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Rodrigo Mattos

REPORTAGEM

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Por que Palmeiras e Flamengo têm gap financeiro 'difícil de ser quebrado'

Palmeiras ergue a taça da Copa Libertadores pela terceira vez, após bater o Flamengo na final em Montevidéu - Juan Mabromata / AFP
Palmeiras ergue a taça da Copa Libertadores pela terceira vez, após bater o Flamengo na final em Montevidéu Imagem: Juan Mabromata / AFP
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

17/06/2022 04h00

Palmeiras e Flamengo estão em 'outra liga' em relação aos outros clubes brasileiros em termos financeiros. É o que aponta o relatório da consultoria Convocados e da XP Investimentos sobre os balanços de 2021 —esse cenário tem repetido anos anteriores. A explicação é que os dois clubes são capazes de gerar mais receitas com TV, publicidade e jogadores, além de administrar melhor as rendas para evitar dívidas.

O relatório fez um levantamento em cima das contas de 26 clubes das Séries A e B do Brasileiro. O ano foi atípico por concentrar receitas juntando dois anos seguidos.

Houve um total de receita dos clubes de R$ 6,6 bilhões. Desse total, quase um terço das rendas foi de Flamengo (R$ 1,053 bilhão) e Palmeiras (R$ 911 milhões). Ou seja, juntos, somaram quase R$ 2 bilhões.

"Palmeiras e Flamengo estão em um nível muito diferente do resto. Estão praticamente em outra liga", diz o economista-chefe do estudo, Cesar Grafietti. "Criou-se um gap muito grande e muito difícil de ser quebrado se não houver um reforço de receita desses outros clubes que vêm de baixo."

Entre outros itens, Palmeiras e Flamengo lideram nas receitas de televisão. No caso, o time alviverde ficou na frente em 2021 por conta dos resultados esportivos, dois títulos da Libertadores e um da Copa do Brasil —geram premiações incluídas nos contratos de TV. Já o time carioca teve também resultados positivos (Brasileiro e vice da Libertadores) e tem um contrato vantajoso de pay-per-view.

Mas não foi só televisão. O Flamengo é o clube com maior receita de publicidade com um total de R$ 230 milhões, seguido pelo Palmeiras com R$ 190 milhões.

Uma das explicações possíveis é de que os patrocinadores dos dois clubes são mais lembrados por torcedores do que de outros times. Há uma tendência de que quanto mais parceiros, menos são recordados. No Palmeiras, 100% dos torcedores lembram dos três patrocinadores, principalmente a Crefisa.

O Flamengo tem o segundo percentual de lembrança entre 80% e 90%, apesar de ter 10 patrocinadores. Resultado, juntamente com o Corinthians, os dois clubes foram responsáveis por 63% do crescimento com renda de marketing em 2021.

"Cria um distanciamento que força uma necessidade de os clubes que estão atrás de correr e resolver a questão das receitas ou ficam para trás", explicou Grafietti.

Flamengo e Palmeiras também estão no topo dos que arrecadam com vendas de atletas. No ranking de 2021, o time carioca é o primeiro, e o alviverde, o terceiro. O Grêmio ficou em segundo.

Mais do que isso, o Flamengo está também na lista dos clubes que ganham bastante com atletas e mantêm a dívida baixa, com pequeno crescimento. Ou seja, aproveitam a renda extra para investir ou manter as contas controladas. Em cinco anos, seu débito cresceu R$ 32 milhões, com receita de quase R$ 900 milhões com atletas. "Dívidas em forte queda, muito em função da excelente posição de caixa ao final do ano, de R$ 152 milhões", diz o relatório.

O Palmeiras teve um crescimento maior de dívida (R$ 184 milhões) em cinco anos, mas também tem uma trajetória de queda no ano passado. O clube usou sua receita extra com Libertadores e atletas para reduzir seu débito líquido em R$ 51 milhões. "Forte redução de Dívidas, com ajustes da posição de Operacionais pós-pandemia. Isso possibilitou reenquadramento da posição de Alavancagem, agora mais confortável. Investimentos menores em 2021, o que também contribuiu para redução das Dívidas", diz o relatório.

"São clubes que não estão usando o dinheiro da forma correta. Se está gerando um bom dinheiro com venda de atletas e ainda assim gerando dívida, é um ponto de preocupação", especialista em marketing esportivo, Rafael Plastina, também participante do estudo.

Apesar da vantagem financeira dos dois clubes, os responsáveis pelo estudo não veem uma hegemonia esportiva deles no futebol brasileiro. Tanto que o Atlético-MG acabou com dois títulos na temporada de 2021, e o Flamengo sem nenhuma taça importante.

"Ela (concentração de renda) seria prejudicial se os dois ganhassem tudo em dez anos. Vemos que o Atlético-MG já ganhou. Ainda não é prejudicial. Se houvesse um projeto, em que os dois fossem muito bem estruturados, hoje, o Palmeiras é. O Flamengo parecia (estruturado), e oscilou. Seria prejudicial se fosse o caso, de ganhar muito, mas não é", analisou César Grafietti.

  • Assista ao videocast Posse de Bola e veja comentários de Eduardo Tironi, Juca Kfouri, Arnaldo Ribeiro e Mauro Cezar Pereira: