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Rodrigo Mattos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mattos: Faca na Copinha ocorre após penas brandas a clubes por violência

Torcedor do São Paulo invade campo na Copinha e tenta agredir jogador do Palmeiras - Diogo Reis/AGIF
Torcedor do São Paulo invade campo na Copinha e tenta agredir jogador do Palmeiras Imagem: Diogo Reis/AGIF
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

24/01/2022 11h25

A semifinal da Copinha entre São Paulo x Palmeiras teve um episódio de invasão de campo e uma faca no gramado. Além disso, uma organizada são-paulina intimidou e agrediu torcedores do próprio time por uma polêmica relacionada a um apelido, segundo relatos de pessoas no estádio. O jogo de garotos tornou-se, assim, um símbolo de violência e intolerância.

Sempre quando ocorre esse tipo de evento ressurgem discussões sobre as soluções para o problema. Entre os tópicos de debate estão a punição esportiva a clubes, penas a torcedores individualmente, restrição a torcida única e a organizadas.

Primeiro, é preciso ressaltar que não há uma contradição entre punir as pessoas e as agremiações. Na Inglaterra, maior case de combate à violência em estádios, foram usados ambos os procedimentos para resolver o ambiente de violência na década de 80. Também não há relação entre a torcida única e redução da violência como pode se observar no jogo da Copinha em Barueri.

Na Europa, a partir da tragédia de Heysel, em 1985 - em que 39 torcedores da Juventus morreram em jogo com o Liverpool -, houve punição criminal a torcedores do time inglês e equipes do país foram banidas das competições europeias que durou cinco anos. Foi com essa fórmula que a Inglaterra começou a mudar o ambiente de seus estádios.

Pois bem, no Brasil, as punições contra indivíduos continuam a ser raras ou ineficientes. As listas de torcedores proibidos de entrar em estádio não costuma ser grande e não são todos os clubes que retiram torcedores violentos de seus quadros de sócios ou os impedem de entrar em partidas. Penas criminais ocorreram em eventos específicos, como a invasão da torcida do Coritiba em 2009 e a briga de corintianos com a PM no Maracanã em 2016.

Aliado a isso, os tribunais esportivos têm sido mais brandos do que no passado nas punições a brigas e invasões de campo. No Brasileiro de 2021, a torcida do Grêmio invadiu o campo, quebrou o equipamento do VAR e entrou em confronto com a polícia. Inicialmente, o STJD estabeleceu 10 jogos de portões fechados para os gremistas. Mas só três foram cumpridos antes que a pena fosse amenizada pelo tribunal: só um setor ficou fechado por todos os jogos.

Lembremos, em 2009, a torcida do Coritiba invadiu o campo após o rebaixamento distribuindo agressões no campo. O clube foi punido com 30 jogos de perda de mando de campo, depois reduzidos para dez. Naquele episódio, houve punição criminal a certos torcedores invasores, com condenações e prisões. A confusão da torcida vascaína em jogo com o Flamengo, em 2017, levou à interdição do estádio e perda de seis mandos de campo.

No Brasileiro-2021, outro episódio de violência foi uma briga generalizada entre as torcidas do Athletico e Atlético-MG em partida pelo Brasileiro. O jogo chegou a ser interrompido tal a dimensão do confronto. Nenhum dos times sequer perdeu mando de campo: a sanção foi apenas uma multa de R$ 50 mil.

Em 2013, uma briga generalizada entre vascaínos e corintianos, em Brasília, levou a perda de mando de campo de quatro jogos para cada um dos times. Inicialmente, as penas seriam os estádios fechados, mas foram convertidas em jogos longe da sua praça. Na Libertadores, Flamengo e River Plate já tiveram estádios fechados por dois jogos por violência de suas torcidas - punições brandas, diga-se.

As indicações destas penas recentes são de que o sistema esportivo brasileiro parece não acreditar mais nas punições esportivas como combate à violência. Lembremos que essa não é uma invenção brasileira: além do exemplo inglês, UEFA também pune com estádios fechados casos de violência extrema e racismo.

Não há dúvida que o problema da violência no campo vai além da questão meramente esportiva. Há grupos criminosos atuando no meio de torcidas, o que deveria gerar investigação policial.

Mas são as penas esportivas que induzem aos clubes a tentar combater o problema e criar um ambiente seguro para seus torcedores. Em relação ao jogo da Copinha, as penas, por regulamento, são restritas à competição de divisão de base, da qual o São Paulo pode ser excluído de até cinco edições.

E só uma pena dura poderá induzir a diretoria do São Paulo a se mexer em relação ao ambiente tóxico que se instalou na sua arquibancada. A torcida organizada do time tem protagonizado seguidos casos de violência, pedras no ônibus do time, ameaças no CT, intimidação em estádio. Seu próprio torcedor sofre enquanto o clube solta notas tímidas e se omite na proteção ao ambiente dos seus jogos. O clube seria tão condescendente se tivesse de pagar com estádio fechado em jogos?