervosismo, mas não morre de fome".

Junior Lago/UOL
Imagem: Junior Lago/UOL

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